A Europa evitará o abismo?

Nova reunião do Conselho Europeu pode rever, nesta quarta-feira, políticas que estão devastando continente. Mas François Hollande enfrentará Angela Merkel?

Por Antonio Barbosa Filho

BRUXELAS (Bélgica) – Foi a semana mais tensa do ano, até esta altura, nos corredores e salas do Conselho Europeu e da Comissão Européia (CE), em Bruxelas. Aos problemas políticos da Grécia, que tornam imprevisível o rumo da Economia e até mesmo a permanência do país na chamada Eurozona, veio somar-se o abalo sofrido pelos bancos espanhóis, dezesseis dos quais tiveram suas “notas” rebaixadas pela agência de risco Moody’s.

Sobre ambos os temas houve declarações contraditórias e muitos rumores em Bruxelas e nos centros de decisão da Europa. Com diferença de poucas horas, o porta-voz da Comissão Européia, Olivier Bailly, declarou que “a CE nega firmemente que esteja trabalhando com um cenário de saída da Grécia do euro”; e o comissário europeu de Comércio, Karel de Gucht afirmou, em entrevista ao jornal belga De Staandard,  que o Banco Central Europeu e a CE têm planos de emergência caso a Grécia decida sair da moeda-única e, neste caso “o euro não irá desaparecer”.

TEXTO-MEIO

Nas eleições do dia 6 de maio, o eleitorado grego repudiou os dois principais partidos que defendem os acordos com a União Européia, o Banco Central Europeu e o FMI (a troika). Como nenhum partido obteve maioria e nem foi possível formar-se um governo de coalisão, o país voltará às urnas no dia 17 de junho. Caso o partido de esquerda Syriza, que chegou em segundo lugar com o quádruplo dos votos que obteve em 2009, cresça ainda mais, a possibilidade de uma ruptura com os tratados de corte radical de direitos sociais e servições públicos (a mal-chamada “austeridade”) é muito grande. Mesmo que um novo governo não opte por este caminho, o país poderá realizar um plebiscito a respeito. Neste caso, o resultado é previsível: 54%  dos gregos acham melhor permanecer no euro, mas sem a continuidade dos atuais sacrifícios impostos pelo acordo com a troika. Só 34% defendem o euro a qualquer custo, enquanto 7% já desejam o retorno à antiga dracma imediatamente.

Enquanto o nó político não se desata, em Bruxelas as opiniões se dividem. O coro mais forte é pelo cumprimento de todos os compromissos assumidos pelo governo grego,  na linha de mais cortes de gastos públicos, menores salários, maior idade para aposentadorias (em menor valor), enfim, o receituário que já foi aplicado na Irlanda (com pífios resultados), e vem sendo imposto a ferro e fogo em Portugal, Espanha e na própria Grécia. Outros, ainda em minoria, mas a cada dia mais convictos diante dos números que não mostram melhoras e sim agravamento da crise, acham que a overdose de “austeridade” está matando o paciente. E que isso poderá alastrar-se no espaço e no tempo.

As estratégias alternativas passariam pelo alongamento dos prazos para que os países ajustem seus déficits públicos, reformas fiscais mais justas que desagravem os trabalhadores e recaiam sobre as grandes fortunas e ganhos de capital, e a utilização do Banco Europeu de Investimentos para financiar especialmente as pequenas e médias empresas. Elas são as mais afetadas pelo enxugamento dos financiamentos bancários, e são as que podem gerar mais empregos a curto e médio prazos. Este último item tem sido mencionado com insistência pelo novo presidente francês, François Hollande, que está levando o tema ao G-8, reunido nos Estados Unidos, e nas conversas pessoais com os demais líderes.

Espanha: Em quatro anos, o governo espanhol transferiu para os bancos do país 110 bilhões de euros, para que tivessem liquidez e para enfrentar o aumento na inadimplência. Nesta semana a agência de riscos Moody’s fez despencar as ações dos principais bancos (inclusive os gigantes Santander, BBVA, Caixa Bank e Banesto) ao rebaixar seus ratings coletivamente. Na semana anterior, a agência havia feito o mesmo com 26 bancos da Itália, o que o setor considerou um ato “irresponsável” numa conjuntura incerta como a atual.

No caso espanhol, os argumentos da Moody’s foram as “condições adversas em que operam os bancos”, “menor solvência creditícia”, rápida deterioração da qualidade dos ativos, e as restrições no acesso aos mercados”. Mas o rebaixamento veio numa hora em que o governo conservador de Mariano Rajoy achava estar tranquilizando o setor financeiro, depois de nacionalizar parcialmente o banco imobiliário Bankia e anunciar um decreto obrigando os bancos a aumentar suas provisões para enfrentar possíveis prejuízos na área do financiamento imobiliário. Ou seja: cada sacrifício feito pelo governo (isto é, pelo povo) espanhol, é seguido por novas exigências de aperto.

Por tudo isso, Grécia e Espanha deverão ser os temas principais da reunião de cúpula informal convocada para este dia 23, em Bruxelas. Os chefes de Estado vão se debruçar sobre o andamento dos programas de austeridade e seus resultados nada animadores – mas que serão defendidos ferrenhamente pela primeira-ministra Angela Merkel. Só que, pela primeira vez, ela terá um antagonista à mesa: será a estréia nos debates (eles já discutiram no G-8, mas nunca no quadro da União Europeia) do novo presidente francês François Hollande.

Antonio Barbosa Filho é jornalista e escritor, autor de A Bolívia de Evo Morales e A Imprensa x Lula – golpe ou sangramento? (All Print Editora). Em viagem pela Europa, acompanha as consequências da crise financeira pós-2008 e da onda corte de direitos sociais (‘políticas de austeridade’) iniciada em 2010

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Antonio Barbosa Filho

Jornalista e escritor, autor de A Bolívia de Evo Morales e A Imprensa x Lula – golpe ou sangramento? (All Print Editora). Em viagem pela Europa, acompanha as consequências da crise financeira pós-2008 e da onda corte de direitos sociais (‘políticas de austeridade’) iniciada em 2010