A Europa em seu labirinto

Por Roberto Savio, de Other News | Tradução Antonio Martins

O presidente do Conselho de ministros de Finanças da Europa e primeiro-ministro de Luxemburdo, Jean Claude Junker, ficou famoso por ter declarado: “Todos sabemos o que deveríamos fazer, mas se o fizéssemos perderíamos todas as eleições”. Esta frase, uma declaração de impotência da política, indica o caminho que o continente está seguindo.

O governo de Portugal é a última vítima deste caminho. Todos os mecanismos criados pelas instituições europeias para ajudar seus membros em crise estabelecem como condição eliminar o déficit orçamentário nacional. Mas já temos dados suficiente para saber em que estamos nos metendo.

Grécia, Irlanda e agora Portugal têm acesso a centenas de bilhões de euros de ajuda. Mas trata-se de empréstimos e embora os juros sejam um pouco mais baixos do que cobram os bancos privados, permanecem muito altos. Acumulam-se a cada dia. Para receber tais créditos, os governos comprometem-se a cortar seus orçamentos mais do que seria politicamente aceitável. E no caso de países com alta dependência do gasto público para sua estabilidade e crescimento, cortes drásticos significaram sempre desaceleração econômica, quando não inflação, o que torna ainda mais difícil pagar cada euro da dívida.

Em economia, a isto se dá o nome de “a armadilha da dívida”. O remédio tradicional era desvalorizar a moeda nacional, o que agora é impossível para os 17 países que adotaram o euro como moeda única – ou, então, declarar algum tipo de moratória, igualmente impossível, já que arrastaria todo o castelo europeu. Simon Tilford, economista-chefe do Centro para a Reforma Europeia, de Londres, escreveu: “Há um limite para os cortes de orçamento que um governo pode aplicar e sobreviver politicamente” se não se vê, como luz no fim do túnel, uma perspectiva de crescimento econômico.

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Mas sabemos que esta luz não se vê na Grécia, Irlanda ou Portugal. As estatísticas dizem que os Estados não puderam aumentar suas receitas – ao contrário. Em boa medida, porque o déficit social aumenta, com desemprego e redução de investimentos privados e sobretudo públicos. Como observou Antonio Nogueira Leite, economista do Partido Social Democrático português (opositor e à direita do primeiro ministro demissionário José Sócrates): “As probabilidades de que a Grécia tenha de reestruturar sua dívida não são menores que há um ano e os negociadores levarão isso em conta, quando discutirem o tipo de juros que se aplicará aos empréstimos europeus”. E a revista Economist escreveu: “O plano internacional para salvar a Grécia está paralisando o país”.

Como sempre, descobre-se que um fator importante é o sistema financeiro. Os bancos da Alemanha, França, Grã-Bretanha e Holanda, por exemplo, têm uma grande quantidade de bônus da Grécia, Irlanda e Portugal. E se estes últimos não puderem pagar suas dívidas, o sistema de bancos de primeira linha – considerados fortes – enfrentará uma crise grave.

Enquanto isso, a reforma financeira britânica, que deveria introduzir medidas de controle para evitara no futuro os excessos especulativos que causaram a crise atual, produziu resultados muito limitados. Os banqueiros voltaram a cobrar vencimentos desmesurados, sem nenhuma relação com os resultados das operações. Sabemos que o sistema continua tendo em suas carteiras 50% dos papéis “podres” (ou “tóxicos”), apesar dos bilhões de dólares destinados a salvar as instituições.

Neste panorama, os Estados Unidos acrescentam elementos de instabilidade internacional. Sua crise foi simbolizada pela luta do Partido Republicano para cortar o orçamento federal. Ela terminou com uma derrota para o presidente Obama, obrigado a aceitar um corte de 83 bilhões de dólares. E espera-se, para os próximos dias ou semanas, uma batalha muito mais grave: os republicanos querem reduzir dramaticamente todos os gastos sociais e públicos.

A realidade é, desgraçadamente, muito mais simples. A opinião pública norte-americana não aceita que a carga tributária seja maior que 28% do PIB. Para manter o equilíbrio, esta carga deveria subir para 32%. É algo politicamente impossível, a acabou-se o tempo em que os Estados Unidos podiam viver exportando seus problemas para a economia mundial, graças ao status do dólar como moeda de reserva internacional. Há, a cada ano, menos demanda para os bônus do Tesouro norte-americano, o dólar continua a se desvalorizar e a mais recente expansão monetária (“quantitative easing”), de 60 bilhões de dólares, é provavelmente a última que poderá ser adotada sem causar graves consequências.

Como se vê, também nos Estados Unidos o déficit fiscal prevalece sobre o déficit social. Há alguns dias os eleitores da Islândia votaram contra o uso do dinheiro públicos para saldar as perdas bancárias e os cortes de orçamento. Não seria uma indicação de um caminho alternativo?


Roberto Savio é fundador e presidente emérito da agência de notícias Inter Press Service (IPS) e publisher de Other News.

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Roberto Sávio

Roberto Sávio é fundador e presidente emérito da agência de notícias Inter Press Service (IPS) e publisher de Other News.