A esperança é a última que morre

Começa a arrefecer, timidamente, violência causada pela “guerra ao narcotráfico” no México. Surge movimento pela paz apartidário, mas não apolítico 

Por Tadeu Breda
@tadeubreda

Aproximadamente 50 mil pessoas já foram executadas dentro das fronteiras mexicanas desde 2006, ano em que o presidente Felipe Calderón, apoiado pelo então ocupante da Casa Branca, George W. Bush, decidiu entrar em guerra aberta contra o narcotráfico. Apesar de alta, escandalosa, a cifra é apenas uma estimativa. O número de vítimas pode ser maior, e cresce dia após dia na medida em que as autoridades encontram corpos jogados no mato, carros abandonados com cadáveres no porta-malas ou valas comuns, algumas com dezenas de mortos. Sinais de tortura são fato corriqueiro. Ninguém mais se surpreende com cabeças e membros decepados, mãos amarradas às costas ou ferimentos pelo corpo. São marcas incontestes das agressões físicas sofridas pela vítima antes do golpe de misericórdia.

Ao contrário do que se pode imaginar, não são apenas traficantes e soldados que estão morrendo. No universo de 50 mil vidas perdidas até agora, há incontáveis inocentes — que o governo prefere classificar, no estilo dos falcões do Pentágono, como danos colaterais. “Se o número de assassinatos mantiver o ritmo atual, até o fim de 2012 morrerão mais mexicanos devido à violência do narcotráfico do que os 58 mil estadunidenses caídos na Guerra do Vietnam”, compara Jorge Casteñeda, ex-ministro de Relações Internacionais do México. “Até o fim do governo de Felipe Calderón, mais de 50 bilhões de dólares terão sido gastos no cambate aos cartéis da droga, com resultados pífios.”

Todos os analistas, políticos e cidadãos mexicanos concordam: a situação é dramática. Duas notícias, porém, permitem, não sem certa dose de otimismo, intuir que as coisas lentamente começam a melhorar. A mais recente delas é um estudo divulgado pelo Instituto Transfronteiriço da Universidade de San Diego, nos Estados Unidos. De acordo com seu diretor, David Shrink, o número de vítimas da guerra mexicana contra o narcotráfico sofreu uma redução de 28,4% entre 2010 e 2011. Se no ano passado foram assassinadas pelo menos 15.273 pessoas, entre janeiro e novembro do presente ano houve um mínimo de 10.933 execuções. Os dados foram coletados nos meios de comunicação mexicanos, que, desde o início dos confrontos entre policiais, forças armadas e traficantes, assumiram a tarefa de informar, com maior ou menor grau de sensacionalismo, os episódios de carniceria que passaram a dominar o cotidiano do país.

Geografia da violência

Claro, as mortes não se distribuem por igual pela extensa geografia mexicana. Os cartéis atuam em praticamente todas as regiões do México, disputando pontos de venda locais e também rotas de passagem para o amplo mercado estadunidense. Contudo, algumas cidades ostentam índices de violência mais alarmantes que outras. E o caso mais grave pode ser observado em Ciudad Juárez, que, graças a uma taxa de 191 homicídios por 100 mil habitantes, ostenta o título de cidade mais violenta do mundo. A título de comparação, São Paulo e Rio de Janeiro registraram, em 2009, uma taxa de 40 e 100 homicídios por 100 mil habitantes, respectivamente.

TEXTO-MEIO

Não por acaso, Juárez encontra-se exatamente na fronteira com os Estados Unidos. Estima-se que, ali, mais de 9 mil pessoas foram assassinadas desde 2006 — um quinto de todas as execuções registradas no país. Além das mortes, a guerra (dos cartéis entre si e destes com as forças de segurança) também provocou a fuga em massa de cidadãos. A Prefeitura acredita que entre 7 mil e 9 mil juarenses deixaram a cidade para refugiar-se a poucos quilômetros dali, mas do outro lado da fronteira, na cidade de El Paso, Texas. “A maioria são empresários que foram ameaçados de extorsão e sequestro pelos criminosos”, informava, em julho do ano passado, o prefeito José Reyes Ferril. No total, mais de 250 mil pessoas deixaram a cidade por causa da escalada da violência. Em 2010, dados oficiais asseguravam que a fuga já havia deixado às moscas entre 14 mil e 18 mil residências em Juárez.

A Cidade do México, até por ser a capital do país, é uma das regiões mais imunes aos efeitos da guerra. Pelas estradas e cidades do interior, é rotineiro ver comboios do exército. São homens fortemente armados, mascarados e alertas. Sua presença gera apreensão e desconfiança — quando menos, desconforto — nos cidadãos. A sensação é que os soldados podem atacar ou serem atacados a qualquer momento. Caso aconteça, ninguém quer estar por perto. No Distrito Federal, porém, é mais difícil vê-los. O que há são policiais, como em qualquer metrópole latino-americana.

Contudo, a presença ostensiva dos agentes não impediu que duas jornalistas fossem assassinadas na capital em setembro passado. Seus corpos foram encontrados num parque, nus e estrangulados. Fazia quase 30 anos que nenhum jornalista morria na Cidade do México devido à sua atividade profissional. O último assassinato do tipo ocorrera em 1984. “A imprensa mexicana sempre foi mais vulnerável fora das grandes cidades”, contextualiza Darío Ramírez, diretor da organização internacional Article 19, que já contabilizou pelo menos 8 jornalistas mortos violentamente no país nos primeiros sete meses de 2011. “A falta de proteção faz com que a imprensa tenha que optar por um silêncio que destrói o direito da sociedade à informação”, lamenta.

“Apesar de ter melhorado, a situação continua bastante ruim, até porque, em 2010, houve ao menos 20% mais assassinatos do que em 2009”, pondera David Shrink, da Universidade de San Diego, para quem o “sofrimento” do México se deve não apenas ao elevado consumo de drogas nos Estados Unidos, mas também ao tráfico de armas, que faz o caminho contrário, da margem norte para a margem sul do Rio Bravo. Até mesmo o Departamento de Justiça dos Estados Unidos já reconheceu o fato. Segundo Lanny Breuer, que dirige a divisão criminal da instituição, pelo menos 64 mil das 94 mil armas apreendidas pelas autoridades mexicanas nos últimos cinco anos — ou seja, 70% — eram Made in USA.

Vale lembrar que recentemente o governo do México foi surpreendido ao saber que, entre 2009 e 2011, o Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF, na sigla em inglês) abriu as fronteiras gringas para a passagem de pelo menos duas mil armas que iriam abastecer criminosos mexicanos. A operação, denominada “Rápido e Furioso”, era uma estratégia para rastrear redes de contrabando que atuam entre Estados Unidos e México. Mas não cumpriu seus objetivos. “É imperativo mudar a política de combate ao narcotráfico também do lado de cá da fronteira”, explica Shrink.

Reação popular

Os números, porém, não conseguem, sozinhos, contar toda a história. Por trás de cada assassinato existem sentimentos encontrados de dor, perda e revolta que, finalmente, cinco anos após o início da guerra, começam a tomar forma perante a opinião pública. E um dos grandes responsáveis pela visibilização da tragédia humana vivida pelos mexicanos e mexicanas é o Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade, capitaneado por Javier Sicilia, jornalista e poeta — ou melhor, ex-poeta, porque, desde que seu filho foi sequestrado, torturado, assassinado e encontrado de mãos atadas no porta-malas de um carro, o lirismo de seus versos deu lugar a uma espécie de luto político que pretende transformar o país. Eis o segundo indício de que as coisas podem estar começando a mudar no México.

Ao saber que a guerra batera à sua porta, Sicilia reagiu como poucos pais conseguiriam reagir. Pediu paz, não vingança. Mas não uma paz despolitizada, que se atém a pombas brancas e passeatas silenciosas. Como colaborador da revista Proceso, semanário combatido, sabia que a dramática situação de seu país não é uma luta entre mocinhos e bandidos — são muitas as evidências de que o alto escalão do governo federal está envolvido de alguma maneira com o narcotráfico. Como poeta, Sicilia soube verbalizar a dor que sentia. E, como católico fervoroso que é, conseguiu dialogar com uma população mundialmente conhecida por sua inclinação ao cristianismo.

Mas Sicilia não precisou esforçar-se muito para criar o movimento que, com menos de um ano, já é um dos mais importantes do país. Antes que o poeta pudesse pronunciar-se sobre sua tragédia familiar, o povo de Cuernavaca, onde mora, já havia ganhado as ruas para protestar a morte de seu filho, Juan Francisco, que virou um símbolo. O sacrifício de um jovem que sabidamente não possuía qualquer vínculo com os cartéis da droga chacoalhou uma parcela da sociedade mexicana ao ponto de fazê-la acordar para o fato de que, ao contrário do que dizia o governo, não eram apenas criminosos que estavam morrendo na guerra.

A partir de então, Javier Sicilia esteve à frente de três grandes acontecimentos nacionais. Primeiro, uma marcha de Cuernavaca à Cidade do México, que caminhou pelas montanhas de Morelos e finalizou com uma ampla concentração no Zócalo, a gigantesca praça da capital, que ficou lotada. Depois, uma caravana carregada de simbologia entre a Cidade do México e Ciudad Juárez, no norte do país, refazendo o trajeto da cocaína que vem da Colômbia e que, para alcançar os narizes estadunidenses, deixa milhares de vítimas pelo caminho. Por fim, outra caravana, da capital mexicana ao Estado mais pobre do país, Chiapas, na fronteira com a Guatemala, onde o narcotráfico ganha força. Lá, os manifestantes reuniram-se com imigrantes e representantes do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), que apoia sua causa.

Assim, de peito aberto, o Movimento pela Paz com Justiça e Dignidade, apartidário, conseguiu uma audiência pública com o maior entusiasta da guerra, Felipe Calderón, e disse na cara do chefe de Estado o quanto a militarização do país estava prejudicando a população — sem que a escalada repressiva tenha reduzido a venda de drogas ou reduzido o poderio dos cartéis. A pressão social do movimento também fez com que o governo aceitasse instituir uma mesa de diálogo permanente com as vítimas do conflito. Assim, o poeta e o presidente puderam sentar-se à mesma mesa e ouvir um ao outro, com transmissão ao vivo para todo o país.

Mais que o diálogo de alto nível, porém, talvez a maior conquista de Javier Sicilia e seus apoiadores tenha sido revelar ao país os nomes, sobrenomes e rostos castigados pela perda de filhos, filhas, maridos, esposas, irmãos e irmãs executados ou desaparecidos ou injustamente aprisionados por causa de uma guerra que jamais foi sua. O movimento humanizou os números arrebanhando gente comum, pobre em sua maioria, que, sozinha, jamais conseguiria externalizar seu sofrimento, mas que, junta, pôde gritar bem alto: “Estamos hasta la madre” (Estamos fartos) e No más sangre (Chega de sangue). Parece impossível entender o México atual sem olhar para os olhos de cada um deles. Graças ao trabalho voluntário de cineastas e fotógrafos, está tudo registrado e pode ser facilmente visualizado na página Emergencia MX.

Eleições

Após seis anos à ocupando a Residência Oficial de Los Pinos, Felipe Calderón concluirá seu mandato em 2012. Atento às críticas, embora pouco disposto a acatá-las, o presidente já expressou mais de uma vez a decepção que sentiria caso fosse lembrado apenas como o homem cujo projeto de governo — ou seja, a guerra contra o narcotráfico — causou a morte de dezenas de milhares de mexicanos. Mas as notícias diárias de assassinatos e execuções dificilmente farão com que a população se lembre de outra coisa.

Após triunfar, em eleições pra lá de questionáveis, sobre Andrés Manuel López Obrador, do Partido da Revolução Democrática (PRD), Felipe Calderón foi o segundo membro do Partido de Ação Nacional (PAN) a ocupar a Presidência do México. Antes dele veio Vicente Fox, homem que conseguiu derrotar nas urnas a hegemonia de 71 anos do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que permaneceu à frente do governo entre 1929 e 2000.

Na época, a vitória do PAN foi amplamente comemorada como sinal inequívoco de amadurecimento da democracia mexicana. Mas a alegria durou pouco: 12 anos após seu feito histórico, com uma guerra repleta de “danos colaterais” no meio do caminho, o partido de Fox e Calderón dificilmente continuará no poder. Há dúvidas, porém, de que a mudança será para melhor. As prematuras pesquisas de opinião pública sinalizam o retorno do PRI, agora na figura de Enrique Peña Nieto, o jovem e bem-apessoado governador do Estado do México. O cálculo político dos eleitores mexicanos é inevitável: não é que as coisas eram boas na época do PRI, ou que não houvesse narcotráfico, mas, pelo menos, não havia tanta violência.

A jornalista Anabel Hernández, autora do livro Los señores del narco, explica que, até o ano 2000, os governos nacionais do PRI estabeleciam acordos com todos os cartéis, sem exceção, dando-lhes garantias para atuar num determinado território. “Os bandos conviviam com relativa tranquilidade, pois havia mercado para todos.” A ascensão do PAN desequilibrou a balança, não porque o partido tivesse tomado para si a missão de acabar com o tráfico de drogas no México, como prega Felipe Calderón, mas, segundo a autora, porque o governo panista passou a favorecer um só cartel em detrimento dos demais.

“Existem expedientes oficiais dizendo que a Polícia Federal protege o cartel de Sinaloa”, explica Anabel Hernández, que atualmente está jurada de morte e só sai na rua com guarda-costas. A maior prova da preferência do governo — revela — foi a inexplicável fuga de Joaquín “El Chapo” Guzmán de um presídio de segurança máxima, em 2001, durante o governo de Vicente Fox. O criminoso, que é líder do cartel de Sinaloa, continua foragido e figura nas listas da Interpol como um dos homens mais procurados do mundo. “O governo decidiu proteger Sinaloa e combater seus inimigos com a força do Estado. O exército entra em territórios que pertencem a outros cartéis, expulsa-os de lá e, depois, deixa que os criminosos de Sinaloa ocupem seu lugar.”

O exemplo de Tijuana

A teoria de Anabel Hernández pode não ser infalível, mas o que aconteceu em Tijuana prova que tampouco é disparatada. Também localizada na fronteira dos Estados Unidos, a cidade começou a sofrer duramente com assassinatos, tiroteios e massacres após o início da guerra, em 2006. Disputavam a primazia do mercado de drogas neste importante ponto fronteiriço, localizado ao lado de San Diego, na Califórnia, os cartéis de Sinaloa e de Tijuana, que atua por lá desde 1989. O conflito aberto fez com que a cidade assistisse a 844 homicídios em 2008, auge da violência, cifra que caiu muito nos últimos anos. Entre janeiro e setembro de 2011, foram “apenas” 349 execuções.

O presidente Felipe Calderón diz que a redução do número de assassinatos é fruto de sua política de combate ao narcotráfico. Sim, dizem alguns analistas, mas não é que a comercialização das drogas tenha diminuído — ou que os cartéis tenham desaparecido. “A droga continua fluindo, sem dúvida. O que diminuiu foi a violência entre os bandos criminosos”, explicou à Reuters Edgardo Buscaglia, especialista em segurança do Instituto Tecnológico Autônomo do México (ITAM). “O crime organizado continua, mas, agora, está sob a tutela de um grupo consolidado.”

Esse “grupo consolidado” é o cartel de Sinaloa, que começou a predominar no submundo tijuanense na medida em que as forças de segurança do Estado mexicano avançavam sobre os membros do cartel de Tijuana, liderado pela família Arellano Félix, e prendiam seus cabeças. O enfraquecimento de um cartel em detrimento do outro reduziu a intensidade das disputas — e, consequentemente, os níveis de violência. Ainda mais porque, segundo oficiais de Inteligência norte-americanos, um dos chefões do cartel de Tijuana que ainda não morreu nem foi preso, Luis Fernando Sánchez Arellano, firmou acordos de associação com El Chapo Guzmán, incluindo um pacto de não-agressão.

Ao mapear a redução no número de mortes violentas no México entre 2010 e 2011, o diretor do Instituto Transfronteiriço da Universidade de San Diego, David Shrink, desconfia que a queda nos índices de assassinato deve-se muito mais a convênios firmados entre os próprios cartéis do que à guerra do governo contra o narcotráfico. De acordo com o especialista, o exemplo de Tijuana é paradigmático e pode ser adotado pelos bandos criminosos que atuam em outras cidades mexicanas — contando com a complacência do governo, que comemora a redução da violência. Isso significaria, na prática, um retorno ao estado-de-coisas prévio à militarização do país. Nesse caso, as mais de 50 mil mortes de Felipe Calderón terão sido mais do que vãs — e teriam ainda menos sentido do que já não têm. “Seria uma grande tragédia”, conclui. —@tadeubreda

TEXTO-FIM

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Tadeu Breda

Tadeu Breda, jornalista, é autor de Memória Ocular (2016) e O Equador é verde: Rafael Correa e os paradigmas do desenvolvimento (2011), ambos publicados pela Editora Elefante.