A deliciosa despedida de Alain Resnais

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Última obra do diretor, “Amar, beber e cantar” apropria-se de estratégias do teatro para resgatar, em tempos difíceis, poder de sonho e invenção do cinema

Por José Geraldo Couto

Alain Resnais (1922-2014) sempre foi visto como “cineasta do tempo e da memória”, reputação construída em obras-primas como Hiroshima, meu amor, O ano passado em Marienbad, Muriel e Providence. Com o passar do tempo, Resnais passou a ser reconhecido também como um tremendo construtor/inventor de espaços.

Assim como embaralhou as fronteiras entre passado, presente e futuro, o cinema de Resnais derrubou paredes, subverteu distâncias, criou ambientes maleáveis e virtuais, comandados pela imaginação e pelo desejo.

É esse sortilégio que se destaca em seu último filme, Amar, beber e cantar, baseado em peça do dramaturgo londrino Alan Ayckborn, o mesmo de Smoking/No smoking (1993) e Medos privados em lugares públicos (2006), outros êxitos da fase final do cineasta.

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Em Amar, beber e cantar, em cartaz nos cinemas brasileiros, acompanhamos um grupo de atores semiamadores de meia-idade que estão se preparando para encenar uma peça quando ficam sabendo que outro velho amigo deles está com um câncer terminal. Tudo passa a girar em torno desse personagem ausente, George. Fala-se dele o tempo todo, as mulheres do grupo passam a rodeá-lo de cuidados, inquietando seus maridos, mas ele mesmo nunca aparece, a exemplo da sempre citada diretora da peça, uma certa Peggy.

Fora do quadro

A essa estratégia da peça, de ocultar personagens centrais, dos quais depende a ação dos que estão em cena, corresponde uma operação análoga da mise-en-scène de Resnais, que consiste em deixar fora do quadro boa parte dos acontecimentos.

Um caso evidente é o da festa de 16 anos da filha de um dos casais. Ouvimos os ruídos da montagem do palco, a chegada dos equipamentos, depois a música, o burburinho, mas não vemos absolutamente nada. O dono da casa, Jack (Michel Villermoz), grita com os operários, chama a filha, mas nunca temos o contracampo que mostraria com quem ele está falando. A festa se passa na nossa cabeça.

A própria construção do cenário é ostensivamente teatral: as paredes são grandes faixas verticais de pano colorido, como as que ficam no fundo de um palco; dois ou três arbustos sugerem um bosque. As únicas locações “reais” são os planos de estrada que servem de ligação entre as cenas, quando há mudança de ambiente.

Cinema e teatro

Há nessa atitude uma ousadia e um frescor admiráveis para um cineasta nonagenário. Sua despreocupação com o naturalismo e a verossimilhança chega às raias da desfaçatez, numa época em que o cinema parece ter perdido a capacidade de inventar e sonhar. É como se Resnais lançasse mão da liberdade de imaginação do teatro sem contudo se deixar coibir por suas limitações e convenções, potencializando os dois meios de expressão (teatro e cinema), fazendo com que se enriqueçam reciprocamente.

Resnais, que trabalha aqui com alguns de seus atores habituais (Sabine Azéma, André Dussolier, Michel Vollermoz), não atinge em Amar, beber e cantar, a meu ver, a mesma forma esplendorosa de seu longa anterior, Vocês ainda não viram nada (2012), talvez a obra-prima de sua última fase. Mas poucos diretores terão se despedido do cinema e da vida com um filme tão leve, delicioso, encantador.

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José Geraldo Couto

*José Gerado Couto é crítico de cinema e tradutor. Publica suas criticas no blog do IMS. Para ler as edições anteriores da coluna, clique aqui.