Barghouthi: Palestina fará revolução não-violenta

Líder da resistência pacífica à ocupação diz que Primavera Árabe transformou Oriente Médio e que independência também libertará Israel

Entrevista a Katy Waldman, em Slate | Tradução: Gabriela Leite Martins

Um espetáculo midiático recorrente e inútil voltará a ser encenado nesta terça-feira (10/1) em Annam, capital da Jordânia. Por insistência do chamado “Quarteto” de negociadores (ONU, EUA, Rússia e União Europeia), delegações da Palestina e Israel vão se reunir, em “encontros exploratórios” visando a eventual retomada de negociações entre as duas partes.

O que seria, em condições normais, um diálogo auspicioso, tem desta vez tons de farsa. Em setembro de 2011, a Autoridade Palestina (AP) requereu ingressar na ONU com plenos direitos — um passo que, caso se concretize, terá grandes repercussões no direito e na geopolítica internacional.

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Washington e Telavive reagiram a este pedido de maneira extravagante. Diante de um simples pedido, que cabe aos países-membros da ONU acatar ou repelir, os EUA bloquearam os programas já minguados de assistência à Palestina. Israel foi mais truculento: passou a sequestrar os tributos que arrecada em território palestino em nome da AP e que está obrigada, por acordos internacionais, a devolver.

Nestas circunstâncias, o encontro da Annam é uma tentativa de desviar o foco do debate, evitando que a reivindicação palestina à ONU seja debatida em profundidade. Ainda assim, a AP — que não deseja abrir nenhuma brecha para ser taxada de intransigente — participará dos trabalhos “exploratórios”. Nabil Shaath, um de seus negociadores, explicou hoje que a presença em negociações efetivas depende de um gesto simbólico por parte de Telavive: congelar a instalação de novas colônias de ocupação em território palestino. É um preço que o governo do premiê Benyamin Nataniahu não está disposto a pagar.

Mas de que forma prosseguirá a luta pela independência, longe do teatro de Annam? Numa importante entrevista à revista norte-americana “Slate”, Mustafa Barghouti, o principal líder da resistência pacífica palestina, procura responder a esta pergunta. Ele acredita que a ação junto à ONU é uma estratégia eficaz, que obrigará Israel a permanecer na defensiva. E explica que ela se desdobrará em novas iniciativas, num movimento que se assemelha a uma guerrilha diplomática. Há poucos meses, a Unesco — agência das Nações Unidas para a Educação e Cultura — já acolheu o estado palestino. Outros órgãos da ONU serão instados a fazer o mesmo, ao longo deste ano. Telavive pode se ver constrangida a sofrer uma série grave de derrotas e constrangimentos internacionais.

Principal referência da Iniciativa Nacional Palestina, Barghouti é um personagem de importância crescente nas lutas pela liberdade de seu país. Em 2005, disputou eleições pela presidência da AP. Obteve quase 20% dos votos, num ambiente polarizado pelo Fatah (corrente majoritária, fundada por Yasser Arafat mas então desgastada por um processo de burocratização) e o Hamas (à época, marcado pelo fundamentalismo islâmico). Desde então, tem insistido em uma estratégia que combina resistência pacífica com apelos ao fim das divisões entre os palestinos. As revoluções não-violentas no Egito e Tunísia ampliaram a autoridade e força destes pontos de vista e têm projetado a figura de Barghouti — cuja entrevista, concedida à repórter Katy Waldman, vem a seguir (A.M.)

Por que o apelo pelo reconhecimento do Estado palestino ocorre agora — e não, digamos, em 1993 ou daqui a cinco anos?

Mustafa Barghouthi: Não aconteceu dez anos atrás por uma razão muito simples. Depois da assinatura do Acordos de Oslo, assegurou-se aos palestinos que a concretização de um Estado aconteceria até 1999. Para nossa grande surpresa, muitos anos depois ainda não havia nenhum progresso nas questões finais. E por que agora? Porque alcançamos um ponto de virada crítico, no qual, se Israel continuar com suas políticas de assentamento, toda a ideia de uma solução de dois estados será perdida. Qualquer outra espera significaria simplesmente o fim dessa solução.

Por que a solução de dois estados seria perdida?

Barghouthi: Por causa das mudanças físicas que estão acontecendo no território, devido à construção de assentamentos. Com eles, a segregação de estradas [leia mais na Wikipedia] e a construção daquele muro horrível — chamamos de Muro do Apartheid — não haverá a contiguidade do território que deveria se transformar no Estado Palestino. As comunidades palestinas vão se tornar nada mais que aglomerados de bantunstões separados uns dos outros. E isso significaria a criação de um sistema de apartheid onde existem duas leis diferentes para dois tipos de povos vivendo na mesma terra — com os palestinos são privados de seus principais direitos humanos.

Mas por que não negociar sobre os assentamentos diretamente com Israel?

Barghouthi: Porque eles continuam insistindo em continuar os assentamentos. E falar com Israel enquanto eles mantém os assentamentos é como dois lados negociando por um pedaço de queijo. Um lado, o palestino, está preso atrás das grades; o outro, israelense, está negociando e comendo pedaços do queijo ao mesmo tempo. Ao final, não haverá mais nada para negociar.

Essa é uma razão. A segunda é que nós tentamos negociações durante vinte anos. Ninguém desconhece que os palestinos fizeram todo o esforço que podiam para negociar. O resultado foi que Israel usou as negociações apenas como disfarce para sua política de expansão, que continua a criar novos fatos de forma unilateral. Se não interrompido, esse processo vai acabar destruindo a possibilidade de um real Estado Palestino.

Nesse, caso, o apelo pela admissão da Palestina pela ONU não é algo que deveria ter sido exigido antes?

Barhouthi: Na minha opinião pessoal, sim. Acho que talvez devêssemos ter feito isso cinco anos atrás. Mesmo assim, antes tarde do que nunca. A iniciativa na ONU está ajudando chamar a atenção do mundo para nossa realidade. Mais importante, isso reestabelece a legitimidade internacional dos direitos palestinos. A lei internacional está do nosso lado — a Corte Internacional de Justiça estabeleceu que todo assentamento israelense nos territórios ocupados é ilegal e deve ser removido; que qualquer muro de segregação é ilegal em si; e que todas as mudanças feitas por Israel à força no leste de Jerusalém estão fora da lei. Os países-membros da ONU são majoritariamente a nosso favor. É uma situação muito estranha: enquanto a maioria das pessoas, em todo o mundo, está do lado dos palestinos, Israel consegue manter uma posição de total impunidade à lei e opinião internacionais, devido ao apoio que tem dos Estados Unidos.

Os adversários da causa palestina alegam que o reconhecimento da ONU é meramente simbólico — que isso não vai mudar em nada a vida das pessoas.

Barghouthi: Bem, se é apenas simbólico, por que se opõem a este passo? Na minha opinião, estão com medo que nosso movimento esteja expondo Israel, revelando sua política equivocada, e a hipocrisia dos países que afirmam apoiar a democracia, os direitos humanos e a autonomia em todos os lugares — mas ficam em silêncio ou são coniventes com as ações de Israel, quando o assunto é o conflito árabe-israelense.

Como essa exposição ajudaria no dia-a-dia dos palestinos?

Barghouthi: Talvez Isso não mude nossa vida quotidiana, mas vai definitivamente dar esperança aos palestinos. Vai suscitar um contexto em que as medidas ilegais praticadas por Israel, graças a seu poder militar de Israel, permaneçam ilegais. Será o poder moral contra o poder militar. Quando entramos para a Unesco [a organização da ONU para a Cultura], estabelecemos, na prática, o poder da cultura contra a cultura do poder.

É assim que países em todo o mundo se libertam. Foi assim que alguém como Gandhi, que não tinha qualquer poder militar, conseguiu unificar a Índia e alcançar a independência. Foi assim que Martin Luther King libertou os Estados Unidos do sistema de segregação. É o poder da ideia, o poder da cultura e da dignidade. E isso é algo que talvez alguns militares não entendam, mas que eu espero que políticos possam entender.

Os oponentes também sustentam que o passo de vocês é extremamente arriscado, por talvez expor o povo palestino a retaliação das forças de defesa de Israel e empoderando fundamentalistas. Há muita preocupação, por exemplo, sobre Israel tentando deter o Presidente Abbas retendo receitas de impostos pertencentes à Autoridade Palestina.

Barghouthi: Esses atos são ilegais. Israel não tem o direito de reter impostos que nós  pagamos, especialmente quando isso já cobra uma percentagem por fazer a arrecadação. Não temos medo dos atos de punição e não seremos mais chantageados. Se Israel e os Estados Unidos continuarem mantiverem sua atitude, a Autoridade Palestina vai desmoronar. E o maior perdedor será Israel.

O que precisamos são novos arranjos, nos quais as reivindicações das pessoas sejam atendidas, e onde não haja mais motivo para a violação da segurança de ninguém. Obviamente, um acordo no qual os palestinos conquistem seus direitos. Se as injustiças continuarem a consolidar um sistema de apartheid pior que o vivido pela África do Sul no século XX, haverá uma reação palestina. As pessoas não irão aceitar. Eu sempre disse que a melhor forma de segurança para todos, inclusive Israel, é a paz e a democracia, em que os dois povos estejam satisfeitos.

Na última terça-feira, a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução afirmando os direitos dos palestinos à autonomia. O que aconteceu em seguida?

Barghouthi: Vamos continuar nossa luta e nossa resistência não-violenta. Estou pessoalmente orgulhoso do fato de que temos defendido a não-violência por dez anos. Agora, todos os grupos palestinos adotaram nossa forma de aproximação, inclusive o Hamas. É moralmente um grande sucesso para nós. E vamos continuar lutando na ONU; iremos a todas as agências, uma após a outra, conseguir nossa adesão desde a base. Não querem nos garantir no Conselho de Segurança? Conseguiremos em todas as outras agências. Vamos continuar nossa resistência não-violenta até conseguirmos nossa liberdade.

Gostaria de voltar por um momento ao que você disse sobre o Hamas, que eles renunciaram à violência. Pode explicar um pouco melhor?

Barghouthi: Em 21 de dezembro eles declararam seu comprometimento com a não-violência. Prometeram claramente que o fariam e anunciaram em público. Essa é a base do nosso acordo no Cairo.

Eles modificaram sua carta de 1988? Acreditam que Israel tem o direito de existir?

Barghouthi: Eles adotaram a solução dos dois estados; estão aceitando as fronteiras de 1967 para a solução, assim como a não-violência. Estão aderindo a ela. Essa é uma grande mudança.

Como você fundou a Iniciativa Nacional Palestina?

Barghouthi: Há anos lutamos para encontrar nosso caminho. Houve uma polarização não saudável entre Fatah e Hamas e uma maioria grande e silenciosa no meio, que buscava alternativa. Criamos a Iniciativa, em 2002. Demos o nome de Iniciativa porque acreditamos que os palestinos não deveriam ser reativos, mas pró-ativos. E a ideia é que precisamos de um movimento que lute não apenas pela liberdade da Palestina, mas por um sistema democrático interno forte e por justiça social. Essas são as três dimensões principais de nosso movimento.

Quando concorremos às eleições presidenciais em 2005, ficamos atônitos com o grande apoio que conseguimos — quase 20% dos votos! Éramos um partido recém-estabelecido, e isso nos encorajou a continuar. Hoje, a Iniciativa é o terceiro partido na Palestina, crescendo constantemente. E como você pôde ver, é muito influente em termos de suas ideias políticas e estratégias, e em termos de ser uma força independente poderosa que pode ajudar a criar as ideias certas para nossa luta e, ao mesmo, tempo pressionar pela unidade palestina.

Muitas pessoas acham que os Estados Unidos não apoiariam a Palestina na ONU a não ser que ela prometesse não processar Israel na Corte Criminal Internacional. Qual a sua reação a isso?

Barghouthi: Eu espero que o presidente Mahmoud Abbas não aceite esses termos. Nós devemos perseguir esse objetivo [ir à Corte Ciriminal Internacional] se Israel continuar a violação. É nosso direito. Se não lutarmos por eles, não iremos servir a ninguém.
Acredito que deveríamos ser mais determinados, ousados e francos com o mundo. Martin Luther King Jr., Gandhi e Nelson Mandela foram francos. Algumas pessoas talvez não gostem, agora, do que fazemos; mas mais tarde gostarão. Sabemos perfeitamente que o Congresso norte-americano será o último a mudar. Isso não é novidade. Aconteceu a mesma coisa com a situação na África do Sul.

Eu me lembro de uma vez em que fui perguntado, numa entrevista para a CNN, sobre a política dos EUA em relação a Israel. Foi mais ou menos três anos e meio atrás. Eu disse: “Olhem para Nelson Mandela! Ele é o político mais respeitado do mundo. Todo presidente norte-americano quer ter a oportunidade de tirar uma foto com ele.” Ainda assim, nesse momento, ele ainda estava na lista de terroristas do Congresso dos EUA. Logo após isso — não sei por que, talvez a entrevista tenha ajudado — seu nome foi removido. Mas foi preciso uma recomendação da então secretária de Estado, Condoleezza Rice.

O fato de o Congresso manter uma política estranha, de completo apoio a Israel, apesar das violações à lei internacional, é um reflexo da fraqueza do sistema político norte-americano. Mas isso não deveria nos impedir de lutar por nossos direitos, porque um dia o Congresso vai acabar reconhecendo que estava errado.

Digo francamente: os próprios israelenses não esatarão livres enquanto nós não estivermos. Eles são reféns do mesmo sistema de ocupação e apartheid que nos oprime. Quando lutamos por nossos direitos como palestinos, acabamos lutando ao mesmo tempo por sua liberdade.

Pode falar mais sobre como vocês lutam pela liberdade dos israelenses?

Barghouthi: Repare que eles estão nos oprimindo, mas são reféns do mesmo sistema opressor. Veja quão amedrontados estão com a questão da segurança. Por quê? Porque eles sabem que estão errados. Sabem que estão motivando e precipitando o ódio por causa de seus atos. Ao continuar nos ocupando, eles criam um forte problema demográfico para si próprios. É uma política completamente contraditória: de um lado, tomam nossas terras, promovem nossa raiva e nos privam de nossos direitos básicos — mas ao mesmo tempo, ao se apoderarem de nossa terra e roubá-la de nós, criam um problema demográfico, porque não vamos sair de lá. Gradualmente, estamos nos tornando iguais a eles em número dentro de Israel. Ao destruir a solução dos dois estados, eles criam apenas uma alternativa: a solução do estado único, que não é o que queremos.

Por isso, quando os forçarmos a nos libertar — se conseguirmos forçá-los a aceitar a solução de dois estados — espero que eles mesmos se libertem. Talvez eles não percebam, mas isso vai acontecer. Vão se libertar do conflito. Se não o fizerem, ao final teremos que libertá-los de outra maneira, que é conseguindo os direitos democráticos em um estado único.

Acredito que a História está repleta de exemplos que mostram que escravizar o outro não faz ninguém livre. Apesar de isso soar um pouco estranho, eu digo e sinto com meu coração que estamos lutando pelo futuro das crianças tanto do estado palestino quanto do israelense. Porque um sistema opressivo cria apenas ódio e não consegue se sustentar. Violência apenas cria violência. Só há uma alternativa para isso, e é o que estamos propondo.

Como o impulso da Palestina por um Estado próprio se encaixa na Primavera Árabe?

Barghouthi: A Primavera Árabe é ótima porque está finalmente trazendo a democracia ao mundo árabe. Os árabes estão sedentos por democracia, sofrendo pela corrupção e o seu sistema opressor. Têm sido privados do direito a prestar forte solidariedade aos palestinos por causa de regimes despóticos. Quanto mais liberdade houver no mundo árabe, mais solidariedade haverá com os palestinos.

Há outro fator importante: o sucesso da democracia no mundo árabe vai contribuir para o sucesso da democracia na Palestina. Para mim, essa é uma das maiores questões, porque não queremos apenas um Estado — queremos um bom Estado, democrático e com direitos iguais, direitos para as mulheres e justiça social.

Finalmente, a Primavera Árabe nos ajudou muito porque apresentou a partidos como o Hamas o poder de não-violência, que é o que defendemos. Lembro de uma reunião com os líderes desses movimentos depois do sucesso das revoluções na Tunísia e no Egito. Disseram: “Vejam, a teoria de vocês está funcionando”. É claro, não é minha teoria pessoal, mas o fato de que estamos defendendo a não-violência definitivamente causa um impacto. Quando viram, na Tunísia e Egito, o êxito das revoluções por via pacífica, eles percebem e agora compreendem quão forte é o poder das pessoas e da não-violência.

Você trás de sua experiência como médico algo para a política ?

Barghouthi: Com certeza. Para ser um bom médico, você tem que ser um bom ser humano. E compreender a perspectiva do ser humano é sempre uma vantagem em minha vida política. Penso que esse aspecto é algo que ajuda muito. Porque você sabe, a políticos pode, algumas vezes, dirigir para decisões e sentimentos equivocados. É uma coisa difícil. Acredito que minha experiência me faz lembrar que o aspecto humano é o mais importante.

Ao mesmo tempo, isso proporciona certa perspectiva em termos de diagnosticar os problemas e tentar encontrar soluções.

Isso ajuda você a discriminar causas e sintomas?

Barghouthi: De certa forma, se você não exagerar, é claro. Algumas vezes as situações são coexistentes.

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Katy Waldman

Katy Waldman é editora assistente da Revista Slate.

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