“Ocupação”, pelo Coletivo Paralaxis


Fotógrafa e documentarista narra convívio com sem-teto paulistanos, do qual resultou produção inovadora sobre lutas por direito à moradia

Por Luciana Cavalcanti, colaboradora de Outras Palavras e integrante do Paralaxis

Conviver com moradores de um prédio que poderia ser desocupado pela polícia a mando da Prefeitura a qualquer momento. Essa era a realidade esperada quando começamos a conhecer aqueles espaços e pessoas do centro de São Paulo, especificamente, dos prédios Prestes Maia, da 9 de Julho e dos hotéis da avenida Ipiranga com São João. Antigos hotéis, abandonados e em risco. Com IPTU não pago há décadas, mas com seus proprietários que não cediam de maneira alguma à permissão de locação ou alguma utilidade habitacional. Simplesmente preferem deixar desmoronar, cair aos pedaços a ceder para os nomeados sem-teto – estes que, quando aportaram ali naqueles prédios ou moravam na rua ou tinham suas casas em risco. Chegaram para tentar “fazer a vida”. Queriam viver dignamente.

Não precisamos muitas vezes saber da estatística do déficit de moradia no Brasil. É visível quando numa tarde andamos pelas ruas. Há uma problemática urbana, principalmente, desde que os campos foram trocados pelas cidades: por falta de trabalho, a mudança era inevitável, salientando que notícias de modernização e “progresso” veiculadas atraíam e ainda muito atraem a população para uma busca de melhor qualidade de vida. E qualidade de vida para a maioria das pessoas é morar, comer, trabalhar e dormir dignamente – no mínimo.

Conhecemos pessoas maravilhosas. E tanto eu, como Fernando e Stefan, ficávamos lá por horas, aprendendo com a organização e disciplina daqueles moradores ansiosos por alguma decisão benéfica à situação deles. Queríamos voltar mais e mais vezes… E voltamos várias e várias e várias… Encontramos muitas vezes pelos corredores dos edifícios com os coordenadores da Anistia Internacional fazendo um trabalho de formiguinha, com perseverança e atitude.

Artistas plásticos, professores, catadores de lixo, eletricistas, aposentados, marceneiros, muitos e em demasiada oraganização impressionaram pela determinação e pela receptividade, principalmente os moradores da avenida Ipiranga com a São João…

Queríamos mostrar um pouco do que víamos e das condições das pessoas que muita gente infelizmente ainda rotula de “vagabundos”. Absurdos perpetuados no consciente coletivo de uma sociedade. Trabalhadores árduos demais. Numa manhã, vi dona Cida fazer um panelão de almoço para os moradores do hotel na Av. Ipiranga que mesmo cozinheira experiente teria dificuldade em aprontar. Uma equipe saía toda manhã para recolher verduras, frutas e legumes no Mercado Municipal do centro. Quatro horas da manhã já estavam de pé.

TEXTO-MEIO

Uma outra equipe ficava responsável pela rede elétrica. Outra pelo abastecimento de água. Muita fé nos olhos! Muitas crianças amorosas que iam para suas escolas distantes daquele lugar, mas porque as mães e pais afirmavam ser o futuro daquelas crianças. “Estudar. Eles precisam estudar. Não tem essa de faltar à escola”, firmemente colocou uma mãe que passava rapidamente descendo as escadas levando seus dois filhos para a escola e já estava atrasada para pegar o ônibus. Todos iam para a escola todos os dias.

No primeiro dia de visita no hotel da avenida São João, conhecemos uma artista plástica que estava organizando uma exposição e um bazar. Vinha de longe. Tinha morado em vários lugares no país. Fez uma exposição bonita e bem original, utilizando-se dos restos encontrados da construção do prédio que ocupou. Infelizmente com a chuva e as goteiras que entravam pelo teto do primeiro andar do prédio, a exposição e o bazar tiveram que ser adiados.

Nosso coletivo pretende abordar ainda mais este tema da Moradia no Brasil… Por enquanto, aqui uma pequena mostra do que começamos a vivenciar acompanhando algumas pessoas com as quais aprendemos muito.

MAIS

> Outras produções do Coletivo Paralaxis podem ser encontradas em seu site

> Este multimídia foi selecionado para o Programa Fotograma Livre, do Festival de Fotografia de Porto Alegre, o FestPoa 2011.

> Vale visitar também o site da banda Rodamundo, da qual participa o talentoso músico Felipe Mancini, responsável pela trilha deste multimídia

TEXTO-FIM
The following two tabs change content below.

Luciana Cavalcanti

Jornalista e fotógrafa independente, atualmente mestranda no Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Faz parte do Coletivo Paralaxis de Fotografia. É pesquisadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares em Imagem e Memória coordenado pelo prof. Boris Kossoy na USP. Foi bolsista na Colômbia e na Bolívia pela Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano. Participou de doze exposições coletivas na América Latina e dos livros de fotografia "O Brasil passa pelo SESC" e "1971-2011 - São Paulo". Escreve sobre fotografia para o blog pessoal http://fotograficaminhamente.wordpress.com.