Cinema: aquela fatídica festa da brutalidade

Alucinação e horror em dois filmes em cartaz. Em ensaio poético, Abismo Tropical retrata o dia em que Bolsonaro foi eleito. Na selva colombiana, dominada por milícias, Monos é parábola sobre a energia juvenil canalizada para a violência

Por José Geraldo Couto, no Blog do Cinema do Instituto Moreira Salles

“Os sonhos são o gênero; o pesadelo é a espécie”, formulou esplendidamente Jorge Luis Borges. Se vale o clichê de que o cinema é “fábrica de sonhos”, é natural que às vezes fabrique também pesadelos – e frequentemente estes são os mais interessantes. Estão entrando em cartaz dois exemplares da espécie: o brasileiro Abismo tropical, de Paulo Caldas, e o colombiano Monos: entre o céu e o inferno, de Alejandro Landes.

Não poderiam ser mais diferentes entre si. Monos é completamente ficcional, Abismo é documental, ao menos quanto às imagens captadas. O colombiano é colorido, o brasileiro em preto e branco. Mas ambos condensam de modo admirável o mal-estar de nossa época, o pesadelo do qual queremos acordar.

O filme de Paulo Caldas não é bem um documentário, mas um misto de crônica pessoal, ensaio poético e tragédia. Desta última, preserva a regra clássica da unidade de tempo e lugar: tudo se passa na avenida Paulista durante o fatídico 28 de outubro de 2018, data do segundo turno da eleição presidencial. Mantém também a estrutura em três atos: antes, durante e depois da votação.

Mais do que a locução em primeira pessoa pelo próprio diretor, o que distancia Abismo tropical do mero registro jornalístico ou do painel amplo de outros documentários recentes sobre a nossa crise política (O processo, de Maria Augusta Ramos; Democracia em vertigem, de Petra Costa; Excelentíssimos, de Douglas Duarte) é sua extrema concentração e depuração estética.

Estados alterados

O preto e branco, que tende naturalmente a estilizar o real, a filmagem em câmera ultralenta, com ocasionais inversões do movimento, as distorções de foco e iluminação e a excepcional trilha musical de Ava Rocha, tudo isso se combina para forjar uma atmosfera de irrealidade, ou antes de hiper-realidade, que só encontramos nos sonhos ou nos estados alterados de percepção.

Pesadelo, em suma. Povoado de bandeiras que sabemos verde-amarelas, camisetas pretas com o rosto do “mito”, pessoas de todas as idades fazendo gesto de arminha com a mão, máscaras com a cara de Donald Trump, crianças espancando furiosamente um boneco do ex-presidente Lula, um homem empunhando uma metralhadora de isopor, policiais militares expulsando jovens do vão livre do Masp. Uma festa da brutalidade.

O real filtrado pela sensibilidade de um artista. Este se expõe desde a primeira frase, em que confessa ter fobia de altura, para em seguida dizer que nasceu em 1964, poucos meses depois que seu pai, coronel do exército, foi preso por se recusar a prender o governador da Paraíba no golpe militar daquele ano. A ponte entre 1964 e 2018 – ligação entre dois abismos – está dada desde o início pelo seu “lugar de fala”.

Finalizado em 2019 e impedido pela pandemia de ser lançado nos cinemas, Abismo tropical está agora disponível na plataforma de streaming InnSaei.TV. Talvez hoje seu impacto seja ainda maior, dado o agravamento da insanidade reinante.

Monos

Insanidade e violência são também a matéria-prima de Monos: entre o céu e o inferno, terceiro longa-metragem do brasileiro radicado na Colômbia Alejandro Landes, que chega aos cinemas depois de premiado em festivais internacionais como o Sundance e San Sebastián.

Na majestosa paisagem das montanhas da Colômbia, um destacamento de adolescentes cumpre um rígido treinamento militar enquanto mantém como refém uma mulher estrangeira, à qual eles (e elas, porque há garotas no grupo) se referem apenas como a “Doutora” (Julianne Nicholson).

São guerrilheiros? Soldados do narcotráfico? Membros de uma milícia? E a sequestrada, quem é? Não sabemos. Só o que sabemos é que um anão musculoso e durão vem regularmente para obrigá-los aos exercícios mais árduos e à disciplina mais férrea.

Jogos brutais

Deixados por longos períodos à própria sorte, os rapazes e garotas entregam-se a jogos e rituais em que o lúdico e o brutal estão intimamente entrelaçados, e já não se sabe o que é briga e o que é brincadeira. Uma noite de bebedeira generalizada e tiros de fuzil-metralhadora disparados a esmo resulta na morte acidental de uma vaca leiteira emprestada à “causa” por um simpatizante.

Começa aí um movimento de desagregação do grupo, de golpes, traições e alianças fluidas, de sobrevivência dos mais fortes. Um ataque ao acampamento faz com que o grupo se embrenhe na selva, aprofundando os conflitos e multiplicando os desafios.

A ausência de informações sobre o sentido da ação dessa pequena brigada sugere um enfoque mais psicanalítico ou antropológico do que propriamente político, fazendo com que o filme seja uma espécie de parábola sobre a energia juvenil canalizada para a violência. Há uma corrente erótica subterrânea que não encontra vazão no sexo, degenerando em bestialidade. Significativamente, o personagem mais silencioso e enigmático, de codinome Rambo, é sexualmente ambíguo, quase andrógino, e encarnado por uma mulher (Sofia Buenaventura).

A situação lembra a do livro O senhor das moscas, de William Golding, só que ambientado no coração selvagem da América Latina, dominado por milícias, narcotraficantes e exércitos brutais. Por outro lado, o título (monos = macacos) faz pensar no recente filme Gênero, pan, do filipino Lav Diaz, outro estudo da tênue fronteira entre o animal e o humano.

Com um perfeito domínio do ritmo e um formidável sentido do ambiente, em que a natureza é uma força viva e ameaçadora, Alejandro Landes construiu um filme belo, estranho e perturbador. Como os melhores pesadelos.

Um índio

E já que estamos falando em estados alterados de consciência, também está chegando finalmente aos cinemas o excelente A febre, de Maya Da-Rin, grande vencedor do festival de Brasília do ano passado. Escrevi sobre ele em dezembro de 2019. De lá para cá, seu impacto e sua urgência só aumentaram.

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