Cinema: a geografia dos desejos proletários

No coração do mundo, de Gabriel Martins e Maurílio Martins, becos, botecos e lajes da periferia de Contagem (MG). Histórias de cotidiano e um grande golpe. Uso inteligente de recursos cinematográficos incita imaginação “fora da tela”

No coração do mundo é um dos destaques de agosto dos cinemas do IMS no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Um dos melhores filmes brasileiros do ano corre o risco de ser pouco visto. No coração do mundo, de Gabriel Martins e Maurílio Martins (que não são irmãos), entra em cartaz em poucos horários de poucas salas espalhadas pelo país, em meio ao tsunami de blockbusters americanos.

Vamos à sinopse, sempre redutora e enganosa. No bairro periférico de Laguna, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, um punhado de personagens se vira como pode para sobreviver: uma é cobradora de ônibus, outra vende produtos de limpeza de porta em porta; um é balconista de loja, outro vive de pequenos roubos; uma fotografa crianças de um colégio, outra quer virar motorista de Uber. Mesclada à crônica desse cotidiano proletário, engendra-se o grande golpe que pode tirar alguns da penúria e franquear seu ingresso no coração do mundo.

Centro e periferia

A ideia de “coração do mundo” – “o lugar pra onde vai o desejo da gente”, nas palavras de uma personagem – é a essência desse filme, com as noções implícitas de centro e periferia, de lugar do sonho e lugar do real. É a miragem que move ou frustra todas as suas criaturas.

Nessa narrativa coral, fragmentada em vários focos, alguns personagens se destacam, conduzindo a ação: o casal de namorados formado pela cobradora Ana (Kelly Crifer) e o pequeno marginal Marquinhos (Leo Pyrata); a desencantada Selma (Grace Passô), que experimenta vários bicos antes de conceber o tal grande golpe citado.

Chama a atenção, antes de tudo, a desenvoltura como que os diretores entrelaçam as várias histórias ao mesmo tempo em que vão construindo a tensão que desemboca no desfecho violento. Uma estrutura que, em seu desenho formal, lembra um pouco a de O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho.

Os planos longos, os diálogos aparentemente banais, os tempos enganosamente mortos, nada é gratuito ou dispensável nessa construção narrativa. Tudo contribui para dar consistência e veracidade aos personagens e suas ações.

Algumas sequências particularmente inspiradas atestam o vigor criativo dos realizadores. Já a primeira cena coloca o espectador no centro desse mundo em movimento. Numa singela festa de aniversário numa praça do bairro, conduzida por uma verborrágica animadora (Karine Teles), ficamos conhecendo o aniversariante Marquinhos e sua namorada Ana, ambos constrangidos por ter de falar clichês ao microfone. De repente, um tiro vindo não se sabe de onde instaura o pânico e a correria. Desse tiro disparado fora do quadro advirão consequências imprevistas ao longo do filme.

Outra sequência admirável mostra, dentro do ônibus, o confronto de uma passageira arrogante e agressiva com a motorista e a cobradora. Tudo é filmado num único plano. A câmera fica quase o tempo todo parada diante da catraca da cobradora, e a maior parte da ação ocorre fora do quadro, obrigando o espectador a construir a cena a partir dos diálogos e dos sons até que a violência invade o plano e como que arrasta consigo o olhar da câmera até o desfecho do episódio.

Ao contrário do cinema preguiçoso e sem imaginação que picota as cenas em campo e contracampo, conduzindo o olhar do público, No coração do mundo tira o máximo proveito dramático e expressivo dos planos contínuos, do fora do quadro, incitando a imaginação ativa do espectador.

Mulheres fortes

Sobre os personagens, há pelo menos duas coisas dignas de nota. Primeiro, que todos – dos mais desenvolvidos aos apenas esboçados – são complexos, com fissuras, fraquezas e ambiguidades. Não há divisão maniqueísta, não há julgamento moral, apenas o desejo de observar cada indivíduo em sua circunstância particular. Ouso dizer que os diretores amam todas as suas criaturas, mesmo as mais infames, assim como amam – ainda que com olhos críticos – a comunidade que retratam e na qual cresceram.

A segunda observação é de que No coração do mundo é um filme de mulheres fortes e homens fracos. Da mais jovem à mais idosa, as mulheres do filme tendem a ser assertivas e a tomar as grandes iniciativas, enquanto os homens – a exemplo do protagonista Marquinhos – hesitam, vacilam, choramingam como bebês crescidos. A exceção que confirma a regra talvez seja Miro (Robert Frank), irmão trabalhador do delinquente trapalhão Beto (Renato Novaes).

No mais, é bonito ver como o pessoal da Filmes de Plástico, grupo de jovens cineastas surgidos nos bairros periféricos de Contagem, começa a mostrar ao mundo sua produção vigorosa e variada. A paisagem urbana e o universo social de No coração do mundo (lançado no festival de Roterdã) são os mesmos do igualmente extraordinário Temporada, de André Novais (lançado em Locarno), mas são filmes totalmente diversos entre si na estética, no gênero e no estilo. São produzidos por artistas de sensibilidades distintas. (Para citar um único aspecto, a violência física, praticamente ausente de Temporada e dos outros filmes de André Novais, é central em No coração do mundo e em filmes anteriores de Gabriel Martins.)

Quando assistimos a esses filmes, a periferia de Contagem, com suas ladeiras, becos, botecos, oficinas, casas modestas e coberturas de laje, é, ao menos por um par de horas, o coração do mundo.

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