O vibrante “Bailado do Deus Morto”

Rito-espetáculo do Teatro Oficina tem só mais duas apresentações. Obra modernista da década de 30 tem nova encenação cheia de potência. Outras Palavras recomenda e incentiva: quem nos apoia, paga só meia-entrada

Por Simone Paz | Foto por Keiko Kataoka

O Teatro Oficina Uzyna Uzona vem apresentando, em curtíssima temporada, uma peça rara: O Bailado do Deus Morto, de Flávio de Carvalho.

Flávio foi um pintor, desenhista, arquiteto, cenógrafo, decorador, escritor, teatrólogo e engenheiro, pertencente à geração modernista brasileira.

O Bailado do Deus Morto foi encenada pela primeira vez em 1933, na inauguração do Teatro da Experiência, e foi censurada logo no primeiro dia de apresentação. Flávio de Carvalho dizia que tinha escrito a peça como uma tentativa de reviver e provocar o teatro modernista, que, para ele, estava decadente.

De fato, o espetáculo é um rito, quase happening, que dura 45 minutos.

Esteticamente, o Bailado é um deleite: as máscaras do coro e o cinturão de anti-castidade que a “mulher do deus” veste, são réplicas daquelas utilizadas na montagem original, desenhadas por Flávio.

Nesta nova versão, a direção é de Marcelo Drummond, discípulo de Zé Celso e um dos atores mais antigos da companhia (As Bacantes; O Rei da Vela). Além disso, a trilha sonora foi composta exclusivamente pelo diretor-musical do Teatro Oficina, Felipe Botelho (Trupe Chá de Boldo), e é executada ao vivo por ele junto das musicistas Carina Iglesias e Amanda Ferraresi, fazendo o público entrar no transe d’O Bailado.

Como se tudo isso não bastasse, a peça merece ser celebrada somente pela grande conquista de não ser um teatro óbvio, mastigado e chapado. Por trazer a sensação de dúvida e de ambivalência. O texto não entrega um veredicto final ou uma opinião sobre deus e suas possíveis mortes ou transições, nem uma crítica pronta — embora ela esteja sempre presente. Em vez disso, ele faz o espectador sair do espetáculo cheio de questionamentos que lidam com a ciência, a psicanálise, a religião, os ritos, o capitalismo, a humanidade, a evolução, a moral.

O teatro brasileiro poderia resgatar muitos elementos que funcionam aqui: um deles, é essa capacidade de síntese e a escolha de não ser didático, para, assim, alcançar uma potência maior — e isso é mérito da direção de Drummond.

Se você ficou com vontade de assistir, ainda tem mais duas últimas apresentações: nos dias 29 e 30 de janeiro (quarta e quinta), sempre às 19h.

Quem colabora com Outros Quinhentos (nosso programa de financiamento coletivo), tem direito a entrar na lista-amiga com mais um acompanhante, o que dá o benefício de pagar somente meia-entrada (R$15). Para isso, preencha este formulário até terça, 28/1.

A atriz Sylvia Prado, em cena do espetáculo, fotografada por Keiko Kataoka

SERVIÇO

“O Bailado do Deus Morto”

texto de Flávio de Carvalho | direção Marcelo Drummond

quando: quarta-feira 29/01 e quinta-feira 30/01; sempre às 19h

onde: Teatro Oficina – Rua Jaceguai, 520 – Bixiga – São Paulo, SP

classificação indicativa: 14 anos

* inscreva-se na lista de meia-entrada, exclusiva para Outros Quinhentos, aqui *

ingressos: R$30 inteira | R$15 meia (estudantes, professores da rede pública, artistas, moradores do bixiga e membros de Outros Quinhentos)

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para comprar seu ingresso normalmente, sem desconto, acesse: https://bileto.sympla.com.br/event/64107/d/80120/s/418859

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