Caro coxinha, nossa bandeira já é vermelha…

Ao invés de camisetas amarelas da CBF, cor da monarquia, deveríamos assumir nossas raízes históricas: se somos “brasileiros”, também somos vermelhos – e nossa brutal realidade só confirma esse fato

Cantarole comigo:

Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amooor….”

Agora lembre-se que esse hino, além de ser um grito que ecoa nas arquibancadas, também foi parte da trilha sonora dos camisa da seleção amarelanas manifestações cívicas (eles acreditavam nisso!) que apoiaram a derrubada de uma presidenta eleita, sem crime de responsabilidade e nada que se justificasse além do inconformismo autoritário da derrota nas urnas. O voto, a Constituição Federal e, portanto, a democracia, como um papel inútil amassado, foi arremessada ao lixo. E hoje continuamos caindo no abismo desse lixo.

Aqueles que foram na avenida apoiar o golpe já devem ter pensado, ao ler essas primeiras linhas: “lá vem o texto de algum petralha comunista!”

E reafirma: “Nossa bandeira jamais será vermelha…!”

Aí complicou!

Sabe por quê?

Porque nossa raiz – na verdade árvore – cria um problema sério para esses que defendem ardorosamente essa ideia: as nossas origens!

E num mundo atual em que o achismo reina e em que estudar nos livros a história sempre é coisa de comunista vermelho (nessa definição me encaixo), vamos oxigenar e ver se o vermelho é, de fato, uma cor que não nos representa?

Comecemos pelo começo (sic!):

Você, brasileiro, conhece algum suisseiro? Ou algum argentineiro? Ou algum italianeiro?

Claro que não! Pois na língua portuguesa palavras com a terminação “eiro” significam ofício, representa uma atividade. Cozinheiro, faxineiro, porteiro, peixeiro, açougueiro, são exemplos. Portanto, conhecemos suíços, argentinos e italianos. Brasileiro é aquele que tinha ofício de retirar da boa terra nova, ainda colônia portuguesa, sua rica árvore chamada pau-brasil e negociá-la. Ainda é bom lembrar que em tupi guarani, ‘brasil’ significa vermelho. Madeira muito valorizada pois com sua cor se produzia uma tintura com a capacidade de tingir de vermelho coisas, como, por exemplo, tecidos de algodão. Então, se você se identifica como “brasileiro”, você já é vermelho.

Mas sobre a nossa bandeira nos dizem: “o verde representa as nossas florestas, o amarelo nosso ouro, o azul nosso céu”. Infelizmente isso também não procede historicamente. Na origem, as cores da nossa bandeira representam as dinastias das quais vieram as famílias de nosso rei e rainha. O verde representa a cor da casa de Bragança, de onde veio a família de Dom Pedro, o amarelo representa a cor da casa de Lorena, da família real austríaca (que é a cor da camisa da seleção!), de onde viera nossa Imperatriz Leopoldina, mulher de Dom Pedro, mulher culta e que contribuiu mais que o próprio Dom Pedro I para nossa independência de Portugal, apesar de termos aprendido na escola o contrário. Educação machista. Essa mesma educação que disse que “descobrimos o Brasil” e contribuiu fortemente para arraigar o machismo e favoreceu o impeachment de Dilma e matou Marielle, duas mulheres pouco recatadas e nada do lar.

O azul já é outra história, é uma “esfera armilar”, segundo a Wikipedia: “Esfera armilar é um instrumento de astronomia aplicado em navegação que consta de um modelo reduzido do cosmo. Estima-se que foi desenvolvido ao longo do tempo, através de observações minuciosas do movimento aparente dos astros em torno da Terra”.

Vejam que o azul chega ao menos perto do ‘novo’ significado das cores da bandeira. A ideia veio da bandeira portuguesa que também tem uma esfera armilar.

Portanto, estudar as origens das coisas, conhecer a história encurta muito os caminhos e põe ordem e progresso nessa bagunça ignorante que estamos vivendo no Brasil. Apesar de termos ‘esquecido’, lamentavelmente, de colocar na nossa bandeira o “amor”, pois o lema do positivismo que está estampado no meio da bandeira era originariamente “Amor, ordem e progresso”. E é essa parte do lema – amor – que faz tanta falta ao Brasil hoje e fez falta desde os primórdios da história contada a partir da chegada das caravelas por essas nossas bandas.

“Mas, quando falamos do vermelho fora da bandeira, estamos repudiando o comunismo do Brasil!”, poderia dizer algum defensor dessa ideia.

O vermelho como símbolo do socialismo vem da luta dos trabalhadores que perderam suas vidas, seu sangue, portanto, nada melhor que a cor desse sangue para representar uma luta e se tornar um símbolo. E a nossa história brasileira tem muita luta e muito sangue. Mas muito mesmo! A começar o massacre dos povos originários que foram quase totalmente dizimados. Segundo Darcy Ribeiro, viviam no Brasil por volta de 5 milhões de índios em 1500. Chegaram a menos de 300 mil no século XX. Por armas, incêndios criminosos, doenças ou fome foram sendo liquidados. E hoje, anualmente, as mais de 60 mil mortes por “morte matada”, principalmente são os jovens pretos. Somos um país que mata ainda mulheres, gays, líderes sociais e defensores de Direitos Humanos. Somos craques nisso! E a sociedade brasileira (os vermelhinhos!) autoriza hipocritamente essas mortes por gostar tanto de sangue vivo, exposto, bem vermelho, desde que seja do outro e, se for pobre, nem ligamos mesmo.

E elegemos novos governadores de São Paulo e do Rio de Janeiro nessa toada, Doria e Witzel, chefes de polícia, que já mandaram seus comandados atirar para matar, isto é, querem matar ainda mais! Adivinhem quem serão e já estão sendo o principal alvo? Novamente o jovem preto, pobre e da periferia. Mais sangue vermelho, pois na cor do sangue somos todos absolutamente iguais.

Somos, inexoravelmente, uma sociedade violenta.

Vejam o atual governo Bolsonaro que veio para consolidar o golpe de 2016, com tantas pérolas que vem nos brindando. Hoje, as 255 nações indígenas brasileiras estão muito ameaçadas pois ele quer rever as demarcações de terra que os protege.

O vidente do futuro, querido Tom Jobim, já nos ensinava na sua canção:

” …deixa o índio, deixaaa…”.

O desprezo pelo politicamente correto, como disse nosso presidente no seu discurso de posse, quer re-autorizar a fazermos piadas racistas, homofóbicas e de gênero. E se fossem só as piadas…

Então, se pela nossa origem e ou pela ação cotidiana nas relações sociais no Brasil, o correto seria nossa bandeira ser bem vermelha. Simbolicamente nossa bandeira já é completamente vermelha!

A alternativa para os que sustentam a defesa das cores da monarquia brasileira seria, a partir dessas informações e para fugir do tão temido vermelho, mudar o nome do Brasil.

Aí sugiro um nome: República dos Estados Unidos do Sul.

Que tal, vermelhinhos, digo, brasiloseiros?

Vichi…sem saída…pois a bandeira dos “do norte” é cheia de vermelho também!

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3 comentários para "Caro coxinha, nossa bandeira já é vermelha…"

  1. MARIA CLARICE SILVA disse:

    Bom dia sr. Antonio Martins!
    Leio , quando posso, seus relatos. Às vezes concordo,outras não.
    Os portugueses nos acharam, por acaso, então , se organizaram aqui como acharam que devia ser.
    A história, com o passar do tempo, nos mostrou que muito do que nossos professores passaram há décadas, não era real.
    É muito estranho agora, vocês quererem dizer que nossa bandeira pode ser vermelha por causa do pau brasil, não concordo.Fizeram três tentativas para dar nome à terra, eles escolheram o nome devido a abundância da árvore vermelha, claro, mas a nossa bandeira sempre terá a cor oficial,um legado deixado por eles que tinham essa terra em seu poder.
    Desculpe, mas muitas vezes vocês são radicais demais com esse governo.A Dilma e Lula deixaram o Brasil de joelhos. Dê um tempo de paz para o presidente se acostumar a lidar com esse cargo tão atribulado. Abraço.

  2. Ruy Mauricio de Lima e Silva Neto disse:

    Parabéns, Xixo.Brilhante exposição. Taí as origens do nosso verde-amarelo, apropriado (sequestrado) ultimamente pela Rede Grobo e CBF (e por todas aquelas pobres coitadas menopáusicas que desfilaram na Av.Paulista contra a Presidente Dilma, em 2013).
    Realmente, é só ouvir o maravilhoso samba do saudoso e inesquecível e genial Noel Rosa, “Positivismo”, que lá está bastante claro:
    “O Amor vem por princípio, a Ordem por base.O Progresso é que deve vir por fim (NR: aí a coisa é meio nebulosa.Não sei se ele quis dizer “finalidade” ou “término”. De qualquer forma, ele prossegue:) “Desprezaste esta lei de Augusto Comte e foste ser feliz longe de mim”.
    Realmente,acho que você deu uma grande contribuição que não se vê em lugar nenhum.

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