"Por que sou cristã e não condeno o aborto"

Mary Elisabeth Williams, articulista da revista Salon, propõe: chega de pensar que a legalização vai instituir massacre de bebês; é preciso respeitar mães que vivem sentimentos e escolhas complexos e profundamente pessoais

 

Tradução: Henrique Marques Samyn, no Território de Maíra

 

Quando Todd Akin protagonizou a apenas mais recente numa longa lista de demonstrações conservadoras de ignorância e animosidade em relação às mulheres e ao direito à interrupção da gravidez que lhes foi concedido pela Suprema Corte, isso representou ainda um outro Grande Momento Estadunidense no que diz respeito à Mentira. Conservadores como Akin — e o candidato a vice-presidente Paul Ryan, que impressionantemente votou 59 vezes contra a o direito à escolha durante o período em que permaneceu na Câmara dos Representantes — fariam você acreditar que há apenas dois lados no que tange à questão do aborto. Há o lado bom e sagrado, cristão,  defensor da vida, e há o lado secular, da cultura da morte.

Muito de acordo com a visão conservadora de que o mundo está cheio de mulheres que precisam de algum cara branco e mais velho para ajudá-las a entender a diferença entre o estupro “legítimo” e o tipo que realmente não importa, há uma noção predominante na direita cristã segundo a qual o acesso irrestrito ao aborto transformará a América em uma grande orgia de extração de fetos, invadida por mulheres alucinadas sendo a qualquer momento atordoadas e arrastadas para a Aborto Hut/Dunkin’ Donuts mais próxima nos seus horários de almoço. Isso convenientemente ignora a realidade de que, embora o aborto seja de fato um assunto cristão, ser pró-escolha não faz de você um mau cristão.

Dê uma olhada – quem é aquele que está na Casa Branca exatamente agora? Porque é o cristão Barack Obama, que apoia o Caso Roe contra Wade [nota do tradutor: caso judicial em que a Suprema Corte estadunidense reconheceu o direito à interrupção voluntária da gravidez] e afirma que “o direito da mulher a decidir quantos filhos ter e quando, sem interferência do governo, é um dos direitos mais fundamentais que nós temos. Não é apenas uma questão de escolha, mas de igualdade e oportunidade para todas as mulheres”. Mesmo o vice-presidente católico Joe Biden, que afirmou acreditar que “é uma questão de fé aceitar que a vida começa no momento da concepção”, tem um histórico consistente de apoio ao direito das mulheres a escolher. E isso não é tão incomum. Uma geração atrás, Mario Cuomo causou controvérsia ao identificar-se como cristão e pró-escolha. Quando seu filho Andrew, décadas depois, candidatou-se e manteve umacampanha política similar, ele também se deparou com pessoas perplexas. E, como Bill Clinton certa vez explicou, “Eu nunca encontrei ninguém que fosse pró-aborto. Não é isso o que significa ser pró-escolha. Isso quer dizer, apenas, que nós não queremos criminalizar a escolha“.

Muitas das denominações cristãs – inclusive as igrejas Presbiteriana, Batista Americana, Luterana, Episcopal e Unida Metodista – adotam visões complexas e matizadas desse tema, dando espaço para o direito da mulher tomar suas próprias decisões nesta discussão. Claramente, há um lugar para questionamentos no diálogo cristão.

Para muitos de nós, nossos sentimentos acerca do aborto são complexos e profundamente pessoais. Entre os meus amigos, por exemplo, eu raramente digo algo a respeito do assunto além de me posicionar como pró-escolha, por ser esse um assunto tão íntimo e tão altamente carregado. No entanto, trata-se de algo um pouco mais complicado que isso. Eu estimaria que aproximadamente metade das minhas amigas mulheres tiveram pelo menos um aborto. Muitas delas são mães. Eu não conheço nenhuma que tenha feito essa opção de modo despreocupado e eu não conheço nenhuma que tenha jamais expressado algum momento de arrependimento. As vidas que elas têm agora — e muitas delas têm vidas bastante boas — são possíveis em larga medida por conta de uma decisão difícil que elas uma vez enfrentaram, e uma escolha que elas fizeram sobre quando e como elas estavam preparadas para se tornarem mães.

Essa é uma escolha que eu nunca tive que fazer. Embora eu julgue saber como eu teria agido quando aquele medo de estar grávida aos 24 era, ao fim, apenas um medo de estar grávida, eu jamais terei certeza. O que eu sei é que, a respeito das minhas gravidezes, o pequeno coração batendo que eu vi na ultrassonografia para mim era sempre o meu bebê, era sempre uma vida humana. Eu sei que o aborto espontâneo que eu tive muito cedo, vários anos atrás, é uma perda que eu ainda lamento, algumas vezes. Mas é o meu corpo, são minhas gravidezes, é a minha percepção.

Eu também sei que se eu me visse grávida exatamente agora, no meio da casa dos 40, enquanto ainda atravesso um tratamento para o câncer, eu igualmente consideraria aquela gravidez uma vida humana. E eu jamais quereria viver em um país onde eu fosse obrigada a levar isso até o fim, sabendo que a minha idade e as medicações que estão agora percorrendo o meu corpo certamente assegurariam a formação de uma criança com severos problemas. Sabendo que eu teria que interromper o tratamento para o câncer, o que iria provavelmente privar os dois filhos que eu já estou criando de sua mãe. E eu não acredito, absolutamente, que haveria qualquer coisa neste cenário que se qualificaria como compassiva ou pró-vida.

Em última instância, como minha colega Irin Carmon afirmou na segunda-feira no Salon, “Você ou acredita na autonomia do corpo ou não”. Eu aprendi, nos anos recentes, que as minhas “exceções” para o aborto diriam respeito ao meu próprio corpo. Eu não quero jamais fazer disso regras para qualquer outra mulher que esteja diante de sua própria escolha. E eu sem qualquer sombra de dúvida não quero ninguém jamais criando regras para as minhas filhas. Eu acredito, em primeiro lugar e acima de tudo, no empoderamento das mulheres e homens até o nível máximo, para prevenir a gravidez não-desejada. Eu acredito que o próximo passo na escala das coisas que são éticas e justas é fazer tudo o possível para assegurar que toda criança que é trazida ao mundo é desejada – e tem uma família disposta e apta a cuidar dele ou dela. E eu não posso nem mesmo começar a dizer a vocês quão baixo nessa escala vocês encontrarão “mulheres sendo arrastadas para a culpa por fazerem-nas olharem ultrassonografias, tendo bloqueado o seu acesso a abortos seguros e a um custo acessível e sendo obrigadas a carregar bebês enquanto não se dá a mínima para a saúde, o bem-estar ou a educação daquelas mulheres e daqueles bebês, ou as obrigações morais e financeiras dos pais”. Pessoas, cuidemos das prioridades.

A vida raramente pode ser vista em tons de preto e branco, e no fim, para aqueles de nós que acreditam em Deus, nós temos que confiar em nós mesmos e nas nossas consciências. Nós podemos nos deixar ser enganados pelos homens que insistem saber o que é bom, ou podemos olhar honestamente para os nossos corações e para as nossas circunstâncias, e procurar por aquilo que acreditamos ser melhor. Nos é dada a vida e nos é dado o direito de escolha. Só o que podemos fazer é tentar honrar a ambos

*Mary Elizabeth Williams é articulista do Salon e autora de “Gimme Shelter: My Three Years Searching for the American Dream.” Twitter: @embeedub

 

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