Extrema-direita com discurso “repaginado”

Na França, a candidata Marine Lepen, sobe nas pesquisas, acena para eleitores mais pobres e tenta corrigir os exageros do discurso do pai. Mas os velhos cacoetes reaparecem quando fala sobre os imigrantes

Por Lamia Oualalou, Opera Mundi

Em 14 de março, um dia de sol e tempo bom, mais de 15 barcos, com cerca de 1,4 mil pessoas, desembarcaram na ilha italiana de Lampedusa, atual porta de entrada para milhares de imigrantes ilegais do Norte da África. A presidente do partido de extrema-direita francesa Frente Nacional (FN) Marine Le Pen, que visitava a localidade, não poderia ter encontrado cenário melhor para seu discurso contra a imigração ilegal. “Empobrecidas, Europa e França não têm mais condições de hospedar todos os imigrantes”, disse aos jornalistas. “Eu tenho compaixão por estas pessoas”, garantiu, “mas ‘nosso barco’ está muito frágil. Não podemos carregar mais pessoas, senão vamos afundar.”

Na França, o discurso de Marine agrada a muitos. Menos de uma semana após a viagem a Lampedusa, no primeiro turno das eleições locais de 20 de março, mais de 15% dos eleitores escolheram candidatos da FN. “Não é pouca coisa, especialmente para uma eleição que era pouco favorável ao partido”, afirmou ao Opera Mundi Christophe Forcari, jornalista do jornal Libération e autor do livro Le Pen, o último combate. No segundo turno, domingo (27/03), a FN confirmou o bom desempenho. “Isso significa que o potencial de Marine Le Pen para as próximas eleições presidenciais é muito alto”, alertou Forcari.

As pesquisas de intenção de voto, publicadas desde o início de 2011, confirmam que a nova líder da extrema-direita deve figurar no segundo turno da eleição, previsto para abril de 2012. Segundo o instituto Harris, em enquete do início de março, Marine superaria até mesmo o presidente Nicolas Sarkozy e a secretária do Partido Socialista, Martine Aubry, com 23% dos votos. Seria um resultado superior ao do pai, o líder histórico da FN Jean-Marie Le Pen, que surpreendeu em 2002 ao chegar ao segundo turno com Jacques Chirac, ultrapassando o socialista Lionel Jospin.

A ascensão de Marine começou naquele ano. Formada em Direito, ela abriu seu próprio escritório. Mas por causa do sobrenome, não conseguiu muitos clientes e acabou pedindo emprego ao pai. Em 21 de abril de 2002, quando foi anunciado que Le Pen tinha chegado ao segundo turno, a FN se viu sem uma figura destacada para defender o partido na mídia. Acabaram enviando Marine e a tímida política surpreendeu. Em poucas horas, ela se tornou a nova estrela de um partido dominado por Bruno Gollnish, até então o único herdeiro político de Le Pen.

Início da mudança na FN

Até 2007, Marine trabalhou para construir sua legitimidade eleitoral por meio de eleições locais, escolhendo a cidade de Henin-Beaumont, devastada pelo desemprego. Com o objetivo de seduzir um eleitorado popular, ela testou um novo discurso de cunho social. Deu certo. A filha de Le Pen achava que a FN precisava mudar de estratégia para atrair as vítimas da crise econômica. Ela também mudou fisicamente e na vida pessoal: emagreceu 15 quilos, cortou os cabelos, trocou o guarda-roupa e se divorciou. Todas as revistas de celebridades lhe dedicaram matérias de capa. Marine ficou famosa.

“Paradoxalmente, a chegada de Le Pen ao segundo turno em 2002 traumatizou Marine e toda uma geração de militantes da FN”, explicou o sociólogo Sylvain Crépon na Universidade Paris-X-Nanterre. “Quando viram que a maioria da população se mobilizou contra Le Pen, permitindo a reeleição de Chirac com 82% dos votos, eles perceberam que seu líder nunca seria presidente”. Os jovens ativistas pareciam estar cansados de Le Pen. Nascida em 1968, Marine se distanciou de temas tradicionais de extrema-direita.

Desde 2002, confirmam as pesquisas, a FN é o partido mais votado pelos operários – os mesmos que, há vinte anos, votavam maciçamente em comunistas socialistas – e por isso, precisa refletir suas preocupações. De acordo com a plataforma de Marine, o FN deve ser um “partido de direita, nacional, social e popular” e não um grupo de extrema-direita. Ao defender idéias sociais, ela procura atrair os eleitores de todas as origens. De acordo com o instituto de pesquisas Sofres, entre os eleitores de Marine, 23% dizem que estão próximos da extrema-esquerda e 36% se dizem sem preferência política. É uma pista para entender por que alguns não se identificam mais com o discurso dos partidos de esquerda após o colapso do comunismo e das batalhas fratricidas entre socialistas.

A estratégia da FN é fazer um trabalho de base, “como o Partido Comunista Francês em sua grande época”, explicou Forcari. Seus militantes estão presentes nas feiras todos os domingos, e não apenas antes das eleições. Eles distribuem panfletos e convidam para reuniões. “Isso é ainda mais impressionante considerando que o partido não tem dinheiro”, completa o jornalista. Essa presença nas ruas mudou a imagem do FN.

Novas bandeiras

Enquanto o partido se dizia historicamente católico, Marine defende os valores republicanos, sendo que em primeiro lugar o laicismo, contra a “islamização da sociedade francesa”. Para ela, as orações dos muçulmanos nas ruas – provocadas pela falta de mesquitas – são comparáveis a uma “nova forma de ocupação”, como a dos alemães durante a segunda guerra. A candidata também virou porta-bandeira das mulheres e dos direitos dos homossexuais, em um partido conhecido pelo machismo e homofobia. Segundo ela, o Islã é hoje o principal perigo para as liberdades civis. “Ela se inspira fortemente na extrema-direita holandesa, que é liberal e xenófoba ao mesmo tempo, algo impossível antes”, explica Crépon.

Outro tema novo é a defesa dos funcionários públicos, antes resistentes às teorias da FN. Marine abandonou a visão liberal ou mesmo “thatcherista” do pai para defender a “restauração de um estado forte” e uma política de obras públicas. Por esta mesma razão, ela defende o serviço público, denunciando a desaparição de escolas e hospitais, um argumento até então defendido prioritariamente pela esquerda.

Efe (26/03/2011)

O “fantasma” da imigração ilegal assusta a Europa e vira munição para partidos como a FN

Enquanto isso, Marine transformou a FN em um partido mais respeitável aos olhos da população. Ela não tolera qualquer deslize como os do pai, que classificou as câmaras de gás de Hitler como um “detalhe da história”. Esse novo posicionamento causou descontentamento nos antigos quadros do partido, como Roger Holeindre, veterano da guerra da Indochina e da Argélia. “Marina não sabe nada sobre a nossa história e não representa nossas idéias”, disse o político ao abandonar o partido. Porém, o posicionamento de Marine agrada os jovens, que a elegeram como nova presidente do partido com quase 67% dos votos.

Novas metas

Marine tinha dois grandes projetos: por um fim à demonização do partido e oferecer uma imagem de competência. O primeiro teve sucesso. “Ela conseguiu quebrar o cordão sanitário em torno da FN”, disse Crépon. Na semana passada, o UMP (União por um Movimento Popular), partido de Sarkozy, estava dividido quanto à estratégia para o primeiro turno das eleições locais: barrar ou não o caminho da FN e pedir votos para os socialistas. Há dez anos, 22% dos eleitores da direita tradicional afirmavam que poderiam votar na FN nesse tipo de situação. Hoje, a proporção passou a 43%. “Isso significa que estamos passando de um voto de protesto ao de adesão”, analisou Forcari.

No entanto, o objetivo de Marine, que é convencer o eleitor sobre a capacidade de gestão da FN, está longe de ser concretizado, pois o partido continua a atrair poucos quadros. “Vemos isso nos debates. Quando o programa de governo é mencionado, ela fica incomodada”, disse Crépon. É por isso que Marine, diferentemente do pai, não é contra uma aliança com a direita e pode propor uma união contra a esquerda.

Diante do “fenômeno Marine”, a direita acaba relançando as palavras de ordem da FN. Em 2009, Sarkozy convocou um debate sobre a “identidade nacional” e há um mês, um sobre o lugar do Islã na sociedade francesa. Uma tática que pode disseminar as ideias da FN na sociedade. “Nesse caso, os franceses sempre preferem o original à cópia”, argumentou Marine.

As forças de esquerda, por sua vez, parecem paralisadas. “Marine é um sintoma, ela demonstra nossas fraquezas”, admitiu o socialista Jean-Christophe Cambadélis em um artigo no Le Monde. O partido não elaborou, porém, nenhuma estratégia para voltar a atrair o eleitorado popular. Seus líderes preferem expor suas divisões por meio de eleições primárias que devem acontecer em três meses. O candidato mais forte parece ser Dominique Strauss-Kahn, atual presidente do FMI (Fundo Monetário Internacional). Um currículo que dificilmente poderá convencer a classe operária que o PS ficou mais sensível à causa dos mais pobres, afetados pela globalização e as consequências sociais na França.

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Redação

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