Na Venezuela, ocupação Minka ensina autogestão

Em Caracas, a duas quadras do palácio presidencial, exemplo de população organizada — mesmo afligida por crise e bloqueio econômico. Onde antes havia um edifício ocioso, há moradia, rádio comunitária e um restaurante popular para duas mil famílias

Por Michele de Mello, no Brasil de Fato

Na Venezuela diz-se pana aos amigos mais chegados, do peito; pana, que vem do pão, é alguém tão fundamental como o alimento. Entre panas, camaradas e companheiros começou a ocupação Minka, no distrito de Altagracia, a duas quadras do Palácio Presidencial de Miraflores, centro de Caracas.

Minka, significa em língua Quechua “trabalho coletivo feito para a comunidade” e é isso que a ocupação se tornou, uma casa, de portas abertas para os moradores da região. Em 2012, José Enrique Solórzano, Alina Lyon, Natalia Bravo e outros jovens decidiram ocupar um edifício que estava abandonado e transformá-lo em um espaço para o povo.

“2012 foi um ano difícil, de desafios, de aprendizagem, foi um ano chave para consolidar o que o nosso comandante nos havia ensinado. A Minka é um exemplo vivo e constante do legado do nosso comandante, porque se autogestiona, cresce, nunca dorme, está sempre em constante movimento, inovando nas artes, na produção, na formação político-produtiva e isso foi o que nos ensinou Chávez”, conta Alina Lyon, umas das fundadoras da Minka.

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A proposta faz parte do projeto integral comunitário, da organização internacional Comunidades Al Mando – Proyecto Nuestra América, que busca criar espaços de autogestão e autogoverno em regiões mais empobrecidas do campo e da cidade como estratégia para a transformação da sociedade capitalista.

“Nós acreditamos que a comunidade é o espaço integral da classe, onde se concentra a classe trabalhadora com todas as suas contradições. Está o policial, o malandro; o professor, o aluno; a freira, a prostituta. Estão todas as contradições sociais, a única coisa que nos une é que somos a classe pobre, a classe trabalhadora. Então quando ocupamos esse espaço, a primeira coisa que tratamos de fazer era ser parte desse sujeito integral na comunidade.”

No edifício ocupado funciona uma rádio comunitária, uma estamparia com serigrafia, aulas de capoeira, dança, pintura, um ponto de distribuição das cestas básicas do CLAP e de reuniões para os conselhos comunais do distrito de Altagracia. Do outro lado da rua, há dois anos inauguraram um restaurante popular, que alimenta de 80 a 100 pessoas diariamente, de forma gratuita. E na saída do bairro, numa esquina com a Avenida Baralt, uma das mais movimentadas do centro da capital, há três anos gerem uma padaria comunitária.

Pão para o povo

Desde que começaram a ocupação, os minkeiros faziam pão. Alina conta que aprenderam o ofício com outros companheiros do projeto Maestros Del Pueblo (professores do povo), na comunidade de Caricuao, extremo oeste da grande Caracas.

“Nosso rolo de amassar era uma garrafa e tínhamos uma batedeira que aceitava exatamente 13 quilos de farinha. Se você colocasse 13 quilos e 1 grama se trancava e não havia forma de voltar a funcionar. Tínhamos algumas bandejas e assim começamos, com improvisação e amor, porque o amor é o motor que mais movimenta”, relembra Lyon.

O ano de 2017 foi de crise de abastecimento e diminuição do preço do barril de petróleo. Em apenas um ano, a produção venezuelana diminuiu em 361 mil barris de petróleo.

A primeira face da crise econômica provocada, em boa medida, pelas sanções unilaterais impostas pelos Estados Unidos e pela disputa interna entre o governo chavista e os opositores donos de empresas e meios de produção e distribuição.

Na época, o presidente Nicolás Maduro começou uma campanha para denunciar a sabotagem do setor privado, que armazenava os alimentos para provocar o desabastecimento e, mais tarde, especular com os preços.  

A Mansión Bakery’s, no centro de Caracas era um exemplo disso. Empresários comparavam farinha subsidiada pelo governo, no entanto, mantinham a matéria-prima escondida. Na prateleira, apenas produtos com data de validade vencida e a preços considerados exorbitantes.

O governo lança o Plano Pan para el Pueblo (pão para o povo), inaugurando 100 padarias populares sob a responsabilidade dos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP) e advertiu que  qualquer padaria que estivesse especulando com o preço do pão e que recebesse farinha subsidiada poderia ser tomada pelo Estado e passada ao controle do povo.

O anúncio foi o empurrão que faltava para que os militantes da Minka, junto à comunidade organizada nos conselhos comunais Arturo Michelena, Misia Jacinta, Quartel de Miraflores, Jardim Miraflores e Vitória de Altagracia ocupassem a estrutura e fundassem a padaria comunitária La Minka.

Desde então a comunidade e cerca de 40 militantes da Minka produzem entre 4 e 5 mil pães diários, além de bolos e doces, que são vendidos a preços populares. Jovens e adultos que aprenderam o ofício de padeiro(a) em oficinas oferecidas por outros companheiros mantém a estrutura aberta de segunda a sexta, de 7h a 19h.

A maior dificuldade é manter a produção ativa, já que o governo suspendeu o subsídio da farinha de trigo e os fornecedores privados voltaram a especular com os preços. Em outros anos, contam que a produção diária chegou a 8 mil pães, no entanto diminuiu pela metade pela falta de produtos básicos para a padaria.

José Enrique Solórzano, um dos fundadores da Minka, garante que a padaria comunitária funciona de maneira totalmente oposta à padaria Mansión, que funcionava antes no local. “Aqui combatemos a relação patrão-empregado; a relação dirigente-dirigido; a relação pedagógica professor-aluno; e tentamos gerar relações de transformação distintas ao que é imposto pelo capital”, afirma.

E para isso, é estratégico que se mantenha o governo chavista, explica Natalia Bravo. “Temos garantias, temos possibilidades, tempo para que estes projetos existam e sejam uma esperança de transformação e construção de outro tipo de sociedade. Aqui o Estado não está nos assassinando, matando, desaparecendo, não nos criminaliza por fazer esse tipo de coisa.Também sabemos que não podemos depender desse Estado paternal, por isso dentro da nossa política está a autonomia”, garante a dançarina colombiana, que há 17 anos decidiu fazer vida e constituir sua família na Venezuela.

Produção agroecológica e independente

Pensando na autonomia do projeto, há cerca de um ano, os minkeiros ocuparam um novo espaço. Um terreno abandonado que está se transformando em uma horta e granja coletiva. O objetivo é que em cinco ou seis meses, a comida produzida nesse espaço seja suficiente para abastecer o restaurante comunitário e forneça a base para a alimentação da comuna Miraflores, que está sendo criada pelos conselhos comunais do bairro Altagracia.

Aipim, berinjela, banana da terra, pimenta, plantas medicinais e outra série de cultivos, tudo agroecológico. “Em cada círculo, o cultivo é variado e isso permite que o solo não se esgote de nutrientes, mas que se gere um equilíbrio nessa diversidade. O fato de que existam partes mais altas faz com que pessoas de diferentes idades possam trabalhar na terra, porque não necessariamente tem que se agachar. Esse equilíbrio também protege das pragas, não necessita pesticidas, agrotóxicos, nem fertilizantes”, relata Natalia Bravo, umas das responsáveis pela horta circular.

Nenhum dos minkeiros tem formação na área de agronomia, veterinária ou qualquer profissão relacionada ao cuidado dos animais e da terra, no entanto, entre todos se ajudam e aprendem.

“Eu acredito que tudo isso já trazemos conosco, ao nos aproximarmos da terra se ativa essa memória genética, ancestral, a terra e as plantas começam a conversar com você, outras pessoas que sabem mais vão se aproximando e também lembram desse ser que tinham aí adormecido”, conta Bravo.

Com Chávez, pela revolução

O horizonte da Minka, como já diz o nome, é o trabalho a favor da comunidade e, para isso, os militantes buscam construir a Comuna Miraflores como um passo para a fundação de um Estado Comunal na Venezuela. O conceito de comuna vem de vida em comunidade, de trabalho coletivo, entre iguais.

 “Queremos que o produtivo sustente dinâmicas comunicacionais, territoriais, formativas, recreativas, culturais com jovens e crianças para poder gerar uma nova forma de fazer política. Como dizia nosso comandante Chávez: comuna ou nada. E estamos nesse exercício de gerar autogoverno comunal para no futuro ter condições sociais, materiais e espirituais para o Estado comunal”, conclui José Solórzano.

No entanto, num contexto de ascensão de governos de ideologia conservadora no continente, de imposição de um bloqueio pelos Estados Unidos e de crise econômica a nível mundial, os jovens que constroem a Minka preveem um futuro complexo.

 “O que vem por aí é batalha, é briga e estamos nos preparando para isso. Aprendemos a plantar o que comemos para poder abandonar a dominação do consumo alheio e assim como fazemos com a comida estamos aprendendo a fazer com a roupa, com o teto, com a recreação, a cultura e todas as coisas necessárias para a vida do ser humano”, afirma Natalia Bravo.

Mas não perdem a esperança, segundo José Enrique Solórzano. “Diante desse mar de neoliberalismo que invade a nossa América, aqui na Venezuela se levantou uma bandeira livre de resistência e de ação soberana do nosso povo (…) Aqui na Venezuela podemos. Eu, pobre, rebelde, subversivo, posso fazer política, gerar força. Então aqui a criação heroica do nosso povo é possível e a criação soberana do nosso povo que é o único exercício de liberdade é possível”, finaliza.

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