André Singer e Gianotti debatem destinos do lulismo

Dois intelectuais fortemente ligados à política polemizam sobre Bolsa-Família, nova classe média, desestruturação dos partidos, projetos estratégicos e universidade

No Instituto Moreira Salles

Os blocos abaixo registram o primeiro debate da seção “Desentendimento”. A cada mês, o leitor encontrará no blog um debate em vídeo em que os convidados apresentam opiniões divergentes sobre um tema proposto pela revista Serrote. Neste primeiro encontro, o filósofo José Arthur Giannotti e o cientista político André Singer discutem o legado do governo Lula.  A conversa foi conduzida por Mario Sergio Conti, diretor de redação da revista Piauí.

Bloco I

“Não queremos uma classe média mixa”

No primeiro bloco do debate, o filósofo José Arthur Giannotti discorda da ideia proposta por André Singer, para quem o momento político brasileiro recupera traços do varguismo. Ele lembra que Getúlio fundou dois partidos, ao passo que Lula, a quem chama de “extraordinário macunaíma”,  teria dissolvido os partidos políticos, criando “uma meleca geral”. Ele aponta ainda a necessidade de se qualificar os termos do surgimento da nova classe média. “Não queremos uma classe média mixa”, afirma. “Não podemos perder padrões de excelência”.

André Singer refuta a ideia de desestruturação do sistema partidário. Para ele, há uma tendência de americanização da política brasileira, com a polarização entre PT e PSDB. O cientista político acredita ainda, ao contrário de Giannotti, que os oito anos de governo Lula representam o rompimento com o “ciclo neoliberal” iniciado por Collor e intensificado por FHC.

Bloco II

“O PSDB não teria feito o Bolsa-Família”

Na segunda parte da conversa, Giannotti afirma que o PSDB jamais teria feito o programa Bolsa-Família, pois ficaria perdido na exigência de condicionantes. “E nem foi tão caro assim”, reconhece. A afirmação é rara entre os quadros tucanos, que costumam reivindicar para si a criação dos programas sociais intensificados pelo governo Lula. Apesar disso, o filósofo acredita que o Bolsa-Família não é indutor de cidadania, pois estimula uma cidadania concedida, não conquistada.

Singer, ao contrário, não vê traços de clientelismo no programa e acredita que ele representa uma expansão efetiva da cidadania no Brasil. Acredita ainda que é impossível surgir uma terceira força no quadro partidário brasileiro capaz de fazer frente a PT e PSDB.

Bloco III

Neoliberais são os outros

Neste trecho, André Singer defende que a queda da desigualdade é significativa no país e que ela não se restringe apenas à renda proveniente do trabalho, mas também à diferença entre a renda do trabalho e a renda do capital. Os níveis, segundo ele, estão voltando aos índices pré-1964. Contestado por Giannotti, para quem isso é pouco significativo, ele rebate: “Nós vivemos uma ditadura, duas décadas perdidas e depois um período neoliberal. Tudo tendendo a jogar no aumento da desigualdade”.

Giannotti recusa o rótulo de neoliberal atribuído ao governo Fernando Henrique. Para ele, as privatizações não implicam necessariamente um estado neoliberal: “Dizer que entramos no neoliberalismo por causa das privatizações é falso”, afirma. “Não é preciso ter como projeto o aumento da propriedade estatal. Dizer que é neoliberal é evitar a discussão sobre qual estado nós queremos.”

Bloco IV

Universidades ou escolinhas?

Este bloco concentra análise sobre a situação do ensino superior no Brasil. Segundo Giannotti, não basta investir na democratização e criar universidades federais, como no governo Lula. A qualidade do ensino saiu do foco. “São escolinhas que receberam o nome de universidade. Houve uma massificação violenta do ensino, com consequências catastróficas.” Giannotti argumenta que todo país que passa pelo processo de democratização de ensino cria um sistema de formação de quadros. “O Brasil tem isso? É claro que não. As questões básicas foram empurradas com a barriga para a dona Dilma, quero ver como ela vai resolver.”

Singer vai na direção oposta. “Na educação e na saúde, é muito claro o que é o neoliberalismo”, diz ele. “Estamos em face de uma disjuntiva: ou ter saúde pública e educação publica universal, ou ter educação privada para aqueles que podem pagar. O governo FHC acelerou isso por meio de um sucateamento das universidades federais.”

Bloco V

“É preciso ir além da briguinha entre PT e PSDB”

A última parte da conversa gira em torno dos limites impostos à industrialização no Brasil. Já é possível pensar num país que deixe de ser agroexportador e se torne capaz de uma produção industrial de ponta? André Singer acredita que sim. Ele afirma que, apesar da situação internacional instável e da extensão ainda indefinida da crise econômica de 2008, a importância do Brasil no cenário internacional mudou. “Estamos diante de uma janela de oportunidade”, diz.

Já Giannotti acredita que não adianta o país investir em tecnologia sem saber antes quais as áreas em que efetivamente pode fazer diferença. “Sabemos que 60% das exportações são de matéria-prima. Precisamos investir nas áreas certas, que agreguem valor”, afirma ele. “Sem um plano de longo prazo que vá além da briguinha entre PSDB e PT, vamos retroceder. É preciso lembrar que há países que dão certo e há países que não dão. Não queiramos imitar os nossos irmãos argentinos.”

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2 comentários para "André Singer e Gianotti debatem destinos do lulismo"

  1. Lucas Costa disse:

    Impressionante o ranço elitista dos tucanos, tucanóides e afins. Incorrigíveis neste sentido!

  2. Lais Amanda Ribeiro Pimentel disse:

    Giannotti está completamente enganado! O problema das unidades federais criadas na expansão do REUNI é falta da estrutura e não de professores qualificados. Como estudante da Unifesp-Campus Guarulhos, posso afirmar isso com certeza, assim como em relação aos demais campi da universidade.

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