Um Dedo na Ferida do sistema financeiro global

Em seu mais recente documentário, Silvio Tendler enfrenta uma grande questão de nosso tempo: como nos submetemos a uma ditadura financeira que domina a produção de riquezas e a dita as normas que regem as relações sociais

Por Maria do Rosário Caetano na Revista de Cinema

O cineasta Silvio Tendler, autor de sucessos como Os Anos JK, Jango e O Mundo Mágico dos Trapalhões (este filme vendeu 1,9 milhões de ingressos), acaba de lançar seu décimo longa documental, Dedo na Ferida. 

O filme foi eleito o melhor documentário pelo júri popular do Festival do Rio; em 2017, participou da competição latino-americana do Festival de Havana e do Festival de Cinema Político da Argentina. Aos 68 anos, Tendler, cuja filmografia soma 80 curtas, médias e longas-metragens, feitos para cinema e TV, segue trabalhando incansavelmente. Está finalizando dois longas, um baseado em livro do rabino Nilton Bonder e outro sobre o poeta Ferreira Gullar. E arquitetando muitos outros, simultaneamente. “Só vou parar de trabalhar”, avisa, “quando morrer”.

Em 2011, problemas de saúde o deixaram tetraplégico. O cineasta Noilton Nunes registrou aqueles momentos difíceis no longa documental “Silvio Tendler – A Arte do Renascimento”. Aos poucos, o cineasta foi recuperando seus movimentos: “de paraplégico passei a parestésico” [parestesia é uma síndrome caracterizada por sensações cutâneas subjetivas, como frio, calor, formigamento, que são vivenciadas espontaneamente na ausência de estimulação. Podem ocorrer caso algum nervo sensorial seja afetado, seja por contato ou pelo rompimento das terminações nervosas – nota OP]. Hoje, segue dedicado integralmente a seus dois principais ofícios: as aulas de cinema na PUC-Rio e a realização de documentários. “Continuo trabalhando como nunca. É o que me mantém vivo. Dou aula há 40 anos e filmo há 50 anos. Não pretendo pendurar as chuteiras tão cedo”.

Para discutir o sistema financeiro internacional e, em especial, o capital especulativo e o poder do sistema bancário, Tendler reuniu, em Dedo na Ferida, time de entrevistados pouco recorrente no documentário e mídia brasileiros. Caso do jovem economista Guilherme Mello, da Unicamp, da espanhola Maria José Fariña, do boliviano Oscar Oliveira, do italiano Gianni Tognoni, do professor David Harvey, da New York University, do cineasta Constantin Costa-Gavras, do ex-ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis, dos economistas Ladislau Dowbor, Paulo Nogueira Batista Jr. e do surpreendente Keith Katley (também empresário). A eles, somam-se o sociólogo português Boaventura de Souza, a arquiteta Raquel Rolnik e a economista Laura Carvalho, ambas da USP, o líder do MST, João Pedro Stédile, e o do MSTST, Guilherme Boulos, o embaixador Celso Amorim e o jornalista Luis Nassif.

Com seu costumeiro bom humor, Silvio lembra que “ter um filme com esse ‘cast’ é um luxo. Espero que o espectador goste de minhas escolhas”. E acrescenta: “um documentário deve ser surpreendente e, para isso, é importante buscarmos fugir do trivial simples, do banal. Foi o que fiz em Dedo na Ferida”.

Oito dos nove longas-metragens anteriores de Tendler são documentários. Em um só, Castro Alves – Retrato de um Poeta, teve que recorrer, à larga, à encenação ficcional (com os atores Bruno Garcia, Dira Paes e Tereza Freire), pois só dispunha de três imagens do poeta baiano.

Dedo na Ferida soma aos depoimentos, imagens de arquivo, animações gráficas e textos-legenda, que dão ênfase a ideias-chave do filme. O que demonstra que Tendler segue fiel ao documentário de depoimentos, em momento em que a vertente mais valorizada é a dos filmes mais subjetivos e sensoriais.

O cineasta se sente, com esta opção, remando na contramão? Ele responde: “eu sempre fugi dos modismos que determinam as trivialidades. O cinema tem formas que não obedecem fórmulas. Quando os ‘billnichollinianos’ abominavam a narração off eu segui os ensinamentos do mestre (Cris) Marker e continuei utilizando o off. Sempre trabalhei com imagens de arquivos que recentemente geraram uma safra de filmes, muito dos quais repetem imagens que usei nos meus filmes”. E avisa: “sempre caminhei na contramão e Dedo na Ferida segue nessa trilha, inovando com a figura do podólogo Anderson (Marinho Ribeiro), que viaja rumo ao trabalho consumindo o mesmo tempo que o espectador leva para assistir ao filme”.

O diretor de Glauber – Labirinto do Brasil faz questão de lembrar que “cada filme é bem diferente do outro”, pois “o cinema não pode, nem deve, obedecer a formulário padrão”. E detalha: “com Os Anos JK discuto democracia, com Jango, desenvolvimento social, com Marighella, a luta armada, com Castro Alves, o artista engajado, e com Glauber, o artista revolucionário. Josué de Castro fala da fome e Milton Santos, do globalitarismo. Em Dedo na Ferida, discuto o sistema financeiro internacional. Cada filme aborda uma realidade diferente”.

Em Utopia e Barbárie, seu mais assumido diálogo com o cinema do mestre francês Cris Marker, de quem foi colaborador, Tendler abriu espaço para o grupo Ceiperiferia, do cineasta Adirley Queirós, com atuação marcante na maior das cidades-satélite de Brasília, a Ceilândia. Agora, ele abre espaço para um trabalhador e um grupo teatral da periferia (Anderson Ribeiro Marinho, de Japeri, e o Grupo Código).

O documentarista explica como tais grupos e pessoas entraram em seu universo narrativo: “quando fiquei tetraplégico, tive muitas cuidadoras oriundas da Baixada Fluminense e elas me contavam suas desditas nos transportes públicos”. Já, “o Grupo Código conheci nos idos dos anos 2000, quando fiz um filme para o Sesc, Correndo Atrás dos Sonhos. O material que filmei com a turma do Código está também em Encontro com Milton Santos. Quanto ao Anderson, ele é meu podólogo. Juntei tudo, todas estas vivências e materiais, e o resultado foi a presença deles no Dedo na Ferida. Por isso, digo que cinema não tem fórmula”.

Jean-Claude Bernardet, estudioso do cinema documentário e autor de livro seminal (Cineastas e Imagens do Povo) assegura que a produção documental brasileira se nega a enfrentar três temas: Forças Armadas, Capital Financeiro e Mídia.

Tendler acha a ideia de Bernardet instigante, mas não coloca a carapuça. Afinal, rebate, “fiz um longa e uma série de TV sobre os militares (Militares que Disseram Não)”. E, agora, acrescenta, com Dedo na Ferida, enfrento o Sistema Financeiro”. O público pode esperar um filme de Tendler sobre o terceiro tema-tabu, a Mídia?

O documentarista carioca diz que “sim, podem esperar”. Já que, “há algum tempo, venho ruminando o tema e logo entrarei no tema mídia. Me devo isso”.

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Dedo na Ferida
Brasil, 90 min., 2018
Direção: Silvio Tendler
Prêmio: Redentor de melhor documentário, pelo júri popular do Festival do Rio
Produção: Caliban, em parceria com o Sindicato dos Engenheiros do Rio de Janeiro e com a Fiseng (Federação Interestadual dos Engenheiros)

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