Caso Dilma: aparece o provável mandante

Num retrato da banalidade do mal, no campo brasileiro, grileiro promoveu três massacres, e matou seis pessoas por motivos torpes, em dois dias. Caso é sinal da violência extrema que marca, há décadas, Sudeste do PA

Dilma Ferreira da Silva, numa atividade do Movimento dos Atingidos por Barragens

LEIA TAMBÉM:
Dilma Ferreira: mulher, negra, lutadora
Atingida pela usina de Tucuruí nos anos 1980, ele tornou-se militante sem-terra. Batalhava, no sudeste do PA, por novo projeto agrícola. É a primeira ativista assassinada na Amazônia nesse ano

Após prisão do mandante da morte da liderança do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Dilma Ferreira Silva, a força-tarefa da Polícia Civil confirmou que Dilma, seu esposo e um amigo do casal, mortos no dia 22 de março, foram assassinados a mando do grileiro Fernando Ferreira Rosa Filho, conhecido como “Fernandinho”. O mandante era vizinho do assentamento de Dilma e queria as famílias fora da área.

Ele também seria o responsável pelo massacre ocorrido dois dias depois (24), do casal de caseiros e do tratorista de sua fazenda que, de acordo com a polícia, estariam insatisfeitos com o não-cumprimento de seus direitos trabalhistas. Com esses dois massacres, sobe para 49 o número massacres no campo com 230 vítimas, registrados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) no período de 1985 a 2019.

No dia 22 de março a liderança do MAB no Pará, Dilma Ferreira Silva, foi uma das vítimas do massacre que vitimou três pessoas no Assentamento Salvador Allende, município de Baião, a cerca de 60 quilômetros do município de Tucuruí (PA). Dilma, seu esposo, Claudionor Amaro Costa da Silva, de 42 anos e um conhecido do casal, Milton Lopes, 38, foram encontrados mortos na entrada da residência, onde funcionava um mercado/bar.

Os três foram amarrados, amordaçadas e possivelmente esfaqueados, o laudo técnico ainda não foi concluído até o momento. O corpo de Dilma foi encontrado em uma cama. Segundo o MAB, em 2011 ela participou de uma audiência com a então Presidenta Dilma Rousseff, quando entregou documento pedindo uma política nacional de direitos para os atingidos por barragens e atenção especial às mulheres atingidas.

Vigília no Acampamento Salvador Allende em memória das três vítimas assassinadas

Já no domingo (24), três corpos carbonizados foram encontrados em uma fazenda localizada nas imediações da vicinal da Martins, na zona rural de Baião, no sudeste do Pará. A fazenda fica a 14 quilômetros do assentamento Salvador Allende, onde aconteceu o primeiro massacre. As vítimas foram Marlete da Silva Oliveira e Raimundo de Jesus Ferreira, caseiros da fazenda, e Venilson Da Silva Santos, tratorista da propriedade.

Após os dois massacres, uma força-tarefa da Polícia Civil foi montada, sob comando do Delegado Geral, Alberto Teixeira, a partir de ordem do governador do Estado, Helder Barbalho. Assim que foram ouvidas as duas testemunhas sobre o caso, os policiais civis deram início a “Operação Fire”, que cumpriu, no início da noite de ontem (26), mandado de prisão temporária do principal suspeito, Fernando Ferreira Rosa Filho, conhecido como “Fernandinho”, que seria o mandante dos dois massacres.

Fernandinho é acusado de vários crimes na região Sudeste do Pará, tais como: envolvimento com tráfico de drogas, agiotagem, receptação, roubo a banco, homicídio e tentativa de homicídio, e grilagem de terras.

Ainda de acordo com a polícia e segundo os depoimentos coletados, Fernandinho não gostava da “vizinhança” e do fato de parte do assentamento estar em terras que ele dizia serem dele. Isso teria motivado a ordem de assassinar Dilma, seu esposo e o amigo deles.

No caso do segundo massacre, de acordo com as testemunhas, os três funcionários da sua fazenda não estavam satisfeitos por não terem seus direitos trabalhistas respeitados, o que poderia vir a ser reclamado judicialmente. Há ainda a denúncia de que o acusado estaria construindo uma pista de pouso clandestina para aeronaves de traficantes de drogas, na fazendo palco do segundo massacre, e por isso, talvez não quisesse ser incomodado por ninguém, muito menos por vizinhos ligados a movimentos sociais e funcionários insatisfeitos.

A polícia confirmou, ainda, que o mandante tinha contato direto com os executores antes, durante e depois dos crimes. Seriam eles quatro irmãos: Marlon Alves, Cosme Francisco Alves, Alan Alves e Glaucimar Francisco Alves. Contra Glaucimar já existia mandado de prisão preventiva em aberto desde 2015, expedido pela Comarca de Tucuruí, por crime de homicídio. Já Marlon é foragido do Sistema Prisional por ação penal também por homicídio. Até o momento apenas o acusado de ser o mandante dos dois massacres, Fernandinho, foi preso.

Massacres no Campo

Os dois massacres são os primeiros registrados pela Comissão Pastoral da Terra em 2019. Com eles, o número de massacres no campo registrados pela CPT de 1985 a 2019, sobe para 47 no total, com 230 vítimas. Em agosto de 2017, diante dos sucessivos massacres ocorridos naquele ano, a CPT criou a página especial Massacres no Campo, com dados de 1985 até os dias atuais. Diante da análise dessas informações, a CPT percebe que esse tipo de crime sempre ocorreu no campo brasileiro, apesar de apenas alguns casos terem ganhado maior notoriedade no cenário nacional e internacional.

A Pastoral da Terra registra como massacre quando em um conflito, no mesmo dia, são assassinadas três ou mais pessoas.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também: