Assim os Krahôs vivem Futebol e Copa

Centenas assistem, nas aldeias, às partidas. Mas homens e mulheres preferem praticar esporte, enquanto pajé pensa em feitiçarias pela seleção…

Por Paulo Germano, Lauro Alves e Laércio Guterres, em Na Beira da Copa

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Centenas assistem, nas aldeias, às partidas. Mas homens e mulheres preferem praticar esporte, enquanto pajé pensa em feitiçarias pela seleção…

Por Paulo Germano, Lauro Alves e Laércio Guterres, em Na Beira da Copa

Os krahô se amontoam diante da única TV da aldeia, sentados sob um sol escaldante em frente à casa do cacique. Cansado do modorrento zero a zero entre Brasil e Sérvia, o pajé Alcides Pirca, 63 anos, menciona a feitiçaria em seu desabafo.

– Se Seleção chama pajé, Seleção ganha Copa – resmunga em português vacilante o líder espiritual da Aldeia Manoel Alves Pequeno, onde 300 índios habitam casas de barro e palha, sem banheiro nem luz elétrica (um gerador garante a TV do cacique), no interior de Itacajá, no Tocantins.

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Desde que o futebol ganhou força entre os krahô – coisa de 10 anos para cá –, os pajés aprontam horrores contra os times rivais. Há 28 aldeias na região, portanto são frequentes os torneios entre elas, tanto de futebol masculino quanto de feminino. Nos últimos Jogos Indígenas do Povo Krahô, no mês passado, as equipes passaram a levar seus próprios pajés às outras aldeias para inspecionar as partidas. E para averiguar a bola.

– Só pajé enxerga feitiço de outro pajé. Já joguei com bola enfeitiçada: perna fica mole, corpo fica lento, pessoa parece anta jogando – descreve o meia José Crato, 27 anos, assegurando que seu time só levou 10 a 2 devido à mandinga do pajé adversário.

Alcides Pirca, o feiticeiro magro e sisudo da Manoel Alves, explica como faria o Brasil ser hexacampeão com sua magia. Em primeiro lugar, é preciso entender que pajés como Pirca passam boa parte do tempo na floresta, sempre em contato com animais e plantas. Ao encontrar na mata uma anta, por exemplo, ele se comunica mentalmente com ela, repousa sua enrugada mão sobre a cabeçorra do bicho e, na despedida, pede ao animal que lhe conceda a alma assim que morrer.

– Quando morre, espírito da anta avisa a gente – afirma o pajé, que agora assiste às mulheres abandonarem o amistoso na TV para jogar bola no campo da aldeia, enquanto os homens se preparam para a corrida de tora, o mais tradicional esporte krahô.

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Para consumar o feitiço, o último passo consiste em esfregar nas mãos três grãos de milho: enquanto esfrega, Pirca evoca a alma da anta fumando cachimbo (quem fuma é ele, não a alma da anta) com sublime concentração e, depois que o milho vira pó, a farelada é lançada sobre a bola do jogo. Pronto. Os atletas da Croácia, que na quinta-feira enfrentam o Brasil na abertura da Copa, sentiriam suas pernas pesadas e curtas como antas balofas.

– Problema é que bola sai e gandula devolve outra – pondera o filho de Pirca, o pajé iniciante Pedro Iraniacá, que já mandou parar muito jogo por feitiço dos oponentes.

– Mas cada vez que bola enfeitiçada volta, Brasil faz dois gols – garante o pai.

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2 comentários para "Assim os Krahôs vivem Futebol e Copa"

  1. Julia disse:

    Como assim Sérvia?? Foi contra o México.

  2. HINO FUTEBOLÍSTICO BRASILEIRO
    Ouviram dos estádios a grama tácita
    De uma torcida eufórica o urro vibrante,
    E o sol da taça, em raios lúdicos,
    Imaginaram as crianças da pátria, desde sempre.
    Se a prova desta espontaneidade
    Conseguimos conquistar com um chute forte,
    Em tua chuteira, ó genialidade,
    Dribla o nosso peito do sul ao norte!
    Ó bola adorada,
    Cabeceada,
    Olé! Olé!
    Brasil de um jogo intenso, um passe lindo,
    A esperança de um gol ao campo desce,
    Se em tua camiseta auri-verde,
    Um coração bravo a aquece.
    Campeã pela própria natureza,
    És amarela, verde, azul, excêntrico alvoroço.
    Os teus filhos e o placar exalam essa realeza.
    Bola adorada,
    Entre outras mil,
    És tua Brasil
    A melhor jogada.
    Dos zagueiros destes campos és amiga gentil,
    Da “pátria pelada”,
    Brasil!
    Chutada certeiramente para as redes,
    Ao som da fanfarra, à luz dos flashes,
    Fulguras, Brasil, além das Américas
    Iluminado pelo riso de novos Pelés!
    Mais do que o jogador Garrincha?
    Tuas pernas, nas lindas várzeas, tem mais dribles.
    Nossos toques tem mais arte,
    Nossa arte, por ti, balão de couro, tem mais times.
    Ó bola adorada,
    Cabeceada,
    Olé! Olé!
    Brasil, brasão de estrelas laureado é o símbolo,
    E as vestes que ostentas numeradas,
    E diga o urro da torcida:
    – Vitórias no futuro, faixas passadas.
    Mas se ergue do juiz um silvo forte,
    Verás que um filho teu não foge à barreira,
    Nem teme, o goleiro, um pênalti, à própria sorte.
    Bola adorada,
    Entre outras mil,
    És tua Brasil
    A melhor jogada.
    Dos artilheiros destes campos és amiga gentil,
    Da “pátria pelada”,
    Brasil!
    ******************************
    LUIS Carlos de Oliveira
    Publicado em ENEBI de POESIA E PROSA, Òminira, Salvador, 2011.
    http://www.youtube.com/watch?v=iKu3lRXE3UY

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