Uma gigante incomodada

Nestlé notifica site O Joio e o Trigo por publicações sobre produtos da empresa. Leia também: depois da crise, abismo entre ricos e pobres aumentou; governo mantém financiamento de instituições denunciada por maus tratos; e muito mais

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

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Esta é a edição de 18 de junho da nossa newsletter diária: um resumo interpretado das principais notícias sobre saúde do dia. Para recebê-la toda manhã em seu e-mail, é só clicar aqui.

UMA GIGANTE INCOMODADA

Mais um nome fortíssimo da indústria alimentícia está irritado com os jornalistas do site O Joio e o Trigo. No ano passado, foi a Coca-Cola que os notificou extrajudicialmente por “uso indevido da marca”. Agora, um vice-presidente da Nestlé mandou duas notificações à equipe.

Em uma delasreclama do texto “Nestlé lança calculadora que induz a consumir açúcar em excesso”, publicado no início do mês. Nele, a reportagem aborda uma ferramenta da empresa para consumidores calcularem sua ingestão diária de açúcar. Mas a calculadora separa o ingrediente usado em preparações caseiras daquele que vem nos produtos industrializados – com um limite quase duas vezes maior no último caso. 

A segunda notificação se refere a imagens postadas nos stories do Instagram do site. As fotos integram o projeto O Joio no Rótulo, que alerta sobre altas quantidades de açúcar, gorduras e sal em vários os tipos de produtos ultraprocessados de várias marcas – por meio de selos como os que recomendados pela Opas para a rotulagem de alimentos. Segundo a Nestlé, o perfil de nutrientes a Opas é “arbitrário”.

As reportagens do site vivem aparecendo aqui na newsletter, especialmente quando investigam conflitos de interesses envolvendo grandes empresas. Se elas se preocupam, achamos um bom sinal. A  Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo publicou matéria sobre isso. Procurou a assessoria de imprensa da Nestlé, que não esclareceu muita coisa

MAIS DE MIL

Segundo Leonardo Trasande, chefe do Departamento de Pediatria Ambiental da Faculdade de Medicina da Universidade de Nova Iorque, existem pelo menos mil substâncias químicas sintéticas que podem interagir com os nossos hormônios. São os chamados disruptores, que competem ou suplantam hormônios humanos, e já foram associados a alterações na saúde reprodutiva, cânceres, diabetes e obesidade. Entrevistado pelo El País, ele explica que existem evidências científicas fortes para quatro categorias de substâncias: os pesticidas; os bisfenóis, que são usados em papel térmico como o dos tickets de máquinas de cartão e caixas registradoras e enlatados; os ftalatos que estão em cosméticos e em vários tipos de recipientes para alimentos; e os retardantes de chama bromados, presentes em tapetes, móveis estofados e produtos eletrônicos. “Pensava-se que só eram nocivos em altas doses, mas não é assim”, pondera, explicando que essas substâncias são mais nocivas em crianças. 

Medidas individuais podem ser tomadas para evitar problemas (algumas, bem difíceis de seguir em certos contextos): não comer alimentos enlatados, diminuir os alimentos embalados em plástico e ultraprocessados, consumir orgânicos, eliminar certos cosméticos, não colocar plásticos no microondas (ou na máquina de lavar louça, se você tiver uma) e ventilar a casa pelo menos 15 minutos por dia para eliminar a poeira química de tapetes e componentes eletrônicos.

E COMO FLUI

Pela primeira vez, o Ministério Público do Trabalho entrou com ações para responsabilizar os sete maiores bancos do país – Banco do Brasil, Bradesco, Santander, BTG Pactual, Caixa Econômica Federal, Itaú e Safra – pelas concessões de crédito a empresas que comprovadamente fizeram uso de trabalho escravo ou foram denunciadas por sérias violações aos direitos humanos. A Agência Pública entrevistou um dos procuradores, Rafael de Araújo Gomes. “O dinheiro que vem, o crédito dos bancos, é o sangue que permite fluir essa economia globalizada [ligada ao trabalho escravo]. Portanto, não há a menor dúvida que, se o trabalho escravo persiste, em grande parte passa pela possibilidade do escravagista continuar operando nessa cadeia global sem consequências”, diz ele. 

VER PRA CRER

Falando em MP, hoje o último dia da votação para o comando da Procuradoria-Geral da República. A eleição é promovida pela Associação Nacional dos Procuradores e, há 16 anos, a lista com três nomes, encaminhada ao presidente da República, é respeitada. (A ordem foi desrespeitada da última vez por Michel Temer, que escolheu a segunda colocada). Mas, de acordo com o Valor, não há uma lei que obrigue Bolsonaro a respeitar nem uma coisa, nem outra. O resultado deve ser conhecido à noite. 

A ÚNICA COISA QUE CRESCE NA ECONOMIA

A desigualdade vem aumentando no Brasil desde 2015, de acordo com estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).  Depois da crise econômica, o grupo dos 10% mais ricos da população acumulou um aumento de 3,3% na renda do trabalho. Se em meados de 2014, eles se apropriavam de 49% do total dessa renda, em 2019 essa fração chegou a 52%. Enquanto isso, os 50% mais pobres viram sua metade nesse bolo diminuir de minguados 5,74% em 2014 para exíguos 3,5% no primeiro trimestre deste ano. Em termos relativos, a queda é de quase 40%. 

“Os mais pobres estão sendo deixados para trás”, resume Marcelo Medeiros, pesquisador vinculado à Universidade de Princeton, em entrevista ao El País Brasil. Isso porque a recuperação econômica depois da crise tem favorecido só os trabalhadores de renda mais alta, gerando um repeteco bem ruim: desde o começo dos anos 1990 não se via um distanciamento tão grande entre o topo e a base do mercado de trabalho. No fim de março, 13,4 milhões de pessoas estavam desempregadas no Brasil, segundo o IBGE.

UMA PRIORIDADE

Já há alguns anos – com vigor extra na gestão Bolsonaro – o governo federal se empenha em financiar vagas em comunidades terapêuticas voltadas para o tratamento de dependentes químicos. E manteve, sem licitação, os contratos com cindo instituições que foram denunciadas por irregularidades no ano passado, segundo a BBC Brasil. Maus tratos, violação de correspondências, alta mediante conversão religiosa, prisão de internos em quartos, trabalho forçado e punições por faltas a cultos religiosos: tudo isso foi encontrado em uma investigação do Ministério Público Federal, dos conselhos Federal e Regional de Psicologia e do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura – o órgão cujos peritos foram exonerados na semana passada pelo presidente. 

As comunidades Jovem Maanaim, Esquadrão da Vida, Jovem Ebenezer, Caverna de Adulão, Salve a Si foram procuradas pela reportagem e negaram os problemas. Usando um termo cada dia mais em voga, algumas alegaram que os órgãos fiscalizadores fizeram “análise ideológica”. Já o governo federal não explicou por que manteve os contratos. 

Enquanto isso, em Portugal, a Assembleia Municipal do Porto conseguiu unanimidade em relação ao sensível tema do consumo assistido. E aprovou um conjunto de recomendações que apoiam a criação de equipamentos para esta finalidade – algo previsto em lei há 20 anos, mas que a cidade demorou para assumir. A decisão veio após o relatório de uma comissão que trabalhou no tema durante três anos.

GRANDE MISTÉRIO

Dias Toffoli adiou o julgamento do STF sobre a descriminalização do porte de maconha para um longínquo 6 de novembro. Antes do fatídico encontro no Planalto para discutir um “pacto” entre os três poderes da República, a discussão voltaria a plenário no dia 5 de junho. Segundo Época, o gesto rendeu a Toffoli “ainda mais crédito com o Palácio do Planalto”. Por que o presidente do Supremo se presta a isso é a pergunta de 1 milhão de dólares.

QUANTOS SEREMOS?

Um relatório da ONU projeta que população mundial será de 10,9 bilhões em 2100 – hoje, estamos na casa dos 7,7 bi. Mais da metade do boom populacional ficará concentrado em nove países: Índia, Nigéria, Paquistão, República Democrática do Congo, Etiópia, Tanzânia, Indonésia, Egito e EUA. Por aqui, a população deve diminuir a partir de 2045. No fim do século, teremos 180 milhões de habitantes (contra 210 mi hoje). Em compensação, teremos muitos idosos. “O Brasil é um dos países que terão o envelhecimento mais rápido. Lá para 2080, teremos mais idosos acima de 80 anos do que crianças e jovens de até 14 anos”, resume José Eustáquio Alves, da UFMG, para O Globo

POUQUÍSSIMOS

De acordo com ranking produzido pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes), apenas 85 municípios brasileiros cumprem todos os requisitos para ofertar à população um sistema de saneamento básico adequado. E 251 estão na base da lista. Foram avaliados serviços de abastecimento de água; coleta e tratamento de esgoto; e coleta e destinação adequada de resíduos sólidos. Divulgado ontem, o estudo foi feito com base em dados de 2017 e abarcou 1.868 municípios. Isso porque a maioria das cidades – 3,7 mil – sequer disponibilizam os dados necessários para serem ranqueadas. “O grande ganho do saneamento não está em si próprio, está na redução das doenças de veiculação hídrica”, afirmou o presidente da Abes, Roberval Tavares de Souza, à Agência Brasil.

MAU SINAL

Desde o mês passado os moradores de Barão do Cocais, em Minas, temem a queda de um talude na Mina de Gongo Soco (da Vale), o que poderia levar também ao rompimento de uma de suas barragens. No domingo, a movimentação do talude bateu recorde: foi registrado um índice de 56 centímetros no dia. 

COMEÇOU

Na semana passada, a Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) passou a ter uma reitora temporária, apontada pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub. O problema é que a UFGD elegeu outra chapa durante processo eleitoral realizado em março. A escolhida do governo, Mirlene Damázio, sequer estava entre os nomes da lista tríplice enviada ao MEC. Ela não perdeu tempo e já nomeou para sua equipe pelo menos um integrante da chapa que ficou em último lugar na eleição, cujos membros tinham viés pró-Bolsonaro. Segundo o Brasil de Fato, trata-se do primeiro caso de intervenção direta do governo em uma universidade federal. O Conselho Federal de Psicologia publicou uma nota de repúdio

PRATA DA CASA

Nexo acaba de lançar a primeira de uma série de minibiografias em vídeo sobre cientistas brasileiros que marcaram seus campos de atuação, começando pela bióloga Bertha Lutz. Em paralelo, vai publicar entrevistas com outros 12 cientistas brasileiros contemporâneos, que atuem em qualquer parte do mundo. A primeira é a ecóloga Ludmila Rattis, que hoje trabalha no Centro de Pesquisa Woods Hole, nos EUA. 

DE OLHO

Já falamos aqui sobre o projeto de lei de Janaína Paschoal (PSL), em São Paulo, para permitir cesarianas eletivas no SUS. Pode ser votado hoje

Também hoje, a Comissão de Seguridade Social e Família do Senado debate “a proteção da vida do nascituro“, com pedido de uma deputada do PSL do Rio, Chris Tonietto. Para ela, a “vida” do nascituro “tem sido muito atacada em razão dos casos de aborto”. Vai ter transmissão interativa

E, na mesma casa, o Conselho de Comunicação Social aprovou uma audiência com o editor do InterceptGlenn Greenwald para falar sobre as ameaças que vem recebendo desde a publicação das reportagens contendo diálogos nada republicanos entre Sergio Moro e procuradores da Lava Jato. Ficou marcada para o dia 1º. Ontem, o deputado federal Davi Miranda (PSOL-RJ), que é casado com Glenn, informou à imprensa ter entregue à Polícia Federal documento contendo ameaças de morte contra ele. 

GRANDE COMPRA

A farmacêutica Pfizer anunciou ontem a aquisição da Array Biopharma, uma empresa de biotecnologia especializada em medicamentos contra o câncer. Por US$ 11,4 bilhões

AGENDA

Começa hoje o simpósio “Drogas e Sistema de Justiça – Que política queremos?”, organizado pelo Ministério Público Federal na Faculdade de Direito da UnB. O evento é aberto ao público.

FIQUE ATENTO
O 8º Simpósio Brasileiro de Vigilância Sanitária prorrogou o prazo para submissão de resumos, a data final é 25 de junho. Não é necessário efetuar pagamento no momento da inscrição de trabalhos.

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