Monsanto: a cumplicidade dos cientistas de mercado

Vazamentos revelam sintonia entre executivo da empresa e “pesquisadores” que já prestaram serviços a ela Leia também: CNPq cancela apoio a 300 eventos científicos; a “cura gay” nas eleições para Conselho de Psicologia

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

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E-MAILS DA MONSANTO REVELADOS

Desde 2016, quando a Monsanto (agora da Bayer) começou a enfrentar vários processos que relacionam seu agrotóxico Roundup a casos de câncer, documentos secretos começaram a ser divulgados. A última remessa traz e-mails mostrando como, para defender o Roundup, a empresa planejava “acabar com a raça” do grupo Moms Across America, uma ONG financiada pela indústria orgânica. Em 2013, o diretor desse grupo postou uma carta aberta ao CEO da Monsanto pedindo o fim da venda de sementes transgênicas resistentes ao Roundup. Então, um dos executivos da empresa, Dan Goldstein, mandou e-mails para dois cientistas – Wayne Parrott, da Universidade da Geórgia, e Bruce Chassy, ​​da Universidade de Illinois – pedindo ajuda. 

Os três trocaram mensagens sobre estratégias. “[Os anti-transgênicos] publicaram estudos, trabalhos ruins, mas não se importam. Eles entraram com ações judiciais, ações falhas, mas não se importam (…) Pronto. Aí está seu inimigo. Acabe com a raça deles e coloque-os na defensiva e você não terá esse problema”, escreveu Chassy. O empresário retrucou: estava discutindo para “acabar com a raça delas” havia uma semana mas sem sucesso, e já tinha ouvido de tudo: que “não queremos ser vistos como batendo nas mães, que ninguém vai ouvi-las de qualquer maneira, que isso tem que ser feito por terceiros, que é um problema da indústria, não da Monsanto”.

Mas os pesquisadores não recuaram: “O silêncio implica em ser culpado de tudo o que você é acusado”, disse Parrot. E Chassy completou: “Você pode bater na indústria orgânica, que pagou e escreveu essa carta. Com um pouco de imaginação, você pode até mesmo se divertir. Por exemplo, a Stonyfield Farms faz campanha contra os transgênicos, e eles são de propriedade da Danone. Então aqui temos uma empresa francesa gastando milhões para bater em uma empresa americana nos Estados Unidos”. O repórter Sam Block, da New Food Economy, entrou em contato com os cientistas. Eles disseram que não são empregados da Monsanto, mas já receberam recursos da empresa.

A matéria lembra documentos revelados em levas anteriores: alguns mostram como a Monsanto monitorou e desacreditou jornalistas e considerou tomar medidas legais contra ativistas; como orquestrou esforços para minar a credibilidade da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (Iarc); e como a própria empresa tinha dúvidas sobre a segurança do Roundup. 

SUSPENSÃO

Na semana passada, o CNPq cancelou o apoio a cerca de 300 eventos científicos no Brasil. As propostas já haviam sido aprovadas pela agência estatal de incentivo, que sofre os efeitos do contingenciamento de verbas no Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. A suspensão repentina deixa vários organizadores em uma situação complicada para fechar as contas. Um dos eventos afetados pela mudança é o Congresso Brasileiro de Ciências Sociais e Humanas em Saúde, que acontece no final de setembro em João Pessoa. O evento vai marcar a comemoração pelos 40 anos da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Em entrevista ao Valor, João Luiz Azevedo, presidente do CNPq, nega os boatos de que o órgão vá cancelar todas as bolsas e pode ser fundido com a Capes, vinculada ao MEC. As negociações com o Ministério da Economia para a liberação de um crédito suplementar de R$ 330 milhões, necessário para pagar as 84 mil bolsas ativas, são ‘delicadas’, segundo ele, porque “pela lei d teto [EC 95], para o CNPq receber o aporte, outra área do governo terá de perder”. 

A CURA GAY E O CFP

Terminaram ontem as eleições para os conselhos regionais e federal de Psicologia, e não faltaram chapas apoiando tratamentos para mudar a orientação sexual de gays. A Agência Pública fala do grupo Psicólogos em Ação, que concorreu ao Conselho Federal e caiu no gosto da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos Damares Alves. A presidente da chapa, Rozângela Justino, já foi censurada pelo CFP por oferecer esse tipo de terapia. A vice, Deuza Avellar, visitou Damares em junho com outros psicólogos para apresentar o ‘Movimento Ex-Gays do Brasil’. 

Mas o discurso desses psicólogos mudou. Eles não falam mais em ‘cura’ nem chamam o ‘homossexualismo’ de doença. Agora, o termo técnico utilizado é “egodistônico”, que caracteriza alguém que está em conflito com o desejo e quer acabar com esse sofrimento psíquico. O problema é que, para a maioria dos pesquisadores, é justamente a tentativa de combater o desejo que causa o sofrimento. O fato é que o grupo Psicólogos em Ação não ganhou. Ficou em último lugar, com cerca de 5,4 mil votos, 5% do total. 

É PROIBIDO TER POSIÇÃO

E falando em Damares Alves, a ministra exonerou a coordenadora-geral do Conselho Nacional de Direitos Humanos, Caroline Dias dos Reis. A razão? O órgão de participação recomendou que o Senado rejeite a reforma da Previdência. A recomendação saiu no Diário Oficial na última segunda. No mesmo dia, Damares foi ao Twitter dizer: “Este conselho não é ligado a mim. Atua de forma independente. Aliás, recomendo que ignorem as manifestações ideológicas deste colegiado, que está longe de se preocupar com os direitos humanos.” No dia seguinte, resolveu interferir no Conselho, atacando a independência do órgão. O governo se defende dizendo que Damares “tem autonomia para nomear e exonerar” servidores. O presidente do CNDH, Leonardo Pinho, acredita que a retaliação seja por conta não só da posição do colegiado de 22 membros sobre a reforma, mas sobre outras propostas do governo.

AS QUEIMADAS

Ontem a noite, o governo aceitou uma oferta de R$ 50 milhões do Reino Unido para combater as queimadas na Amazônia. Mas Jair Bolsonaro continua negando os US$ 20 milhões oferecidos pelo presidente francês Emmanuel Macron durante o encontro do G7. Agora, porém, Bolsonaro diz que aceita se Macron “retirar os insultos” feitos a ele. Na reunião com governadores dos nove estados que integram a Amazônia Legal, as prioridades do mandatário brasileiro foram questionadas. “Estamos perdendo muito tempo com o Macron“, disse o governador do Pará Hélder Barbalho (MDB). Os governadores cobram um plano de ação do governo federal para conter o desmatamento.  

O local mais atingido pelas queimadas este ano no Pará é o Projeto de Desenvolvimento Sustentável Terra Nossa, assentamento do Incra onde vivem 300 famílias. Segundo a Pública, foram 197 focos de incêndio só este mês – 319% a mais do que em agosto do ano passado. Em 10 de agosto (o “Dia do Fogo”), os focos quadruplicaram. 

Na mesma reunião com governadores, Bolsonaro resolveu levar o assunto que constrange seu governo para a seara da demarcação de reservas indígenas. De acordo com o presidente, que já culpou as ONGs pelos incêndios provocados por grileiros e produtores rurais, as reservas são uma tentativa de “inviabilizar” o país. “Muitas reservas têm o aspecto estratégico. Alguém programou isso. Uma das intenções é nos inviabilizar”. Bolsonaro também afirmou, sem base ou provas, que se fizesse a demarcação de terras indígenas, o fogo na Amazônia acabaria em minutos. 

E o Senado deve instaurar, ainda esta semana, a CPI da Amazônia, para investigar o desmatamento, as queimadas na região e os motivos que levaram o governo a perder os recursos que Alemanha e Noruega destinavam ao Fundo Amazônia. 

AMIL: CORTES E ESPECULAÇÕES

A UnitedHealth, empresa dos EUA que comprou a Amil em 2012, está cortando custos e demitindo funcionários na operadora de planos de saúde brasileira. A orientação é que cada departamento da empresa faça uma redução de 30% em orçamento e salários. Em 2018, a Amil contava com 38 mil funcionários.Quem está comandando tudo pessoalmente é o CEO global da UnitedHealth, Molly Joseph.

De acordo com o Valoro presidente da multinacional no Brasil, Claudio Lottenberg  teve seu poder esvaziado. Lottenberg é ex-presidente do Albert Einstein, e atual dirigente do Instituto Coalizão Saúde, think tank que reúne várias empresas do setor. Embora seu contrato com a United vai até 2021, há especulações de que ele pode ocupar um cargo público na área da saúde. Teria Luiz Henrique Mandetta um adversário? 

BOM, MAS POUCO

Ontem falamos aqui sobre a derrota da Johnson & Johnson no processo que a julgou responsável pela crise de opioides em Oklahoma. Apesar de a vitória do estado ter sido importante, foi insuficiente, diz esta matéria do NPR. A empresa foi condenada a pagar US$ 752 milhões – mas isso é apenas 1/30 do valor inicialmente pedido pelo estado, que era US$ 17 bilhões. O recurso seria usado para combater a crise ao longo de 30 anos, enquanto o juiz considerou um ano de ações. 

Enquanto isso, a Purdue Pharma tenta fazer mais acordos para acabar com todas as acusações nos mais de dois mil processos que existem contra a empresa nos EUA. Deve pagar entre US$ 10 e US$ 12 bilhões.

NOVA ONDA

Vigiar fronteiras e fechar o cerco é uma estratégia para manter as drogas afastadas de um país – mas deve ser cada vez menos importante. A matéria da Vice fala sobre a venda de drogas sintéticas, feitas inteiramente em laboratórios, produzidas por indústrias químicas, vendidas online e contrabandeadas até pelo sistema postal: “Se essas tendências continuarem, a produção, venda e consumo de drogas sintéticas pode eclipsar as de drogas à base de plantas. Fronteiras vêm se tornando cada vez menos relevantes para traficantes e seus lucros, ao mesmo tempo em que comprometem a habilidade das autoridades de monitorar e regular o suprimento de drogas através de apreensões”. 

EXPLOSÃO DE ACIDENTES

Nos últimos dez anos, mais de 2,7 milhões de pessoas que se acidentaram de moto ficaram com invalidez permanente ou morreram. O número de pessoas envolvidas nesse tipo de acidente – incluindo os de menor gravidade, que não deixaram sequelas nas vítimas – é ainda maior: 3,3 milhões. No período, os acidentes com moto cresceram 72%, enquanto os acidentes com outros meios de transporte aumentou 28%. E o número de vítimas que sofreram algum tipo de invalidez permanente subiu inacreditáveis 142%. Os números são da seguradora Líder, responsável pela administração do seguro para danos causados por veículos, o DPVAT.

VACINAÇÃO É CAMPEÃ

O canal para combate de fake news do Ministério da Saúde completou um ano. De lá para cá, foram enviadas 12,2 mil mensagens de WhatsApp e respondidas 11,5 mil dúvidas sobre 104 notícias falsas diferentes, de acordo com a Pasta. Entre os principais temas recebidos pelo canal estão: vacinação, falsos cadastros para atendimento no SUS, surgimento de câncer por falta de vitamina, uso excessivo de celulares, além de uma série de notícias que atribuem curas milagrosas de doenças por meio de alimentos.

AUDIÊNCIA PÚBLICA

A medida provisória que institui o programa Médicos pelo Brasil foi assunto em audiência pública na comissão mista instalada no Congresso. A proposta recebeu críticas de alguns parlamentares, e foi defendida pelo governo. Além do Ministério da Saúde, falaram representantes do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde, do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (que reúne estados) e do Conselho Federal de Medicina. Hoje, a audiência continua e ouve representantes do Conselho Nacional de Saúde, da Comissão Nacional de Residência Médica, da Associação Brasileira de Educação Médica e da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade.

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