Novo teste pode alavancar pesquisas com Alzheimer

Exame de sangue experimental identifica doença anos antes dos sintomas. Cientistas esperam avançar em testes clínicos com medicamentos

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 29 de julho. Leia a edição inteira.
Para receber a news toda manhã em seu e-mail, de graça, clique aqui.

Uma equipe de cientistas de vários países anunciou ontem uma boa descoberta: um exame de sangue experimental desenvolvido por eles conseguiu diagnosticar a doença de Alzheimer de forma precisa, barata e pouco invasiva. O teste foi usado em mais de 1,4 mil pessoas na Suécia, nos Estados Unidos e na Colômbia, e mediu a quantidade da proteína fosfo-tau217, cuja concentração é elevada no sangue de pessoas com a doença. Segundo os autores, foi possível prever a demência com uma precisão que variou entre 89% e 98% – mas ainda são necessários estudos com populações mais diversas e em ensaios randomizados antes que o exame possa estar disponível. Os resultados foram apresentados na Conferência Internacional da Associação de Alzheimer e publicados na revista JAMA.

Faz vários anos que pesquisadores buscam desenvolver esse tipo de teste porque, hoje, o diagnóstico é feito apenas com de testes de memória, exames cerebrais e análises do líquido espinhal depois que os sintomas já apareceram (e mesmo depois que os pacientes já morreram). A questão é que os sintomas só aparecem anos, ou décadas, depois da doença. Um exame de sangue permitiria rastrear o problema em pessoas com histórico familiar de Alzheimer desde cedo, muito antes que apareça qualquer comprometimento cognitivo. 

Uma vez que não há cura, a notícia traz inevitavelmente a pergunta: se um diagnóstico precoce baseado em exame de sangue estivesse à disposição, para que serviria? No curto prazo, provavelmente haveria poucos benefícios na vida dos pacientes, como atenta o jornalista Gary Schwitzer no Health News Review. Há uma esperança de que identificar precocemente proteínas tau poderia ajudar na pesquisa de medicamentos; porém, ainda não se sabe se essas proteínas são causa ou consequência da doença. 

Mas desenvolver tratamentos que possam ser usados em estágios iniciais da doença é, sem dúvidas, uma meta. E a dificuldade no diagnóstico precoce é algo que limita muito os estudos clínicos com potenciais remédios. Se um exame de sangue preciso for descoberto, mais gente vai poder se inscrever nesse tipo de ensaio, o que deve impulsionar a busca por terapias. Em outras palavras: saber que se tem a doença de Alzheimer 20 anos antes de ela se manifestar não traz necessariamente benefício individual (na verdade, conviver com a sombra de uma doença sem cura pode ser bem ruim), mas abre caminho para pesquisas futuras.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos