Negociações por CanSino e Sputnik V também devem entrar na mira da CPI

Assim como no caso Covaxin, as duas tratativas foram intermediadas por empresas e tiveram Ricardo Barros como incentivador

Foto: Edilson Rodrigues / Agência Senado

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Depois de uma movimentada sexta-feira na CPI da Pandemia – quando o deputado Luís Miranda (DEM-DF) envolveu diretamente o nome do líder do governo, Ricardo Barros (PP-PR), em um possível esquema de corrupção relacionado à compra da Covaxin – a Comissão decidiu investigar também as negociações entre o governo brasileiro e o laboratório chinês CanSino sobre a compra da vacina Convidencia.

O Ministério da Saúde anunciou, há duas semanas, uma carta de intenção para a compra de 60 milhões de doses do imunizante por US$ 17 cada. Se o acordo se confirmasse, seria a vacina mais cara adquirida pelo Brasil (embora seja preciso notar que o regime é de dose única, o que reduz seu custo total). E, assim como no caso da Covaxin, seria intermediado por uma empresa brasileira, a Belcher Farmacêutica.

Mas a tratativa não foi adiante. Motivo: a fabricante chinesa desistiu ao saber a Belcher é investigada pela Polícia Federal, suspeita de fazer parte de um esquema que superfaturou testes de coronavírus adquiridos pelo Governo do Distrito Federal. 

Tem mais. Já em março, o diretor presidente da Belcher, Emanuel Catori, esteva junto com os empresários bolsonaristas Carlos Wizard e Luciano Hang no grupo que fez lobby garantir a possibilidade de o setor privado comprar vacinas. O trio chegou a se reunir com representantes da embaixada da China para discutir a aquisição de imunizantes do país. Aliás, A Belcher afirmou na época ter recebido autorização do Ministério da Saúde até para negociar doses da CoronaVac.

Como se não bastasse, a sede da Belcher é em Maringá (PR), reduto eleitoral de Ricardo Barros. E um dos sócios da empresa é filho de Francisco Feio Ribeiro Filho, que foi presidente da empresa de urbanização de Maringá quando Barros era prefeito da cidade, entre as décadas de 1980 e 1990.

A Belcher entrou com um pedido de uso emergencial da Convidencia junto à Anvisa em maio, mas o processo ainda está em análise

Outro flanco possível: União Química

Vale lembrar que Ricardo Barros pressionou tanto pela aprovação da vacina da Cansino como da Sputnik V. Sua compra também é intermediada no Brasil por uma empresa, a União Química, que nunca havia produzido vacinas antes. O presidente da farmacêutica, Fernando Marques, chegou a enviar um áudio de WhatsApp a Luciano Hang reclamando que havia um monopólio na produção de vacinas no Brasil: “Butantã na mão do Doria e Fiocruz na mão do PT, PCdoB”. 

Ricardo Barros é contato frequente do ex-deputado federal Rogério Rosso, antiga liderança do Centrão e hoje lobista da União Química, onde é contratado formalmente como diretor de Negócios Internacionais. Em fevereiro, pouco depois de a Anvisa negar pela primeira vez o aval para o uso emergencial da Sputnik V, o líder do governo disse que iria “enquadrar” a agência.

O Senado chegou a aprovar uma Medida Provisória que retirava da Anvisa a prerrogativa de analisar tecnicamente determinadas vacinas contra a covid-19, tornando a autorização no Brasil automática para aquelas aprovadas em uma série de países – entre eles a Rússia. O dispositivo foi vetado depois, na sanção.

A ver se a CPI irá enveredar também por esta via. Hoje de manhã, o Estadão indicou que sim. Segundo a reportagem, o contrato com a União Química para a compra de 10 milhões de doses por parte do governo federal envolvia um custo de R$ 12,60 por dose; o Consórcio do Nordeste conseguiu um preço mais baixo, de R$ 9,95 – numa negociação direta com o Fundo Soberano Russo, sem intermediários.

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