Mentiras e ameaça de prisão marcam depoimento de Wajngarten à CPI da covid

Ex-chefe da Secom, que recentemente acusou Ministério da Saúde de incompetência, mudou de lado na CPI. Depoimento foi marcado por contradições

Foto: Pedro França/Agência Senado

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A CPI da covid-19 teve ontem seu dia mais tenso com o depoimento de Fabio Wajngarten, ex-titular da Secom (a Secretaria Especial de Comunicação Social). O relator Renan Calheiros (MDB-AL) chegou a pedir a prisão do depoente: “Vossa Excelência exagerou na mentira”, disse. 

Foram mesmo várias as mentiras proferidas pelo ex-secretário, e é até difícil escolher a mais explícita. Mas a mais importante para a CPI foi aquela relacionada ao grande motivo de ele ter sido convocado pelos senadores: sua entrevista-bomba à Veja, publicada há menos de um mês, em que ele acusa o Ministério da Saúde de “incompetência e ineficiência” na compra da vacina da Pfizer. Ontem ele mudou de lado. Disse, logo no começo da sessão, que o acordo foi travado por “burocracia e morosidade”, e que isso seria uma “característica da administração pública”. Negou várias vezes ter usado os adjetivos “incompetência” ou “ineficiência” para se referir a Eduardo Pazuello e sua equipe. Segundo ele, a revista teria usado esses termos como um “truque” para “trazer audiência”. 

Veja então publicou o áudio da entrevista: “Incompetência e ineficiência. Quando você tem um laboratório americano com cinco escritórios de advocacia apoiando uma negociação que envolve cifras milionárias e do outro lado um time pequeno, tímido, sem experiência, é 7×1”, diz Wajngarten. A senadora Leila Barros (PSB-DF) tocou o trecho para confrontar o ex-secretário. Sua resposta foi dizer que… não havia acusado o Ministério como um todo.

As farsas foram se acumulando. Wajngarten disse, por exemplo, desconhecer a inesquecível campanha “O Brasil não pode parar”, veiculada em março do ano passado (em sua gestão, portanto). A propaganda estimulava a população a seguir a vida normalmente quando governadores e prefeitos implementavam medidas restritivas. Mais tarde, ele disse ter “lembrado” da campanha, mas garantiu que não partiu dele a aprovação e que ela não havia sido veiculada por perfis oficiais. É mentira: a peça foi publicada nas redes sociais da própria Secom.

Sua desculpa para não se lembrar direito desses fatos foi a de que tinha testado positivo para covid-19, estando “fora” no mês de março. Porém, na época ele participou de uma transmissão ao vivo com Eduardo Bolsonaro, em que afirmou estar trabalhando normalmente: “Tenho feito ‘calls’ com ministros, feito ‘calls’ com a Secom. Tenho aprovado campanhas”, disse, naquele momento. Ele também declarou ontem que a Secom não contratou influencers para propagandear o kit covid nas redes sociais, mas a Agência Públicamostrou recentemente que sim: agência Calia, contratada pelo governo, pagou R$ 23 mil a perfis famosos para isso.

“Ao fim e ao cabo, depois de mais de cinco horas de depoimento, Wajngarten mostrou que apesar de ter saído do governo, o governo não saiu dele. Na condição de titular da comunicação do embuste que foi o enfrentamento da pandemia por este governo, o ministro não poderia ter sido outra coisa senão um engodo de igual monta”, analisa Maria Cristina Fernandes, no Valor.

O pedido de prisão foi negado pelo presidente da CPI, Omar Azis (PSD-AM) — ele disse que, como Wajngarten depôs na condição de testemunha, não caberia à Comissão julgá-lo. Segundo a apuração do Valor, sua decisão quebrou certo consenso que havia no G7 de que Wajngarten deveria de fato ser preso. No fim, Aziz optou por uma solução de “meio termo”: acatou a sugestão de Humberto Costa (PT-PE) para que o depoimento seja encaminhado ao Ministério Público, que pode decidir pela prisão.

Como se o dia não estivesse confuso o bastante, o senador Flávio Bolsonaro decidiu aparecer para defender Wajngarten: “Imagina a situação: um cidadão honesto ser preso por um vagabundo como Renan Calheiros? Olha a desmoralização, estão perdendo a visão do todo”, disse, no que Renan xingou de volta, lembrando as rachadinhas: “Vagabundo é você que roubou dinheiro do pessoal do seu gabinete”. Flávio, então, desceu o mais baixo que pôde, mandando relator da CPI “se foder”. E a sessão foi suspensa.

Comitê paralelo

Apesar de ter defendido o governo federal em seu depoimento, Fabio Wajngarten confirmou um episódio-chave narrado em sua entrevista de abril à Veja: o envio de uma carta pela Pfizer em setembro do ano passado, com o objetivo de acelerar as negociações com o Brasil. A empresa ficou dois meses sem nenhuma resposta. Wajngarten entregou à CPI a íntegra da carta, que tinha como destinatários o presidente Jair Bolsonaro, o vice-presidente, Hamilton Mourão, o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, o então ministro da Casa Civil, Walter Braga Netto,o ministro da Economia, Paulo Guedes e o embaixador do Brasil para os Estados Unidos, Nestor Forster.

“A carta foi enviada em 12 de setembro. O dono do veículo de comunicação me avisa em 9 de novembro que a carta não havia sido respondida. Nesse momento, eu mando um e-mail ao presidente da Pfizer, que consta nessa carta. Eu respondi essa carta no dia em que eu recebi, 15 minutos depois, Senador”, declarou o ex-secretário.

Também neste terreno a fala do ex-secretário teve contradições. Ele disse ter se reunido três vezes com representantes da Pfizer para destravar a negociação; disse explicitamente que os encontros haviam sido registrados em sua agenda oficial. Por lei, eles precisam mesmo estar lá. Mas não há nada em sua agenda oficial nas datas informadas. Wajngarten também afirmou mais de uma vez que não discutiu o preço das doses com a Pfizer. Na entrevista à Veja, porém, ele contou que a empresa estava disposta a cobrar menos de US$ 10 por dose – menos que o valor efetivamente pago pelo Ministério da Saúde. 

O fato de Wajngarten confirmar sua atuação nas tratativas acabou servindo, na avaliação de Renan Calheiros, como prova da existência de uma espécie de gabinete paralelo de aconselhamento de Jair Bolsonaro na pandemia, como denunciou o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Calheiros perguntou especificamente sobre tal gabinete, que o ex-secretário disse desconhecer. “Vossa Excelência é a prova da existência dessa consultoria. Vossa Excelência é a primeira pessoa que incrimina o presidente da República porque iniciou uma negociação, como secretário de Comunicação, e se dizendo em nome do presidente. É a prova da existência disso”, retrucou o relator. 

Enquanto isso…

Após as estrondosas presenças de Antonio Barra Torres e Fabio Wajngarten na CPI, o depoimento do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello se torna ainda mais aguardado – mas pode não dar em nada. Como já dissemos por aqui, sua defesa decidiu tentar conseguir um habeas corpus no STF para que ele possa ficar calado. O texto está pronto para ser assinado pelo advogado-geral da União, André Mendonça, e apresentado ao Supremo. 

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