Na contramão de artistas bancados por marcas de corporações alimentícias, uma visão crítica e até perturbadora sobre ultraprocessados

A América sob o olhar de um músico norueguês e uma dupla de artistas alemães não é bonita. Quando Magne Furulhomem lançou o álbum White Xmas Lies, em outubro do ano passado, talvez não imaginasse a completude do cenário distópico que enfrentamos agora no continente, com direito a novo coronavírus, Donald Trump e Jair Bolsonaro.

Porém, parte da situação ele já entendia. Se o artista não enxergava precisamente a pandemia do Sars-Cov-2, já vislumbrava um mundo caótico, cidades se deteriorando e pessoas em isolamento. Com um acréscimo: muita junk food como símbolo da decadência da saúde física e mental.   

Magne é um cara conhecido do mundo musical. Membro da banda de pop-rock a-ha (assim mesmo, tudo em minúscula), ele é compositor de um dos maiores hits musicais de todos os tempos, Take on Me, e responsável por um dos solos de teclados mais facilmente identificáveis da história da música.

E, embora até hoje faça turnês bem-sucedidas com a banda que lhe lançou à fama, Mags – apelido que carrega desde a infância – se tornou também um reconhecido artista visual na Escandinávia. Foi por esse caminho que se aproximou da dupla alemã-norueguesa de multiartistas composta por Ida Müller e Vegard Vinge, criadores de vídeos, peças teatrais e outras experimentações visuais.

Dessa soma, nasceu o videoclipe de uma das faixas do álbum de Furulhomen, This is Now America (não confundir com This is America, video igualmente impactante e potente do artista estadunidense Childish Gambino/Donald Glover). 

Vou tentar não dar muitos spoilers da essência do clipe aqui, mas vale dizer que o vídeo abre mostrando discursos raivosos de Trump, enquanto uma família vai se deformando, inclusive fisicamente, e se autodestrói, presa numa casa, de onde só é possível observar um mundo em chamas, consumir ícones pop de todos os tipos e se entupir de Coca-Cola, Pringles, Burger King, Sucrilhos Kellogg’s, entre outras (sim, todas as marcas estão lá, sem medo de retaliações, e chega até a rolar uma “overdose” com uma delas). 

Tudo isso, para potencializar uma letra forte e destoar propositalmente da voz reconfortante de Mags, que canta: “Não há nenhuma ponte para atravessar as divisões/Um passeio alegre foi destruído/Por um macaco ao volante/Agora, todos vão ficar em casa/Há lobos batendo nos seus calcanhares.”, numa escrita que, não custa relembrar, veio bem antes da Covid-19.

Poderia ser “só” mais uma pesada crítica à tentativa de assassinato de valores democráticos por políticos como Donald Trump, com quem Mags já havia se irritado por uma imitação descarada que o político fez da estética do clipe de Take on Me numa ação de marketing. Contudo, This is Now America vai além e mostra algumas das maiores corporações do planeta como co-responsáveis pela destruição de corpos e sonhos, incluindo as estruturas da própria democracia. 

As megaempresas são expostas como peças-chave de um jogo de alienação, manipulação e morte, numa interação competente entre texto, música e imagens.

Cena do perturbador vídeo de This is Now America, música de autoria de Magne Furuholmen Foto: Just Loomis

Nesse conjunto, há uma indignação nostálgica sobre esperanças destruídas pela invasão e sobreposição do interesse privado ao interesse público, algo que bate direto no presidente dos Estados Unidos, mas que serve bem para encaixar Jair Bolsonaro no Brasil, país também muito conhecido por Magne.

“Essa música é uma resposta artística instintiva à minha crescente preocupação com a tendência humana ao consumismo, à divisão e ao entrincheiramento acontecendo por todos os lados. Se concluirmos que aqueles que compartilham das nossas opiniões são os mocinhos e que os que não o fazem são maus, então, estamos em um caminho perigoso. O mesmo vale para o consumo como valor maior. Poderia ter sido escrita [a música] sobre outros lugares, como a minha segunda casa, que é a Grã-Bretanha, ou mesmo sobre a minha Noruega natal, mas a verdade é que o que acontece na América é muito importante e influente para o mundo”, diz Mags, explicando parte do processo de composição do trabalho. 

Muito antes de pensar na parceria com a dupla Vinge e Müller para a construção do vídeo, que foi lançado em fevereiro, o músico norueguês havia composto a canção como uma crítica ao consumismo e ao momento retrógrado da América, tendo o Natal – gancho de todo o álbum – como um exemplo das distorções de sentido e apropriações de afetos produzidas pelo capitalismo.

“Era um fim de um ano e o começo de um novo, o momento perfeito para refletir sobre o que se passou, onde você está e o que o futuro reserva. Esse tempo pode ser extremamente significativo, pode ser um tempo para pensar em deficiências, objetivos e utopias. Em vez disso, nos comportamos como consumidores submissos e nossa utopia é comprar a versão mais recente de um celular ou jantar em restaurantes caros”, comenta o músico. 

Então, o ano virou. As preocupações de Magne Furulhomen aumentavam e ele só conseguia pensar em transformar a música em algo que traduizisse visualmente o lamento por trás de boas expectativas que se esvaíam.

Ideias trocadas, a narrativa saiu desenhada à mão por Vinge e Mülller, trazendo um mundo eclético e assustador, com um “lado de fora” visto de forma conturbada pelos olhos de um garoto atormentado, como tantos meninos e meninas devem estar observando a vida de carne e osso nesse momento pelas janelas.

Mags não tem receio de assumir essa visão triste do hoje e admitir a nostalgia que lhe atravessa: “Quando eu tinha 15 anos, senti que o mundo estava cheio de infinitas possibilidades e era um lugar emocionante para seguir um sonho. Hoje, as crianças crescem em um mundo muito diferente e muito mais perturbador.”

O que ele não imaginava era que a arte que criava naquele momento poderia ser quase uma “previsão”. E que as coisas, incrivelmente, piorariam, com a chegada avassaladora do novo coronavírus, mostrando um cenário ainda mais aterrador, cercado por obscurantismo. e o capital, as grandes marcas, mais uma vez, ditando as regras. Decidindo, literalmente, quem vive e quem morre.

Isso o assusta, como a tantos de nós, mas, ao mesmo tempo, não permite que ele se esconda, até porque Magne sabe que o modelo econômico que está destruindo o planeta precisa de uma alternativa e que as grandes marcas são, hoje, mais parte do problema do que da solução.  

“Vivemos tempos turbulentos. O mundo está sendo devorado pelos lobos. Todos os dias, há um novo exemplo horrível de deterioração em todas as frentes, seja política-partidária ou climática. E isso assusta. E nós somos os causadores, mas nos esconder não fará com que o problema desapareça”, conclui. 

Impossível não pensar no Brasil ao assistir This is Now America e nem há como dissociá-lo do que fazemos aqui no Joio. Vivemos tempos tristes. De uma pandemia de vírus, ódios e lucros financeiros tirados da tragédia. Distrair a cabeça é mais do que necessário. É um direito. 

Porém, não bastasse o novo coronavírus e um governo irresponsável e negacionista, é preciso falar do envolvimento tantas vezes nocivo entre entretenimento e alimentação. Por quê?

Porque, se as coisas estão ruins, poderiam estar um pouco melhores se tantas mortes por Covid-19 não tivessem o risco elevado por problemas cardíacos, diabetes e hipertensão, doenças crônicas não transmissíveis incansavelmente relacionadas pela ciência à má alimentação, tantas vezes incentivada justamente por ícones da música pop.

Dentro da espiral de lives de artistas patrocinados por marcas de cerveja e alimentos ultraprocessados enquanto os hospitais lotam com a pandemia, é bom ter um respiro quando a música popular é elevada ao nível de um curta-metragem significativo.

Perturbador, sim, mas, também, uma  provocação necessária sobre os rumos do hoje e do amanhã.  Eu aconselho.