Resultados do primeiro trimestre confirmam tendência de aumento de poder das corporações do setor e explicitam desigualdade entre consumidores pobres e ricos

As grandes redes de supermercados encontraram na pandemia de Covid-19 a situação perfeita para abocanhar uma fatia ainda maior do setor. Como previmos no Joio, a tendência de que o cenário aumente a assimetria entre grandes e pequenas empresas varejistas está se confirmando. Também é esperado que cresça a brecha entre os supermercados e outros formatos de comercialização de alimentos, como feiras, mercearias, açougues e padarias. 

Em simultâneo, a quarentena explicita as desigualdades entre consumidores pobres, mais expostos aos riscos de contrair a doença, e ricos, para quem estão disponíveis compras à distância e serviços de entrega. 

Carrefour e Pão de Açúcar apresentaram na semana passada os resultados financeiros do primeiro trimestre de 2020. As vendas explodiram, em especial na última quinzena de março, quando tiveram início as medidas de restrição da circulação e as pessoas correram para fazer estoques.

O faturamento do Carrefour avançou 12,5% nos primeiros três meses em comparação com o mesmo período de 2019. No Pão de Açúcar, o resultado foi ainda mais expressivo, com expansão de 56,5% nas vendas brutas, chegando a R$ 21,6 bilhões. O ritmo elevado vem se mantendo no segundo trimestre, segundo os representantes das duas empresas. 

No caso do Pão de Açúcar, o resultado final apresentou um leve prejuízo em razão da integração das operações com o Éxito, rede do grupo Casino presente na Colômbia, no Uruguai e na Argentina. Mas nada que afete as projeções quanto à possibilidade de manter um faturamento elevado ao longo do ano.

Migalhas esmigalhadas

Dois braços dos negócios se beneficiaram especialmente da conjuntura. De um lado, o formato de atacarejo, com custos baixos e alta margem de lucro, voltado às classes baixas. De outro, os pedidos pela internet, acessíveis às camadas de média e alta renda. 

As duas maiores corporações do setor controlam em torno de 30% do mercado nacional, mas essa fatia é significativamente maior nos principais centros do país. Nos dados mais recentes da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), relativos a 2018, somavam R$ 110 bilhões de faturamento – a quarta e a quinta empresas da lista tinham, em conjunto, R$ 15 bilhões. 

O cenário econômico e social projeta a fome e o desemprego a níveis recorde (e ainda imprevisíveis). Empresas das mais variadas áreas quebram. Mas os supermercados celebram. Nas últimas duas semanas de março o crescimento das vendas no Grupo Carrefour foi de 20,9% frente ao mesmo período do ano passado.

Mundo afora, esse segmento foi considerado como serviço essencial e sofreu pouca ou nenhuma restrição. No caso brasileiro, limitações à densidade de clientes e imposições de medidas de proteção foram a exceção, e não a regra. Logo de cara, o Carrefour, que emprega 85 mil pessoas, e o Pão de Açúcar, que tem em torno de 100 mil funcionários, contrataram outros cinco mil cada um para dar conta da demanda e afastar trabalhadores infectados. 

Segundo a Abras, diariamente 28 milhões de pessoas passam por supermercados no país, ou seja, ao longo de uma semana praticamente todas as famílias brasileiras foram ao menos uma vez a uma loja.

Em 1990 eram 32 mil supermercados. Em 2000, 61 mil. E, hoje, cerca de 90 mil. Sobra pouco para o chamado varejo tradicional, formado por mercearias, mercadinhos de bairro e pequenos comércios locais. Em 1995, o varejo tradicional ficava com 12,5% do faturamento. Atualmente, só 7% do dinheiro sobra para os pequenos, segundo dados da consultoria Nielsen, que faz os principais levantamentos sistemáticos de informações sobre o setor.

No primeiro trimestre deste ano, o faturamento do Carrefour aumentou 12,5% em comparação com o mesmo período de 2019. Somente nas duas últimas semanas de março, período no qual o Brasil registrou a 1ª e a 100ª mortes, as vendas do grupo avançaram 20,9%.

Como se fosse Natal

O atacarejo é um modelo que usa lojas de estrutura muito simples, no formato de atacado, mas voltadas tanto a pessoas físicas como jurídicas. Esse segmento vem apresentando crescimento de dois dígitos nos últimos anos e é o que segura a onda das duas maiores empresas do setor, em especial à medida que a população perde mais renda – hoje, já representa 67% das vendas totais no Carrefour e 53,8% no Pão de Açúcar.

Tem garantido a essas corporações um vislumbre daquilo que jamais conseguiram: ter capilaridade nacional, com presença em centros de médio porte e em áreas de baixa renda. 

No primeiro trimestre, o Atacadão, bandeira de atacarejo do Carrefour, cresceu 13,6% em faturamento frente ao mesmo período de 2019, enquanto o concorrente Assaí, do Pão de Açúcar, avançou 23,8%. Relatamos em nosso podcast, Prato Cheio, como essas unidades estavam repletas nas primeiras semanas de pandemia, sob medo dos trabalhadores de que acabassem infectados. 

O receio ganhou números e, no discurso dos diretores, virou euforia. “Foram sete dias como se fosse 23 de dezembro. O time precisou ser muito guerreiro, com muita garra para atender aquele movimento que veio”, afirmou Belmiro Gomes, CEO do Assaí, em alusão ao final de março, durante a teleconferência de apresentação dos resultados do primeiro trimestre, realizada na semana passada. Ele projetou ainda um crescimento na casa de 20% no segundo trimestre com base naquilo que se tem observado em abril e maio. 

Tudo isso num cenário no qual boa parte dos clientes habituais do atacarejo estão fechados. Escritórios, pessoas que fazem comida para vender, restaurantes, cafés, nada disso opera normalmente no país. E, ainda assim, as compras de pessoas físicas estão sustentando um crescimento enorme. 

“Estamos em maio. Se houvesse uma ressaca de vendas teria que ter vindo. E não veio. O cenário continua sendo um cenário positivo”, resumiu Roberto Mussnich, diretor-presidente do Atacadão, diante da pergunta de um jornalista sobre a possibilidade de a euforia da última quinzena de março se dissipar no horizonte. 

Fila de clientes em uma unidade do Atacadão, no Jaraguá, bairro da Zona Norte de São Paulo | Foto tirada em 21 de maio

Na teleconferência de apresentação dos resultados do primeiro trimestre, os diretores do Carrefour claramente buscaram adotar um tom de comedimento, começando por apresentar as medidas adotadas contra a pandemia.

Mussnich não foi tão contido quanto os colegas ao expor os resultados. “O que estamos vendo pra frente é um cenário também muito bom. E além de um cenário muito bom, um cenário onde nós, como temos um modelo excepcional, que mantém um equilíbrio muito bom entre custo baixo e preço baixo, estamos sendo entendidos e ganhando novos clientes. Somos uma solução para a pandemia. Não uma solução médica, é claro. Mas uma solução para melhorar a qualidade de vida dessas pessoas.”

Mais do que nada, o Atacadão é uma solução para o Carrefour, que seria uma rede grande, mas não gigante, se dependesse apenas dos super e hipermercados. Já são 190 lojas de atacarejo, mais 30 que foram compradas da Makro e outras 16 em construção.

Enquanto isso, nenhum hipermercado foi aberto nos últimos doze meses – são cem no total. Hipermercado é aquilo que sempre conhecemos como o formato principal dessas redes: unidades grandes, com 30, 40, 50 mil itens, muitos caixas, produtos distribuídos por segmentos claros.

O concorrente Pão de Açúcar fechou cinco hipermercados esse ano e pretende manter a toada. Esse formato de unidades grandes patina há anos. A pandemia deu um novo sopro de esperança, com alguma recuperação das vendas devido à necessidade de as pessoas encontrarem tudo num só lugar. Mas nada que salve a pátria. 

Papai Noel online

A desigualdade entre consumidores pobres e ricos fica exposta quando se olha para o outro lado da moeda. Os consumidores de média e alta renda têm garantido às grandes redes um crescimento explosivo das compras online.

“A gente triplicou o volume de vendas por esse canal. Talvez experiências positivas vieram para ficar. Parte desses consumidores que testaram o e-com pela primeira vez podem permanecer”, disse Silvana Balbo, diretora de Marketing do Carrefour, durante um bate-papo no portal UOL.

Tanto ela como diretores que participaram das conferências de Carrefour e Pão de Açúcar ressaltaram um expressivo ganho de mercado no delivery e em relação a outros formatos de compra.

Em outras palavras, enquanto o armazém da esquina demora semanas para se reestruturar e encontrar um novo caminho, as grandes redes estão sempre em melhores condições de surfar nas crises. Mais ainda diante de um governo federal relutante em oferecer socorro real aos pequenos empresários.

O atacarejo, formato de loja que oferece preços baixos em uma estrutura precária, já representa 67% das vendas totais no Carrefour e 53,8% no Pão de Açúcar.

O Pão de Açúcar abriu dois novos centros de distribuição voltados aos negócios online. Os sites da empresa tiveram 150% mais acessos que no mesmo período do ano passado, segundo o relatório apresentado ao final do primeiro trimestre.

No caso do Carrefour, conta Silvana Balbo, havia uma mudança em curso para criar rapidamente side stores, ou seja, depósitos que aproveitam o espaço das lojas físicas para distribuir compras online com maior rapidez.

“Para ter uma ideia de quanto isso fez a diferença para nós em termos de logística, no auge da pandemia, os concorrentes estavam entregando em até 15 dias, e a gente chegou a no máximo cinco (…) No nosso caso, a gente chegou a esses cinco dias, e agora já está trabalhando com o dia seguinte ou, no máximo, dois dias depois.” A side store representava 25% das vendas no trimestre anterior e, agora, já chega a 36%. 

A pandemia acelerou em alguns anos uma transição que as grandes redes penavam em conseguir fazer. A venda de alimentos pela internet crescia, mas sobre bases relativamente baixas. Por um motivo simples: muitas pessoas querem selecionar o que levarão para casa. Mas, entre a Covid-19 e uma banana bonita, os clientes deixaram de lado essa questão. 

No caso do Carrefour, as entregas de alimentos em casa foram 85% dos pedidos online, contra 61% no trimestre anterior, no qual muitas pessoas optavam por comprar pela internet e retirar na loja. Em um único dia, a empresa registrou 4.269 pedidos, um novo recorde. E o volume bruto de mercadorias cresceu 235% na comparação com o período anterior. 

“O e-commerce vai entrar num novo patamar. Não retorna aos níveis anteriores. Não retorna em absolutamente nada”, resumiu Jorge Faiçal, presidente do braço de varejo do Pão de Açúcar. “Por volta de 50% das vendas são novos consumidores de e-commerce. Especialmente a faixa etária de mais de 60 anos, que a gente fez um atendimento diferenciado e prioritário para essa faixa etária. Especialmente no Pão de Açúcar.” 

O e-commerce alimentar cresceu 82% no trimestre, e em abril vinha “muito acima disso”, nas palavras de Faiçal. A expansão é muito maior no James Delivery, justamente um exemplo emblemático da capacidade das grandes redes em concentrar ainda mais mercado. O James é uma startup criada em Curitiba com foco em entregas para as classes altas que acabou adquirida pelo Pão de Açúcar. 

O tíquete médio, ou seja, o gasto médio dos clientes, cresceu em 130% quando comparado ao mesmo período do ano passado, o que indica a tendência de compras maiores em meio à pandemia. O crescimento no volume bruto de mercadorias foi de 4.200%. Agora, o James já representa 13% das vendas do comércio online alimentar da corporação. Um dos motivos da expansão é a integração não só com Extra e Pão de Açúcar, mas com a Drogasil e o Iguatemi. Enquanto isso, o mercadinho da esquina tem condições de anotar pedidos pelo telefone. Se tanto.