Em tempos de pandemia, uma região conta histórias diferentes e nos ensina a olhar para os benefícios de produzir alimentos limpos, mas, também, para os problemas da agricultura convencional   

Cooperativas de consumo são alternativa para venda de alimentos em comunidades agrícolas. Foto: Juliana Fronckowiak Geitens

As estradas do litoral norte do Rio Grande do Sul são margeadas por bananais. Quilômetros e quilômetros de plantação de bananas. Morros inteiros. Cada região do Brasil possui diferenciais, e, ali, são as bananas. Me refiro às plantações convencionais: alimento e pesticida, alimento e adubo químico. Com a pandemia do coronavírus, é fundamental mostrar as diferentes práticas agrícolas possíveis numa região específica do país, numa busca por estabelecer contato com outras realidades regionais brasileiras. Desde plantações com veneno negociadas com a intervenção de atravessadores até práticas agroflorestais que mobilizam grupos de pequenos agricultores e consumidores, o litoral norte gaúcho é um exemplo para as saídas mais saudáveis e apropriadas em tempos de crise.

Nos cultivos maiores e  com veneno, os ditos “atravessadores” – intermediários entre agricultores e empresários do comércio – compram a matéria-prima do pequeno produtor rural para revender. São rotulados na região por comprar, num trocadilho com as características da região, “a preço de banana”. E venderem a um valor muito mais conveniente a eles. Ficam com todo o lucro da produção. Os agricultores convencionais, na maioria das vezes, não têm opção, se não venderem para o atravessador .

As plantações de alimentos orgânicos não são tão extensas, tão visíveis como as convencionais vistas já das estradas. Elas se escondem em propriedades agroecológicas município adentro. Torres, cidade praiana de aproximadamente 33 mil habitantes, mas que em época de veraneio recebe mais de 20 mil turistas por dia, abriga um núcleo de produção expressivo de agricultura orgânica no Brasil.

O núcleo Litoral Norte Solidário da Rede Ecovida de Agroecologia integra cerca de 350 famílias que vivem de agricultura orgânica, organizadas em 44 grupos, além de duas ONGs e três cooperativas.

Floresta com alimento e respeito  

Bananais da propriedade dos Schardosim, no município de Dom Pedro de Alcântara/RS. Foto: Jefferson De Paula Dias Filho

A propriedade da família Schardosim fica em Dom Pedro de Alcântara, município  batizado assim pela visita do Imperador Dom Pedro I, em 1826. Só para ter uma ideia, o território tem cerca de 2.600 habitantes, 7% da população de Torres. Lá, todo mundo se conhece.

Denise ouviu o barulho do carro e apareceu na porta com um sorriso. Ao seu lado, a filha Raiane, de cinco anos. Típicas descendentes de alemães, as duas têm cabelos muito claros e pele branca avermelhada (mesmo morando no litoral e trabalhando na roça, debaixo de sol, oito horas por dia, seis dias por semana). A propriedade da família compreende 13 hectares, dentre mata e plantação.

“A maioria é mata. O que tem mata é mata, não é pra mexer”, diz Denise, apontando para a extensão de terras que fica num morro, abaixo da propriedade.

A propósito, esse é um dos diferenciais de famílias com pequenas extensões de terra que plantam alimentos orgânicos: não se usa a extensão total do terreno para plantar hortaliças, frutas e verduras. Floresta e alimento se misturam: ao lado do rabanete, se planta tomate; ao lado dos tomates, estão frondosos abacateiros, ou simplesmente árvores nativas da região. Os agricultores plantam no meio da mata e, a partir dessa diversidade, o meio ambiente potencializa o vigor. Isso é o que se chama de agroecologia, agrofloresta, que nada mais é que imitar o que já existe na natureza.

Sidilon Mendes, biólogo da região, expõe a importância de valorizar esse tipo de agricultura: 

“A agrofloresta é a floresta com alimento. Esses são os agricultores que fazem a verdadeira agricultura, aquela que cuida do meio ambiente. Eles tinham que ser mais valorizados, até o rótulo dos produtos deveria ser assim: produto oriundo de agrofloresta, produto oriundo da agricultura ecológica”.

Nas propriedades rurais não existem nomes de ruas. Nem mesmo direita e esquerda. A linguagem botânica é o que impera e quem vem da cidade, por vezes, pode se sentir analfabeto. Denise referenciou a propriedade de um modo peculiar. 

“Se quiser, pode ir ali, sem problema nenhum, na horta. Aquela lá, que tá bem ativa. Tá vendo? Tudo que tem pra cá é meu! Pode ir tranquilo! Onde começa o mato, termina a minha. Quando termina, tem um calipal [plantação de eucalipto] que é nosso e depois é do vizinho, pra cá é meu”. Finalizou com um “Não vai se perder, hem?!”.

Não foi de uma hora para outra que a família comprou aquelas terras. O casal, Denise e Romildo Schardosim, plantou alimentos convencionais durante muito tempo. Os pais de Denise, os Lumertz, cultivavam safras de cana com adubo químico e pesticida para vender cachaça. O resto da plantação era para consumo próprio. Ainda assim, não escapava do veneno.

O mesmo acontecia com os pais de Romildo, que também plantavam cana, criavam animais e produziam para consumo próprio. Essa história se repetiu por gerações: “A gente praticamente nasceu dentro da lavoura, tanto eu, quanto meu marido. Isso é bem antigo”, disse Denise.

Como Denise e Romildo têm ascendência alemã e a família sempre teve terras em Dom Pedro de Alcântara, há uma grande possibilidade de que antepassados tenham pertencido ao grupo dos 421 imigrantes alemães que, em 1826, vieram para a região de Torres em decorrência das guerras e crises na Europa do século 19.

Denise engravidou do primeiro filho, Vitor, quando ainda morava na casa dos pais. Apesar da vontade de ter um lugar próprio para morar, conseguiram comprar a propriedade que estão hoje quando o filho tinha seis meses e a mudança efetivamente ocorreu quando o menino tinha dois anos. Até então, Denise e Romildo moravam na casa dos Lumertz e plantavam alimentos convencionais. Ela conta que o que mais usavam na época era Roundup, um agroquímico “popular” para matar “pestes”, que aparecem na plantação.

A vontade de mudar da agricultura convencional para a orgânica surgiu quando Romildo adoeceu e uma alergia tomou conta do corpo de Vitor. Considerando que o filho nunca teve contato direto com a lavoura quando plantavam convencionais, Denise suspeita que o garoto teve alergia porque ela lavava as roupas do marido em casa.

Em uma propriedade onde o uso de agrotóxicos é comum, torna-se também comum que os pais proíbam as crianças de ir à lavoura colher algo para comer, preocupados com os efeitos dos agrotóxicos sobre a saúde dos filhos. O campo, que deveria ser um ambiente saudável, torna-se ameaçador.

Segundo Luiz Antônio Guerra Bernd, doutor em Microbiologia e Imunologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), é possível que tanto o filho, quanto o marido de Denise, tenham ficado doentes devido à exposição ao produto.

“Existe um efeito tóxico e, se a pessoa que está exposta não tomar cuidado, está sujeita a dezenas de doenças associadas à exposição. São agrotóxicos, produtos com potencial de provocar alterações [no corpo humano]  dependendo do grau de exposição. Se a criança estiver exposta, mesmo que de maneira indireta, evidentemente pode correr riscos como o adulto e, talvez, com maiores consequências por ser um organismo em formação”, explica. 

Cooperação de ponta à ponta 

A transição do cultivo convencional para o orgânico leva, em média, de um a dois anos, considerando o processo de recuperação do solo e a burocracia junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Foi em uma visita à Serra Gaúcha, a convite de um padre da Pastoral da Juventude Rural, que Romildo foi apresentado às lavouras orgânicas e idealizou uma  mudança de vida.

“Foi muita luta, muita luta. No começo foi difícil, no começo, a gente não tinha ponto [de venda] ainda. A gente vendia de casa em casa, a gente se virava nos trinta”, conta Denise.

Venderam durante dois anos para as cooperativas de consumidores da região, a EcoTorres e a Coopet, até surgir a oportunidade de terem o próprio ponto na feira de orgânicos de Porto Alegre. 

Apesar de ter sido fundada em 1999, a EcoTorres migrou para o espaço que está hoje só em 2015. Ali, a organização dos consumidores é peça essencial. Um grupo de pequeno de professores, ambientalistas, e pessoas que procuravam alimentos livres de agrotóxico, se reuniram para pagar mensalmente um valor que fosse suficiente para manter o Ecotorres aberto seis dias na semana. O aluguel da casa, assim como todos os custos de energia, água e os direitos e tributos relacionados aos funcionários eram divididos entre essas pessoas.

O pequeno grupo se transformou em 120 associados, que continuam mantendo a cooperativa e, em contrapartida, compram os produtos quase a preço de custo. Os não sócios pagam uma taxa em cima dos produtos para que os agricultores tenham lucro. No EcoTorres, não existem patrões nem empregados, todos são, ao mesmo tempo, trabalhadores e donos, forte caraterística da economia solidária e das cooperativas. 

Para os agricultores, é uma garantia do escoamento da produção. Aos consumidores, significa ter um ponto fixo para comprar produtos orgânicos e naturais de segunda a sábado, além de funcionar como um ponto de encontro ou estudo.

Nas últimas semanas, quando os agricultores enfrentaram instabilidades com o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) devido à crise do Coronavírus, essas cooperativas se mantiveram abertas e funcionaram para escoar parte da produção dos agricultores do litoral norte.

Contudo as iniciativas são mais amplas. Não há só cooperativas. As redes agroecológicas de Comunidades que Sustentam a Agricultura (CSA) e as feiras orgânicas desempenharam um papel importante para que o sistema de abastecimento continuasse funcionando. A comunidade formada por feirantes e consumidores cria uma rede sólida, inclusive em tempos de crise.

Desde que Raiane nasceu, Denise não consegue ir à feira de Porto Alegre trabalhar, coisa que gosta muito pelo relacionamento que construiu com os clientes.

“Eu sempre ia. Assim, de não faltar nenhuma vez. Só que agora, com criança, não dá, né? E as pessoas toda semana ficam perguntando pro Romildo ‘Ah, como é que tá a Raiane?’, ‘Como é que tá a Denise?’… Aí chega Páscoa. Eles mandam presentinho para ela, ou Natal, também, eles mandam uma lembrancinha. Eles não esquecem da gente! Não sei como é que pode! Tantos anos já e eles não esquecem. É incrível. E vários já vieram aqui em casa… Passear aqui em casa também”, diz.

Dentre muitas outras coisas, a agricultura orgânica resgata uma relação íntima de quem come o alimento com quem o produz, principalmente em cidades do interior. Na feira, o consumidor tem a oportunidade de conversar com o agricultor sobre como é o processo de produção daquele alimento e, por mais que o selo orgânico seja uma garantia de que o produto é livre que agrotóxicos e adubos químicos, a propriedade está sempre de portas abertas para receber as pessoas.

“Tem cliente de quando a gente começou a fazer feira! Eles vêm pra passear mesmo, almoçar com nóis tudo… Não é só para conhecer a propriedade. Muitos vêm pela amizade mesmo”, conta Denise. 

Desde que começaram a plantar orgânicos, há 16 anos, Romildo não ficou mais doente e a alergia também não apareceu mais em Vitor. Um sinal, para o médico Luiz Antônio Guerra Bernd, de que, possivelmente, o que ambos apresentavam era decorrente do uso de agrotóxico.

“Pararam de se expor aquilo e melhoraram, existiu a exclusão [do agrotóxico] e uma melhora clínica, então, é óbvio que aquele contato tinha importância”.

Gênero e juventude 

A Agroindústria Morro Azul fica no município de Três Cachoeiras, litoral norte do Rio Grande do Sul. Foto: Jefferson De Paula Dias Filho

Por definição, o termo agroindústria compreende o local onde a matéria-prima florestal, agrícola ou pecuária é transformada fisicamente, quimicamente ou biologicamente em um composto com valor comercial maior. Por exemplo, se a cana de açúcar fosse vendida em estado natural, o preço seria muito inferior ao açúcar mascavo, que é fruto de processos agroindustriais. As agroindústrias familiares são uma alternativa para que os camponeses aumentem a qualidade de vida e continuem vivendo da agricultura.

Hoje, a agroindústria Morro Azul é famosa por bananas-passa, chips de banana e  açaí Juçara, mas, também, produzem polpas e sucos de frutas, chimias (um tipo de geléia típica do sul do Brasil, cujo diferencial são os pedaços de frutas no doce), molho de tomate e goiabada. Tudo sem veneno.

Inicialmente, a Morro Azul foi viabilizada por um financiamento de 40 mil reais do governo estadual do Rio Grande do Sul para a Associação dos Colonos Ecologistas da Região de Torres, mas, anos depois, a família Becker assumiu totalmente os custos e decisões do negócio, já que as outras duas famílias, sócias da agroindústria, desistiram de tocar a empresa.

Uma parte da matéria prima usada nos produtos industrializados é cultivada na propriedade dos Becker, outra vem de agricultores da região, certificados como produtores orgânicos. Na propriedade eles cultivam banana orgânica, açaí Jussara, figo, tomate, goiaba, além de outras frutas e hortaliças para consumo próprio. O Ministério da Agricultura é quem faz a fiscalização das polpas de fruta e a Vigilância Sanitária Estadual é responsável pelos demais produtos. Existe também o acompanhamento anual por parte do Conselho de Ética da Rede Ecovida e mensal pelos demais  agricultores do núcleo.

Os dois casais, Rosimere e Izaías, junto com a filha mais velha  e o marido, Anelise e Marcelo, dividem a propriedade de 15 hectares. A filha mais nova, Joana, faz enfermagem e também ajuda na agroindústria. Anelise é graduada em educação do campo, pela Universidade de Brasília, e tem um mestrado em desenvolvimento rural, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Dentro da agroindústria, Anelise gerencia todos os detalhes, mas, no Núcleo Litoral Solidário, tem outro papel importante: é defensora e referência para que jovens tenham condições de permanecer na propriedade dos pais e, mais do que isso, aprimorem e “tecnifiquem” a produção. A agroindústria, nesse sentido, é uma maneira de tornar essa possibilidade real. 

“O jovem não quer mais pegar na enxada, mas tem o desejo de seguir com a tradição” diz Cristiano Motter, técnico do Centro Ecológico – ONG que auxilia os agricultores no processo de produção, organização e comercialização. Ele ressalta que um dos trabalhos da Rede Ecovida é com o protagonismo do jovem na agricultura. 

“O mercado de orgânicos está crescendo, o pessoal tá estudando e percebendo que é possível ter uma vida tranquila, economicamente interessante e ter protagonismo nisso dentro da agricultura orgânica”.

Anelise é também uma grande incentivadora do protagonismo feminino dentro das famílias, além da participação e da voz das mulheres dentro dos grupos de agroecologia. Questiona o fato das mulheres sempre se colocarem no papel de quem “só” trabalha na casa, não de quem trabalha igualmente.

“Parece que é assunto já é superado, mas não… Há uma cultura de que mulher cuida das panelas e o homem decide. Ainda existe muito hoje. Ainda tem muito que trabalhar essa questão de gênero, embora seja uma coisa que a gente discute desde o começo, nos grupos”, pondera.

Ela diz que a agricultura convencional estimula competitividade entre os agricultores.

“As empresas estimulam os agricultores a produzirem quantidades significativas, prometendo um preço melhor na compra da safra. Os agricultores não têm contato uns com os outros, porque competem entre si e, no momento da venda, não têm autonomia de preço, já que precisam escoar a produção, mas dependem da compra das mesmas empresas da região por meio de negociação com os atravessadores”, relata.

Nas Redes de Agroecologia, o processo é diferente. Existem reuniões periódicas entre os agricultores para acompanhar uns aos outros e trocar experiências de produção, além de cursos obrigatórios, que alinham os objetivos e as necessidades do grupo.

“Ainda existe muito preconceito hoje. Mas, na verdade, dentro da agricultura ecológica, a gente incentiva muito a participação da família como um todo e, no convencional, tu produz ali e manda pelo atravessado.,Tu acaba não envolvendo a família toda”.

Cristiano Motter diz que, na Rede Ecovida, foi criado o “Grupo de Trabalho de Gênero”, pra discutir o machismo e preconceito dentro das famílias. Mas, segundo ele, existem outras formas de incentivar a discussão.

“Na ANA, que é a Articulação Nacional da Agroecologia, deram vaga para colocar 50% homens e 50% mulheres. No encontro ampliado da Rede Ecovida também, tem a vaga dos homens; a vaga das mulheres; e dos jovens; isso acontece para forçar, justamente, esse envolvimento”, conclui.