Em uma frase em congresso da indústria de bebidas, uma executiva do baixo clero das marcas admitiu um problema que as empresas tentam abafar

Na psicanálise de botequim, costuma-se chamar de “ato falho” o momento em que um indivíduo age de modo ambíguo com um ato que é, ao mesmo tempo, surpreendente e revelador de si. É dessa noção que se convencionou dizer que “Freud explica” situações em que a conduta de alguém foge do script. Parece complicado, mas não é.

Um painel de discussões realizado no congresso de 70 anos da Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e Bebidas Não Alcóolicas (Abir) trouxe um caso que deixaria Sigmund Freud (1856-1939), considerado o pai da psicanálise moderna, para lá de intrigado.

“Eu acho que a gente virou o vilão da história. O Alexandre [Jobim, presidente da Abir] comentou isso. Nós temos um desafio muito grande que é mudar a nossa imagem, porque nós [fabricantes de refrigerantes] somos os causadores (sic) da obesidade.”

Sem tirar nem por, essas foram as palavras que Sandra Gubolino, uma executiva da indústria, usou na última terça-feira (10), para definir os desafios das empresas de bebidas durante um evento da Abir na Anufood, a maior feira de alimentação da América Latina, realizada no São Paulo Expo, na capital paulista, entre 9 e 11 de março.

Ela é gerente de qualidade e desenvolvimento da Bebidas Poty, que fabrica os refrigerantes de mesmo nome, além de sucos em pó, refrescos, energéticos e, também, groselha.

Que essas bebidas fazem mal à saúde não é bem novidade — muito menos, que estejam associadas a uma série de doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), como o diabetes e a hipertensão.

No Brasil, o Ministério da Saúde calcula que 70% das mortes por ano no país decorram de DCNTs. Além disso, o governo federal estima que quase um quinto da população esteja obesa e que mais da metade dela esteja acima do peso.

A Organização Mundial da Saúde recomenda a taxação de bebidas adoçadas como uma ação necessária para frear os índices crescentes de DCNTs e obesidade pelo planeta. Alguns países estudam adotar a medida. O México já o fez recentemente, e por aqui surgiu a ideia do tal “imposto do pecado”, sugerido pelo ministro da Economia Paulo Guedes.

Em geral, a indústria de refrigerantes e bebidas adoçadas tergiversa sobre o assunto. A executiva da Bebidas Poty citou Alexandre Jobim, que, como presidente da Abir, é o principal porta-voz das empresas para dizer que refrigerantes não fazem tanto mal, apesar de evidências científicas mostrarem o contrário.

Ao deixar escapulir que refrigerantes são “causadores (sic) da obesidade”, admitindo uma forte correlação de eventos que as empresas do setor se esforçam em abafar (tal qual é o caso da Coca-Cola, que, como já mostramos, empenha-se mundo afora para isso), Sandra desnudou a contradição entre o que diz a ciência e o que dizem as empresas.

Mas, há anos na indústria, a executiva da Bebidas Poty não só assumiu publicamente um problema que companhias do setor costumam negar: ela trouxe à tona outra questão.

Da esq. à dir., Andrea (Coca-Cola), Felipe (Ambev), Wanessa (FEMSA) e Sandra (Poty) no congresso durante a Anufood (Foto: Divulgação/Abir)

Existe uma divisão quase estamental entre as fabricantes de bebidas no Brasil. Enquanto, de um lado, há uma diarquia formada por Coca-Cola e Ambev, que se beneficiam de generosas isenções fiscais na Zona Franca de Manaus, há, de outro, uma turba de pequenas empresas que concorrem no mesmo mercado sem as mesmas vantagens.

Essa segmentação se traduz na própria Abir, onde, segundo Sandra, Coca-Cola e Ambev desfrutam de privilégios. No mesmo evento durante a Anufood, ela recordou aos presentes que, na sede da associação em Brasília, era comum ser recebido por dois pôsteres das duas grandes empresas, sem que houvesse um aceno semelhante às pequenas.

A executiva do Poty fez um apelo aos concorrentes de negócios e parceiros de congresso para uma atuação mais próxima no setor. Ela insinuou que não se trata de vaidade, embora o que esteja em jogo seja dinheiro, pura e simplesmente. “Precisamos deixar o ego de lado e começar a trabalhar em conjunto”, declarou. A intenção, no entanto, tem ecos.

Sob o lema de “unidos, venceremos”, uma das marcas da gestão Alexandre à frente da Abir é a tentativa de desfazer a divisão entre grandes e pequenos. Como a recomendação de taxar bebidas adoçadas tem ganhado força, o cartola trabalha para unir as corporações contra as tributações e outras medidas regulatórias.

As iniciativas, no entanto, não terminam por aí. Outro dos artifícios de Jobim é o compartilhamento de estratégias empresariais. Durante o mesmo painel na Anufood, Andrea Motta, diretora de sustentabilidade da Coca-Cola, anunciou a formação de um comitê da Abir para discutir ações de responsabilidade ambiental e social em comum.

Em outras palavras, estas iniciativas das empresas também são chamadas de greenwashing, que designa as políticas que empresas mantêm para mitigar os impactos ambientais que produzem — ou, pelo menos, fingir que o fazem.

Greenwashing

Ao lado de Sandra, no mesmo painel do congresso da Abir, o gerente de sustentabilidade da Ambev, Felipe Barolo, anunciou as medidas da empresa sob sua alçada. Palavras dele, talvez extraídas de um livro de autoajuda: “O que a gente está fazendo para fazer um Brasil melhor. O nosso sonho é unir as pessoas por um mundo melhor.”

As iniciativas estão, de acordo com o executivo, em consonância com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas. Mas é bom ter em vista o que está além da página dois. Entre elas, duas chamaram a atenção.

A primeira medida da empresa diz respeito ao que Felipe chamou de “cultura do Guaraná Antártica”, um “orgulho nacional”, segundo afirmou. A 641 km de Manaus está Maués, no Amazonas, onde a empresa estimula os agricultores locais a cultivar mudas da planta que dá nome ao refrigerante.

Boas intenções sobram, mas ninguém viu os números. No relatório de sustentabilidade, a Ambev afirma que apoia dois mil produtores e famílias, sem, contudo, divulgar com quais valores.

Para efeito de comparação: na mesma cidade, a Coca-Cola tem uma ação parecida, que diz beneficiar oito mil famílias com R$ 14,2 milhões anuais. Fazendo uma conta rápida, o dinheiro que esses produtores recebem é inferior a R$ 2 mil reais por ano, ou R$ 147 ao mês, muito menos do que o atual patamar do salário mínimo.

Não termina aí. Outra iniciativa da Ambev é o lançamento no mercado de um novo tipo de embalagem de água mineral, feito em alumínio. Isso mesmo. Uma das maiores e lucrativas empresas do Brasil tem como política de sustentabilidade a criação de um produto de difícil reciclagem e cuja fabricação tem alto impacto ambiental.

A energia elétrica utilizada por uma fábrica de alumínio ao longo de um ano é equivalente a três vezes o utilizado por um município de mais de um milhão de habitantes no mesmo período. Além disso, diferentemente do que crê o senso comum, itens fabricados com o material são de difícil reaproveitamento, como já falamos, ao tratar dos cafés em cápsula.

A reciclagem é um problema para a maioria das empresas do mundo, não importa o tamanho ou o produto. Os executivos do setor reconhecem o problema. Um deles foi Wanessa Scabora, gerente de comunicação e sustentabilidade na Coca-Cola FEMSA, uma das integrantes do sistema de empresas da cadeia produtiva do refrigerante.

“Existe uma capacidade ociosa nas indústrias de reciclagem. Ou seja, tem muito material que não chega às centrais de reciclagem”, afirmou a executiva, durante o evento na Anufood. É da constatação do problema que a FEMSA anunciou que irá criar uma empresa de reciclagem para reaproveitar os seus e outros resíduos.

O trabalho dessa nova companhia, no entanto, terá de ser árduo para dar conta do recado. A Coca-Cola se jacta que 100% de suas embalagens são recicláveis e 20% delas são retornáveis, mas a corporação apenas recicla 12% de tudo o que coloca no mercado. E, por ora, a meta da empresa é tímida, chegar a 20% até o final deste ano.