Na mesma ocasião, diretor de instituto que presta serviços às fabricantes de ultraprocessados considera que lógica do Guia Alimentar é “fanatismo religioso”

A indústria de ultraprocessados e alguns de seus apoiadores repetem incansavelmente algumas ideias. Uma delas é a de que não existem alimentos bons ou ruins, mote sob o qual um Doritos é tão saudável quanto uma banana. Era para ser um debate sobre legislação na indústria de alimentos, mas se transformou em apenas mais uma ocasião na qual se reprisa essa lógica.

“Do mesmo jeito que tem o super size (grandes tamanhos), eu também posso emagrecer no McDonald’s”, afirmou Marcia Terra, diretora da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (Sban). A entidade tem, entre os principais apoiadores, empresas como Coca-Cola, Unilever, Nestlé, Herbalife e Cargill.

O discurso da nutricionista durante o congresso da Anufood Brazil 2020, realizada no Expo São Paulo, na capital paulista, entre os dias 9 e 11 de março, foi pautado mais uma vez pela necessidade de aproximação entre academia, indústria e poder público.

A Anufood é uma das maiores feiras da indústria alimentícia no mundo, segundo os organizadores. Como de praxe, o evento teve uma programação de debates nos quais desfilaram algumas das teses mais recorrentes das fabricantes de ultraprocessados. Também como de praxe, três organizações ligadas a essas empresas dialogaram em torno dessas teses.

Sban, Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) e International Life Sciences Institute (ILSI) são habitues em encontros financiados pelas corporações do setor. O contrário também é verdadeiro: as corporações marcam presença em qualquer evento das três entidades.

Perto do fim da apresentação, Marcia Terra falou sobre o McDonald’s, mas não chegou a desenvolver o raciocínio segundo o qual é possível emagrecer comendo fast-food.

Da esquerda para a direita: Alessandra Bastos Soares (Diretora da Anvisa), Marcia Terra (membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Nutrição e Alimentação), João Dornellas (Presidente da ABIA) e Igor Castro (Diretor da ABIR). Foto: Juliana Fronckowiak Geitens.

“Só com a participação público-privada que a gente vai pra frente”, afirmou. “A gente tá do mesmo lado!” Neste momento, Alessandra Bastos Soares, diretora da Anvisa que compunha a mesa, balançou a cabeça, concordando. “O objetivo de todo mundo é fazer o bem. Sou muito criticada porque trabalho para a indústria e eu sempre explico que a indústria quer o consumidor saudável e vivendo muito – porque consumidor morto ou doente não consome.”

O de sempre

“Eu recomendo que na saída do auditório vocês passem pela feira e vejam que quase tudo que tá exposto e quase tudo que tem no supermercado é ultraprocessado. E o que fala o  Guia Alimentar da População Brasileira, documento oficial do governo brasileiro? ‘Não coma!’ Como nós vamos ficar do ponto de vista nutricional?”, questionou Luis Madi.

Como de costume, a regra de ouro do documento oficial do Ministério da Saúde, publicado em 2014, esteve sob críticas. “Prefira sempre alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias a alimentos ultraprocessados”, diz o guia.

O diretor de Assuntos Internacionais do Ital comparou a classificação NOVA a um “fanatismo religioso”. Essa classificação, cunhada pelo Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP (Nupens), propõe separar os alimentos pelo tipo, pela extensão e pelo propósito do processamento. É a base para o Guia Alimentar e para o Guia Alimentar para Crianças Menores de Dois Anos

Madi citou, durante a palestra, uma afirmação do filósofo americano Alan Levinovitz, conhecido por equiparar seguidores de dietas a fanáticos religiosos: “Se uma pessoa acredita que sua fé faz bem e proporciona uma vida melhor, é positivo convencer os outros a se juntarem a ela. Mas é triste ver o mesmo entusiasmo religioso aplicado à alimentação.”

Embora seja uma estatal paulista, o Ital foi criado a pedido das corporações de ultraprocessados, e tem nelas um importante financiador.

Madi diz ser necessário “tirar o fanatismo religioso do sistema alimentar”, confrontando dados científicos e técnicos com o que chamou de “crença”. Ele ainda afirmou ser necessário um “sistema regulatório mais ágil”. 

Coronavírus na mesa

O vírus, que chegou há pouco no Brasil, foi tema de quase todas as mesas do primeiro dia de congresso. E talvez o motivo de pouca movimentação dos visitantes na feira.

“A gente tá vivendo essa crise agora, essa pandemia do coronavírus e vocês vão ver como a indústria de alimentos é fundamental, é essencial, é primordial neste trânsito (de alimentos)”, afirmou Marcia Terra. A nutricionista disse que, por oferecer alimentos não perecíveis, com longa durabilidade, a indústria de alimentos será a grande responsável por alimentar a população durante o período de crise.

O evento realizado entre 11 e 13 de março, na Expo Imigrantes, em São Paulo, contou com mais de 400 marcas expositoras do mercado de alimentos e bebidas da América do Sul e mesas de discussão que debateram o setor. Na sala de imprensa, pequenas mochilas de cordão, de cores verde e rosa, uma ao lado da outra, embalavam doces, balas, pirulitos e gomas de mascar estampando a logo da Riclan – dona das marcas Go Jelly, My Toffe. Um mimo para os jornalistas presentes.

Como bem escreveu Guilherme Zocchio, alimentar-se, na maior feira da indústria de alimentos no Brasil, foi um desafio. De 2019 para 2020, pouca coisa mudou: os foodtrucks continuavam vendendo hambúrgueres, temakis e fast foods com muita maionese, catupiry, gorduras e sal. Exceto o único restaurante, que, se em 2019 cobrava R$ 50 para comer à vontade, subiu para R$ 72,90 por pessoa em 2020.