Ao ar livre, com alimento adquirido dos produtores, feirantes afirmam que podem evitar o desabastecimento durante a pandemia do novo coronavírus

No Rio de Janeiro e em São Paulo, os dois estados com mais registros de Covid-19 até então, comerciantes de feiras livres se articulam contra a queda no movimento. Vendas diminuíram com o avanço do novo coronavírus, mas os feirantes lembram que são importantes para evitar o desabastecimento e que os locais são mais seguros neste cenário de pandemia.

Nos últimos dias, as recomendações do Ministério da Saúde despertaram não só a cautela necessária para enfrentar a situação. Também desencadearam cenas como supermercados abarrotados, carrinhos cheios de papel higiênico, pessoas com comida ultraprocessada aos montes e espaços públicos vazios. As feiras livres foram atingidas.

No entanto, diferentemente do que podem parecer, elas são, segundo organizadores e comerciantes, os melhores espaços para a compra e venda de alimentos no momento.

“As feiras não foram consideradas locais de transmissão potencial”, afirma Rogério Bastos da Silva, coordenador de feiras livres na Prefeitura do Rio de Janeiro. “Isso porque, são locais abertos, onde é possível manter certa distância das outras pessoas. Além disso, os feirantes estão tomando medidas como usar luvas e ter álcool em gel nas barracas.”

Na capital paulista, o prefeito Bruno Covas (PSDB) decretou nesta quarta-feira (18) a suspensão temporária do funcionamento de estabelecimentos comerciais, mas manteve a realização das feiras livres, além da abertura de supermercados, lanchonetes e postos de gasolina, desde que as ações de limpeza fossem intensificadas.

Muitos feirantes da cidade e da região metropolitana de São Paulo, no entanto, anteciparam-se ao decreto. Sérgio Kamiya, presidente da Associação dos Feirantes de Osasco e Região, disse a O Joio e O Trigo que todos comerciantes locais terão álcool em gel e estão recebendo mais informações sobre higiene.

“Vamos colocar nas feiras um material encadernado mostrando que a feira é um local seguro porque o ar não está confinado, não tem ar condicionado, por exemplo”, complementou.

Entre estudos científicos, existe a hipótese de que alimentos podem servir como superfície de contágio pelo novo coronavírus, apesar de não haver evidências. Órgãos de saúde, como o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA, recomendam evitar que a comida entre em contato com uma pessoa doente ou superfície contaminada.

O melhor, portanto, é que o menor número possível de mãos manipule, transporte ou encoste, de um modo geral, em alimentos.

Além disso, sabe-se que o coronavírus permanece mais tempo vivo em superfícies que normalmente são usadas para embalar itens processados ou ultraprocessados.

Um artigo publicado nesta terça-feira (17) no New England Journal of Medicine diz que o coronavírus permanece “vivo” por até 24 horas em papelão e de dois a três dias em plásticos, materiais comumente usados para embalagens de comida.

A ciência, portanto, tem algo a dizer em defesa das feiras livres. “Como muitos dos feirantes são também produtores e vêm de suas próprias chácaras, o risco de contaminação é menor. Os alimentos passam por menos mãos”, diz Rogério, da prefeitura do Rio.

“As pessoas deveriam comprar os alimentos nas feiras com certeza absoluta. Os produtos são sempre muito frescos e saudáveis. A feira se encontra em um ambiente de ar livre muito mais propício e aconselhável para os clientes hoje se locomoverem com mais segurança”, acrescenta Marco Luís Rocha Salazar, 33, feirante carioca.

Proximidade é mais segura

A situação dos comerciantes, além disso, toca em uma questão importante para a segurança alimentar e nutricional. Mercadorias trazidas para as feiras livres das cidades brasileiras costumam vir diretamente de unidades rurais próximas dos locais de venda — quando não, foram adquiridas ainda frescas das unidades de abastecimento locais.

Este tipo de relação entre produtor, comerciante e consumidor é chamada de circuito curto alimentar, ou seja, define quando a comida é produzida nas cercanias de onde é vendida.

De acordo com os melhores estudos científicos sobre o tema, circuitos curtos servem para garantir a segurança alimentar e nutricional de uma população e ganham relevância em cenários de exceção e de crise social. São sumariamente importantes em momentos de insurreição, guerras e, vejam só, pandemias.

Pode parecer distante. Mas, na Bélgica, assim que os casos de Covid-19 começaram a escalar, uma das primeiras medidas adotadas por um governo local, da região de Liège, foi manter a autorização para funcionamento de feiras e mercados públicos de produtos hortícolas.

No Brasil, a realização das feiras livres fica a cargo das prefeituras municipais, com alguma orientação por parte dos governos estaduais.

Em um levantamento do Joio com as principais cidades das 15 mesorregiões do estado de São Paulo, a maior parte das orientações das prefeituras de combate à pandemia do novo coronavírus inclui a manutenção da realização das feiras livres, até o que havia sido divulgado nesta quinta-feira (19). Mas não significa que não houve derrapadas.

Na região de Bragança Paulista, prefeituras determinaram a suspensão das feiras livres para evitar aglomerações, alegando orientação do governo do estado — que, procurado por esta reportagem, negou ter repassado este tipo de recomendação. Mas, depois de protestos dos comerciantes e de habitantes, as gestões municipais voltaram atrás, autorizando as feiras, desde que cumpridas medidas de higiene, como oferecer álcool em gel.

No Rio de Janeiro, nas cidades do interior a situação é parecida. Em Teresópolis, a 75 km da capital, os comerciantes estão negociando com a prefeitura a autorização para reabrir feiras orgânicas e convencionais após a realização delas ter sido suspensa.

Com o terceiro maior número de casos de Covid-19 registrados, o Distrito Federal adotou uma política de tolerância zero. O governo local suspendeu a realização de uma série de eventos e, também, a das feiras livres, após decreto publicado na manhã desta quinta no Diário Oficial.

Até aqui, o que os governos estaduais têm dito está afinado com o que pede o Ministério da Saúde: manter ambientes ventilados e evitar aglomerações.

Assim que a crise relacionada à Covid-19 disparou, o governador João Doria se reuniu com a Associação Paulista de Supermercados (Apas) e a Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia), além de entidades ligadas a empresas de itens de farmácias, limpeza e higiene. Um encontro que teve caráter “preliminar”, segundo alguns dos presentes.

Pouco tempo depois, Doria se apressou em afirmar que não haverá desabastecimento no estado. No entanto, fez a declaração sem ouvir os feirantes e produtores rurais de São Paulo. Faltou reconhecer a contribuição das feiras livres.

* Texto atualizado às 15h42 desta quinta-feira (19) para inclusão de informações sobre o 
Distrito Federal e as prefeituras de região de Bragança Paulista.