Animações do Studio Ghibli fazem da cultura alimentar elemento central para propor narrativas a crianças e adultos

Família de mudança, chegando à nova cidade. A garotinha de 10 anos alerta os pais: falta de respeito aos costumes de uma região ainda desconhecida não é boa ideia. Os adultos não lhe dão ouvidos. Já abalada pelas alterações na rotina de pré-adolescente, ela vê o medo aumentar com a falta de freios do casal, que avança sobre os alimentos expostos num grande balcão.

A menina observa que não há atendentes. “Pai, não tem ninguém aí, mas essa comida deve ser de alguém”, avisa. A comida é bonita e cheirosa. Fumegante. Tem de tudo. De vegetais a carnes, a exuberância é plena. Faminto, o pai responde, exibindo a carteira recheada: “Não tem problema, temos dinheiro, cartões, podemos pagar por tudo.”

Para a garota, porém, a questão é outra, imaterial. A intuição lhe aponta uma quebra de regras. Ela está certa. A tragédia acontece. Os pais são condenados.

Assim começa a jornada da pequena Chihiro em A Viagem de Chihiro – ou Spirited Away (2001), como foi promovido internacionalmente – um dos filmes animados do Studio Ghibli, projeto liderado pelo criador japonês Hayao Miyazaki.

Com uma estética que utiliza espaço e tempo de forma muito diferente dos desenhos mais tradicionais vistos no ocidente, Miyazaki é mestre em imergir o espectador em obras multissensoriais, inclusive sem nenhum receio de apelar ao silêncio em muitos momentos, ao mesmo tempo em que possibilita contemplar paisagens incríveis.

Junto disso, desde os anos 1970, ele propõe narrativas sobre amadurecimento, corrupção, honra e força de caráter. E a comida de verdade, sempre presente, atravessa todos esses aspectos nos filmes.  

Por exemplo, há toda uma construção política por trás do “castigo” destinado ao casal (não, não vou revelar o tipo de condenação que os pais sofreram pra evitar spoilers, mas posso dizer que uma cultura alimentar regional violentada é o que faz a história se mover), numa referência ao momento econômico do Japão nos anos 1980, ressaltando as armadilhas da ganância, dos excessos e do consumismo, que levaram a uma grave crise no país.   

Chihiro tenta avisar: dinheiro é insuficiente para “atacar” uma cultura alimentar – Studio Ghibli

Interessante que os filmes de Ghibli caminhem num sentido tão comum ao da cultura alimentar japonesa. A Washoku (culinária japonesa), protegida pela Unesco como patrimônio de valor inestimável, está entrelaçada com práticas e tradições sociais do país, desempenhando um importante papel no folclore local, que conta, entre outras coisas, que a lua é um coelho segurando bolinhos de arroz.

Os filmes de Miyazaki mesclam doses desse realismo fantástico com a cultura de várias partes da ilha. A comida é vista como expressão de identidade, união e ato político.

Para permanecer no mundo fantástico de A Viagem de Chihiro, a jovem personagem é avisada de que deve escolher entre se alimentar de um item específico ou desaparecer literal e eternamente: a comida é a âncora que a mantém ali. Não só o corpo, mas, também, o espírito. O alimento atua como um elemento de conexão com a realidade à qual a menina pertence naquele momento. A inclusão na cultura alimentar local é o primeiro laço da nova inserção social.

Alguns dos momentos mais emocionantes do filme são proporcionados pela comida. Um grande passo de Chihiro na busca pelos pais se dá quando ela faz amizade com outra garota. E é um pão de feijão vermelho cozido no vapor que se encarrega de ser o criador de vínculos entre as duas jovens, algo fundamental à protagonista, que se sente insegura e solitária em uma nova e estranha dimensão.

Em outra obra, Meu amigo Totoro (My Neyghbor Totoro, 1988), quando as duas irmãs que conduzem a trama encontram pela primeira vez a criatura fantástica que habita a vizinhança, lhes são oferecidas nozes e sementes, que, depois de plantadas, brotam em uma árvore poderosa, numa metáfora para o nascimento e o crescimento de uma amizade. 

Além disso, a comida é apresentada como a oportunidade de as meninas se conectarem com a mãe hospitalizada. Uma delas chega a esculpir a imagem da progenitora no milho doce que saboreia.

Em “Meu Amigo Totoro”, a preparação de bentôs, uma marmita japonesa, equilibrada nutritivamente e também nas cores – Studio Ghibli

A riqueza de interpretações das relações humanas com a comida na produção do Studio Ghibli não cessa aí. Em O Castelo Animado (Howl’s Moving Castle, 2004), uma jovem se transforma numa mulher de 90 anos quando se depara com a Bruxa dos Desperdícios. Perdida e infeliz, ela come uma refeição minguada e triste, que é um reflexo de sua vida enquanto busca a cura. 

Na refeição seguinte, já quando encontra o castelo animado, a personagem consegue ovos e outros ingredientes para os moradores do lugar. O esforço não é em vão e um dos habitantes antigos lhe explica que ali ​​só são possíveis refeições saudáveis quando mais gente se reúne à mesa. Assim que outras pessoas passam a morar no castelo, a comida se torna mais elaborada e rica em diversidade.  

O amor por produtos frescos é outro recurso narrativo enraizado na “cozinha” das animações do Ghibli. São muitas as opções nos mercados. Em o Serviço de entrega da Kiki (Kiki’s Delivery Service, 1989), as cenas de compras são repletas de cores e variedade.

Também nesse filme, o afeto relacionado à comida é um destaque, culminando na cena em que uma avó presenteia a neta com uma torta de abóbora recheada de arenque, carinhosa e tradicional receita familiar. O mimo não é bem recebido e se revela um dos gatilhos que desperta em Kiki, responsável pela entrega, uma crise emocional e física, no momento mais tocante da história.

O pão de abóbora com arenque, receita familiar que Kiki ajuda a preparar e que lhe desperta afetos diversos – Studio Ghibli

Mas o alimento também é usado na obra de Miyazaki como fonte de conforto em tempos difíceis. Em Ponyo (2008), as dores emocionais de uma deusa do mar que quer se transformar em humana são aliviadas com um ensopado, o ramen. Mais tarde, ela e a família escapam de uma enchente e, mesmo sem eletricidade, conseguem fazer um macarrão com presunto e ovos para trazer algum conforto aos corpos exaustos e encharcados.

E até conflitos entre personagens de mundos em oposição são resolvidos via alimentação. Em Princesa Mononoke (Princess Mononoke,1997), a comida ajuda a quebrar a barreira que San – uma jovem criada por lobos – tem com a sociedade humana. Depois que um personagem criado nos moldes de uma civilização tradicional é baleado ao tentar salvá-la, permanecendo debilitado e quase sem movimentos na floresta, a moça, em um momento de compaixão, mastiga a comida para alimentá-lo.

Para quem quiser conferir animações do Studio Ghibli, a Netflix acaba de incluir vários filmes no catálogo. Desde os mais antigos até os mais recentes, incluindo vários não citados aqui. Mas, olha, a data de criação não importa em nada na obra de Hayao Miyazaki. As animações dos anos 1980 ou as desta década são igualmente atuais, seja nas temáticas desenvolvidas, nas escolhas narrativas ou na estética.  

Praqueles que tiverem a curiosidade de saber o quanto a culinária da fantasia de Miayzaki e companhia influencia na vida real, existe uma profusão de blogs oferecendo receitas que as transportam para o nosso mundo.

Do salmão em molho bechamel que aparece no Porco Rosso (1992), para o nimono de Castelo Animado, e o okayu (mingau de arroz) da Princesa Mononoke, as receitas pipocam nos reinos da internet. Aliás, os rangos mostrados nas animações são tão inspiradores que até exposição em museu viraram.       

E, se eu puder dar um toque, não se preocupe se as “crianças de hoje” vão se interessar por filmes aparentemente lentos e com temáticas tão profundas. As animações do Ghibli envolvem todas as idades porque as histórias são mágicas (no melhor sentido da palavra) e adaptadas ao ritmo de forma competente.

Fora isso, os temas propostos são desenvolvidos em múltiplas camadas, o que permite que tanto a molecada como os adultos apreciem o desenrolar das tramas, com a captação de níveis de diferentes e surpreendentes mensagens.

Sinceramente, num cenário em que mesmo animações progressistas como Steven Universe e a nova versão de She-Ra e as Princesas do Poder, que brindam quem assiste com um festival corajoso de diversidade étnica e de orientação sexual, a comida de verdade não é ainda uma preocupação – ao contrário.

Diante da mais conhecida animação brasileira, a da Turma da Mônica, de Maurício de Souza, em que uma das principais personagens come em demasia o que vê pela frente (não me venham com a desculpa da melancia) e os protagonistas vivem estampando embalagens de produtos ultraprocessados, ver a obra de Miyazaki é como encontrar um oásis cheio de comida de verdade num deserto de corantes e açúcar refinado.