Na mesa, político repete a estratégia de acenar ao eleitorado fiel. E deixa o Brasil cada vez menor

Era surreal. Ou eram os últimos momentos de uma era em que ainda se podia nomear o surreal. Aquela cena, transmitida na maior emissora de televisão do país na véspera do segundo turno das eleições de 2018, cobrou um caráter simbólico: o pão com leite condensado marcou o início oficial do período em que o popular foi engolido pelo tosco.

O que fazer com aquilo? Qual o interesse jornalístico de uma cena tão comezinha? Será que somos nós, obcecados por alimentação, que demos a essa cena um peso maior do que realmente tem?

Demoramos a digerir. Não terminamos de digerir. Como de todo não temos capacidade de digerir um governo calcado em violência, homofobia, machismo e racismo. E não, não vemos problema em externar posição.

No mês seguinte ao pão com leite condensado, o já eleito Jair Bolsonaro recebeu o conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, John Bolton, numa mesa de café da manhã para lá de bagunçada. Intencionalmente bagunçada, agora suspeitamos, diante de um governo com tantas bagunças premeditadas. O cacho de banana era acompanhado de sucos de caixinha, leite, um saco de pão. Por que um presidente da República se alimentava daquele jeito numa recepção diplomática? Estava claro que a mesa fazia parte do esforço de fabricação do Mito. Não passou batida a informação de que o brasileiro havia prestado continência a Bolton, num de N gestos de subordinação.

Acostumados a olhar para a dieta propositalmente tóxica de Donald Trump, não nos surpreendemos que isso acontecesse. Mas, como em todo o resto, Bolsonaro é a mimese sofrível, triste, do presidente dos Estados Unidos.

Trump tem lá seus motivos para encampar o American Way of Life. Corporações como Coca-Cola e McDonald’s foram sócias do Estado na empreitada para se transformar em um império e também para globalizar hábitos de consumismo e a homogeneização do paladar. Na busca por minar culturas locais e impor uma única narrativa – uma única verdade – sobre todo centímetro quadrado do planeta.

Já Bolsonaro não consegue escapar ao papel de aliado subalterno e burlesco dessa iniciativa. É emblemático que ele tenha escolhido o pão com leite condensado para tentar transmitir a ideia de que é um líder popular: são dois itens do Norte, dos colonizadores, sendo convertidos e introjetados na cultura do colonizado, que se sente feliz nessa função. Que se sente aceito, mesmo sem ganhar sequer um tapinha do colonizador nas costas como recompensa.

Aliás, como em todos os outros gestos de subordinação, Bolsonaro nada ganha. Pelo contrário, faz o país perder, ao transmitir simbolicamente a ideia de que uma dieta à base de porcarias é o que há de modernidade. Não foram poucas as vezes em que ele se fez ver e fotografar comendo. Isso num país em que 55% da população apresenta sobrepeso e no qual doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, avançam e oneram o Sistema Único de Saúde (SUS).

Se quisesse ser popular, Bolsonaro poderia escolher o arroz com feijão. A mandioca. Uma penca de frutas e legumes. Qualquer coisa que pudesse ser minimamente chamada de “cultura alimentar”. Não quer dizer que Bolsonaro não seja popular: é inegável que ele é. Que ele atende a algum mal-estar, a algum grito que as pessoas querem fazer ouvir. Mas existe uma clara confusão entre popular e tosco.

Uma confusão que não é à toa. A popularidade de Bolsonaro vem da tosqueira. Todo líder, para ser popular, precisa ser visto como um semelhante: como um dos nossos. Foi isso que fez Bolsonaro “mitar”, porque, mesmo tendo uma trajetória pífia como político, conseguiu estabelecer pontes com as pessoas, ser enxergado como “mais um”. Mas, como bem definiu a jornalista Eliane Brum, não o melhor entre os nossos, mas o mais medíocre entre os medíocres.

Uma pessoa capaz de criar um problema diplomático em troca de uma lacração de rede social. De dispensar um banquete do imperador japonês para poder postar uma foto comendo Miojo. O encontro entre uma sofrível imitação de comida e uma sofrível imitação de Trump.

De novo, nada é por acaso. Na mesa, Bolsonaro repete a estratégia de ofender a maioria em troca de dialogar com os seus. Você deve conhecer alguém que troca a curiosidade de conhecer uma culinária de outro país pela “segurança” do sabor homogeneizado de um McDonald’s, uma Ruffles, um Miojo. Talvez você mesmo tenha se valido dessa estratégia em algum momento de aperto. E tudo bem.

Mas, da maneira como Bolsonaro realiza essa operação, ele está de novo acenando a seu fiel escudeiro. Ao homem, branco, heterossexual, de meia-idade, de renda média, que conta com orgulho da peripécia de haver trocado a massa fresca de Roma ou de Buenos Aires por um Cup Noodles. Um Hot Pocket. Um Miojo. Até mesmo na mesa Bolsonaro consegue deixar o Brasil menor. E mais tosco.