Um estudo publicado na revista Nature revelou que os jovens tendem a fazer escolhas alimentares melhores quando sabem a verdade por trás das propagandas de alimentos ultraprocessados

Desatento em frente à televisão, enquanto faz uma baldeação no transporte público ou desliza os dedos pela interface de uma rede social, você será pego pela publicidade da indústria de alimentos. Não tem escapatória. A enxurrada de peças publicitárias ofusca a realidade e confunde a todos, mas são crianças e adolescentes os que mais sofrem com a superexposição à propaganda de comida-porcaria.

Afinal, de todas as fases do desenvolvimento humano, a adolescência é a mais fértil e intensa. É um momento da vida em que a serenidade na tomada de decisões e o cuidado com a saúde estão nas últimas posições de uma longa lista de prioridades. Entre uma recompensa imediata e uma de longo prazo, o adolescente vai escolher a primeira na grande maioria dos casos.

Na hora de escolher as refeições, portanto, é compreensível que os alimentos ultraprocessados, compostos por altas doses de gordura, açúcar e sal, estejam entre os preferidos dos mais jovens. Os impactos negativos à saúde muitas vezes são menos relevantes do que o sabor intenso e viciante da comida-porcaria. Ainda mais quando uma propaganda ousada e enganosa está à espreita no próximo storie.

Mas, além de ser a fase do “pra já”, das recompensas imediatas, a adolescência é o momento em que os valores pessoais se fortalecem, as opiniões ganham corpo e as injustiças se tornam ainda mais imperdoáveis. E esse código moral pulsante pode ser o melhor caminho para incentivar os adolescentes a fazer escolhas alimentares mais saudáveis. Pelo menos é o que indica um estudo feito pela Universidade de Chicago e publicado no ano passado na revista Nature Human Behavior.

Chega de mentiras

A pesquisa comprovou que os adolescentes expostos aos métodos desleais usados nas propagandas da indústria de alimentos não só fazem escolhas alimentares melhores como também deixam de se identificar positivamente com os alimentos ultraprocessados. De acordo com os pesquisadores, a postura dos jovens busca reafirmar a autonomia frente ao controle dos adultos e assumir uma posição simbólica contra a injustiça praticada pelo marketing da indústria.

A pesquisa foi feita com 362 jovens de uma escola do Texas, nos Estados Unidos. Os alunos foram divididos em dois grupos e participaram de intervenções distintas durante dois dias. O primeiro grupo, de controle, recebeu informações sobre alimentação saudável disponíveis no site do governo dos Estados Unidos; o segundo recebeu informações sobre os métodos de marketing da indústria e suas consequências na justiça social. 

Veja alguns exemplos do conteúdo apresentado aos alunos durante as atividades:

Dois resultados chamaram a atenção dos pesquisadores. Em testes de afinidade aplicados durante os três meses posteriores às atividades, os alunos do grupo de intervenção mostraram ter relações afetivas consideravelmente mais fracas com os alimentos ultraprocessados — como Doritos e Coca-Cola — e maiores com alimentos in natura, em comparação com o grupo de controle.

O outro resultado marcante foi observado majoritariamente entre os meninos. Os pesquisadores tiveram acesso aos dados das compras feitas por cada um dos alunos na lanchonete da escola. Os garotos do grupo de intervenção reduziram as compras de snacks não saudáveis em 31% e melhoraram em 35% a qualidade geral dos lanches comprados em comparação aos os do grupo de controle.

Em entrevista ao jornal The Washington Post, o principal autor do estudo, Christopher J. Bryan, afirmou que a hipocrisia da indústria de alimentos é o que motiva os jovens a mudar seus hábitos. “Os adolescentes têm uma preocupação maior por justiça”, justifica. “Eles se vêem como agentes que podem fazer a diferença e querem fazer do mundo um lugar melhor.”

No final do segundo dia de atividades, os alunos do grupo de intervenção foram incentivados a grafitar pôsteres de publicidades da indústria de alimentos para deixá-los mais próximos da realidade. 

Alguns dos pôsteres grafitados pelos alunos. À esquerda, lê-se “O que você quer quando pede uma salada, deveria ser uma salada“; à direita, “Na verdade eu não gosto disso“, “Marketing” e “Ele está fazendo isso por dinheiro” | Foto: Bryan et al

No artigo, Bryan e seus colegas concluem que a incompatibilidade entre os métodos de marketing da indústria de alimentos e os valores dos jovens podem ser usados “como uma solução escalável e de baixo custo para produzir mudanças duradouras e internalizadas nas atitudes e escolhas alimentares dos adolescentes”.

Na prática

Influenciada pelo artigo, a ONG britânica Bite Back 2030 produziu um vídeo que ganhou destaque nas redes sociais. A ideia era mostrar como a publicidade pode manipular os hábitos de consumo dos jovens e convencê-los a comprar alimentos não saudáveis.

No vídeo, oito jovens são convidados para participar de um experimento social em um restaurante. Sem saber, são induzidos a pedir um prato específico do cardápio por meio de uma intensa campanha publicitária: posts em redes sociais, propagandas de rádio, cartazes e outdoors. Já no restaurante, depois de fazerem o pedido, são instruídos a abrir um envelope com uma previsão do prato que escolheriam: o triple dipped chicken, ou “frango frito três vezes”, em tradução livre. Todos eles pediram o prato.

As reações são diversas, mas todos afirmam que não lembravam do prato específico nem das propagandas que, em algum momento, cruzaram seus caminhos. “Não há nada que você possa fazer a respeito, porque você nem percebe o que está acontecendo”, explica um dos jovens. “Eu acho que esse método de marketing da indústria de alimentos é errado”, aponta outra participante.