Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos ressalta que até essa idade não se deve consumir açúcar nem ultraprocessados

O Ministério da Saúde acaba de publicar o Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos. O documento define as diretrizes oficiais do país no que diz respeito a amamentação e introdução alimentar.

“O Estado-babá não tem o direito de dizer o que devo fazer!” Bah, se você é o sabichão, que tá ligado em tudo que é necessário para fazer a introdução alimentar de uma criança, quem é o Ministério da Saúde pra te dizer, não é mesmo?

Agora, se você tem realmente dúvidas aos montes, como é normal numa fase marcada por novidades, então o documento é muito útil. Alinhado ao Guia Alimentar para a População Brasileira, de 2014, a nova versão do Guia para os pequenos é enfática na orientação-chave: crianças de menos de dois anos não devem consumir ultraprocessados.

Biscoitos e bolachas, sucos artificiais, refrigerantes, salgadinhos de pacote, macarrão instantâneo, guloseimas: risca da lista.

Tudo o que é açúcar também deve ficar de fora. Não há necessidade de adoçar frutas. Isso pode inclusive afetar o paladar da criança e a percepção sobre o sabor real dos alimentos.

“Não oferecer açúcar nem preparações ou produtos que contenham açúcar à criança até 2 anos de idade. O consumo de açúcar não é necessário e causa danos à saúde como cáries, obesidade ainda na infância e, na vida adulta, pode levar a doenças crônicas, como diabetes.”

Nem um melzinho?

“Apesar de o mel ser um produto natural, não é recomendado oferecer esse alimento à criança menor de 2 anos. São dois os motivos: o mel contém os mesmos componentes do açúcar, o que já justifica evitá-lo. Além disso, há risco de contaminação por uma bactéria associada ao botulismo. A criança menor de 1 ano é menos resistente a essa bactéria, podendo desenvolver essa grave doença, que causa sintomas gastrintestinais e neurológicos.”

Antes dos seis meses, o único alimento necessário é o leite materno. Nem fórmulas, nem leite de vaca, nem água, muito menos suquinho.

Aliás, os suquinhos, tão comuns como sugestão de vovós e pediatras, são desnecessários, inclusive depois dos seis meses.

“Ah, mas ele tá aguado. Olha lá. Dá pra ele.”

Mais um motivo para você mudar hábitos alimentares: se o que você está comendo é tão ruim que não deve ser dado a uma criança, então, você também poderia evitar.

Aos seis, a introdução alimentar deve se dar de forma suave. E nisso o Guia também se assemelha ao de 2014 e vai até além na hora de incorporar elementos que transbordam a alimentação em si. O documento aborda os direitos das mães, o assédio da publicidade direcionada a crianças, a necessidade de uma distribuição justa de tarefas dentro da família e a importância da rede de apoio.

“Quem conduziu o processo de elaboração do Guia tinha muito introjetada a alimentação como prática social. Isso tem uma consequência radical em como abordar o assunto. Nos princípios, a gente tentou dar esse norte, de como a gente está olhando esse mundo. A gente queria empoderar a família, empoderar a mulher”, diz Inês Rugani, professora do Instituto de Nutrição da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e uma das coordenadoras do trabalho desenvolvido entre 2015 e 2019.

Nesse sentido, o novo Guia dialoga com várias tretas que surgem quando uma criança começa a se alimentar. Na ansiedade, mães, pais, avós, cuidadoras fazem besteira de monte. Muitas vezes, na melhor das intenções.

O que você não deve fazer, segundo o documento:

  • dar alimentos em resposta a qualquer choro;
  • apressar ou pressionar a criança para comer por meio de ameaças, chantagens e/ou punições;
  • não distrair a criança com TV, celular ou outros equipamentos eletrônicos. Isso deve ser evitado, pois faz com que ela não preste atenção aos alimentos e coma além do necessário;
  • oferecer quantidades excessivas de alimentos ou forçar a comer toda a comida do prato.

Aos seis meses, a sugestão é dar a mesma comida da família, caso a família se alimente direitinho, sem consumir ultraprocessados. O que muda é a consistência: o alimento deve ser pastoso – mas não líquido. Nada de sopinhas, papinhas, mingaus.

“Existem no mercado diferentes papinhas de frutas ou de legumes, verduras, carnes, cereais e de feijão industrializadas que são preparadas para crianças com idade entre 6 meses e 2 anos. Apesar de as marcas mais vendidas não apresentarem aditivos na composição, elas não devem fazer parte da alimentação das crianças por vários motivos:

1 – Suas texturas não favorecem o desenvolvimento da mastigação, mesmo havendo diferença de consistência para as diversas idades;

2 – São compostas por diferentes alimentos misturados no mesmo potinho, o que dificulta a percepção dos diferentes sabores;

3 – Não favorecem a criança a se acostumar com o tempero da comida da família e com os alimentos da sua região;

4 – As vitaminas e minerais dos alimentos in natura são mais bem aproveitadas pelo organismo do que as vitaminas e minerais adicionados nessas papinhas.”

Ou seja, o Guia nos leva de novo à conclusão de que cozinhar é a melhor pedida. A chegada da criança é a chance de todo mundo deixar de lado os ultraprocessados e fazer dos alimentos de verdade a base da alimentação.

“Foi muito importante entender a culinária como lugar central para praticar o Guia”, resume Inês Rugani. “Isso nos inspirou muito desde o começo do processo. A gente caminhou para o conceito de autonomia culinária. Não é só encorajar, mas descomplicar. Normalmente a abordagem sobre culinária é muito superficial. Dedicamos um capítulo inteiro à culinária.”