Acostumada a cooptar discursos sobre alimentação saudável, indústria parte para cima das plantas alimentícias não convencionais

Peixinho, capuchina, serralha, jambu, camapu, mangostão, monguba. As plantas alimentícias não convencionais (ou não coloniais) recuperaram espaço e prestígio na mesa de muitos brasileiros nos últimos anos. Tanta atenção não poderia passar batido por quem tudo vê: a indústria.

Aquilo que sempre foi acessível a todos e onipresente na nossa cultura alimentar está na mira da gourmetização e da apropriação para uso em produtos nada saudáveis – ou pretensamente saudáveis.

Não que seja uma novidade: apropriação é a alma do negócio. Questões LGBT, desigualdade de gênero, comer em família, orgânicos. De tudo já passou por esse processo. O curioso, no caso das Panc, é que são exatamente um símbolo de resistência ao ambiente e ao tempo. São aquilo que sempre cresceu espontaneamente nas matas, nos quintais, nas chácaras.

Em agosto, durante um evento promovido pela indústria de alimentos, as Panc estiveram sob os holofotes. Ganharam a mesa de encerramento dos debates realizados durante a Food Ingredients South America, na zona sul de São Paulo. Nesse caso, com foco na promoção de alimentos funcionais, ou seja, em produtos que prometem entregar algum benefício ao consumidor em termos de saúde.

Thais de Souza, pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP), trabalha com Panc há sete anos. Ela começou o papo com uma explicação bastante didática sobre as plantas.

Admitiu que não se tem comprovação específica de benefícios associados a elas. Mas sabe-se que estão carregadas de nutrientes benéficos para o organismo humano – motivo pelo qual foram selecionadas, ao longo de séculos e milênios, por nossos antepassados.

Thaís apresentou como case o açaí, nativo da região Norte e que nas últimas décadas se espalhou pelo país, embora distante das formas tradicionais de consumo. Sorvetes, iogurtes, barras de cereal, sucos, suplementos alimentares e cosméticos são algumas das formas mais conhecidas do açaí nas grandes cidades de Sul e Sudeste.

Como produto, o açaí, vingou a ponto de ser item de exportação,mas o conceito de localidade caiu por terra – Foto: Ascom Emater

E, hoje, as formas principais de consumo têm o fruto apenas como um dos elementos, em geral somado a açúcar e aditivos.

Preocupações que não estão no radar da indústria. De acordo com dados divulgados em outro evento, o Well Food Ingredients, realizado em abril, o mercado de alimentos e bebidas tidos como saudáveis movimenta cerca de 700 bilhões de dólares na América do Sul. A fatia que corresponde aos produtos funcionais e fortificados soma 261 milhões.

Segundo a agência Euromonitor Internacional, responsável pelos dados, esse mercado deve crescer 4,4% até 2021, podendo chegar a um trilhão de dólares. Houve crescimento de 11% nos produtos alimentícios à base de vegetais entre 2017 e 2018 e, até 2021, prevê-se o aumento de 4,41% ao ano.

No Brasil, de acordo com estimativa da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia), ano passado as vendas de industrializados que “valorizam atributos de saúde e bem-estar” alcançaram R$ 70,3 bilhões. O leque é amplo e vai desde os “sem glúten” e “sem lactose” até fortificados, enriquecidos e reduzidos em calorias, sal e açúcar. O valor é referente a 10,7% do faturamento total do setor. Nos últimos cinco anos, as vendas de alimentos desses segmentos cresceram, em média, 3,1% ao ano.

O uso (até) das Panc em compostos funcionais

Thais associou as Pancs a um “sabor exótico”. E indicou como exemplos tucupi preto, refrigerante de hibisco, geleia de uvaia e algumas cervejas aromatizadas.

Essa definição de “exótico” acende o sinal de alerta entre os defensores das Panc. O conceito de plantas alimentícias não convencionais se refere a vegetais que servem de alimento, mas que deixaram de ser consumidos em um lugar num determinado período.

As razões da queda no consumo vão da associação aos momentos de carestia à oferta crescente das plantas ditas convencionais (as verduras que se tornaram mais comuns), que passaram a ser cultivadas em larga escala e disponibilizadas pelo mercado ao longo das últimas décadas.

Segundo o próprio cunhador do termo, o biólogo Valdely Kinupp, o conceito de Panc, basicamente, diz respeito aos vegetais comestíveis que não são encontrados no supermercado, na alimentação escolar e na casa das pessoas.

O que é considerado planta alimentícia não convencional em um lugar geográfico não será necessariamente em outro lugar. Kinupp, em entrevista ao Joio, atenta para a seriedade necessária ao trabalhar essas plantas sob a ótica industrial. “Se essa indústria agir de má-fé e só quiser ganhar dinheiro, fazendo uma propaganda errônea e mal uso das Panc, será ruim.”

Por outro lado, ele acredita que o crescimento da demanda pode alavancar o mercado. “Se for bem-feito, como suplemento alimentar ou como suco, geleia, fermentados, kombucha, cervejas, vinhos, farinhas e outros compostos nutricionais, pode estimular o agricultor a produzir frutas silvestres e diferentes folhas.”

Kinupp entende haver certa “xenofilia” alimentícia, que reduz algumas plantas brasileiras a algo “folclórico”, fazendo com que não cheguem à mesa da população, por serem consideradas mato. A própria palestrante do Food Ingredients se referiu às plantas mais de uma vez como ervas-daninhas.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a Embrapa, que mantém uma coleção de variedades de hortaliças não convencionais no Distrito Federal, já foi procurada por indústrias interessadas no processamento das Panc para a produção de alimentos “saudáveis”.

Além do uso das Panc em alimentos mais artesanais, como as geleias, cervejas, refrigerantes, molhos e sucos mencionados, o aparecimento dessas plantas em compostos funcionais, como suplementos alimentares em cápsulas, comprimidos e formatos afins, ainda é incipiente.

O caso da Moringa Oleifera talvez seja o mais recente – e também o mais polêmico – dentro desse universo. Comercializada pela indústria de suplementos alimentares com o objetivo de prevenir doenças graves, como câncer, diabetes e doenças cardiovasculares, a espécie ainda não tem eficácia comprovada. A Anvisa proibiu a venda de alimentos contendo a moringa em junho desse ano.

Uma das marcas que comercializava suplementos com moringa em cápsulas, a Vitaringa, não possuía registro na Anvisa e o site da marca indicava o uso do suplemento para prevenção de doenças e outras finalidades terapêuticas.

Moda?

É importante lembrar que, assim como diversos outros integrantes do reino vegetal, as Panc também estão embutidas de nutrientes e benefícios à saúde humana.

Nuno Madeira, pesquisador da Embrapa Hortaliças, avalia que “a verdadeira disponibilização vem pelo ‘conhecimento’, entendendo o conceito da abundância em contraposição à equivocada ideia de escassez de alimentos”. Seria o caminho para evitar que se trate de um fenômeno passageiro, de uma “moda”.

Para Madeira, o uso de Panc em produtos saudáveis (de verdade) pode ser útil em meio à realidade da sociedade atual, mas é imprescindível que se respeite a integridade dos alimentos e que a oferta dos vegetais in natura não seja prejudicada. O processamento, por exemplo, permitiria maior aproveitamento de partes menos apreciadas das plantas, além de garantir a oferta constante desses alimentos.

Claro que o receio é evidente, dado o histórico que envolve a indústria alimentícia. “O que não pode ocorrer é a gourmetização, tornando excludentes alimentos naturalmente abundantes ou monopólio ou oligopólio de um produto”, diz Madeira.

Ainda que o consumo corriqueiro de certas plantas tenha se perdido ao longo do tempo, esses vegetais não deixaram completamente de ser utilizados, sobretudo nas cidades menores, como meio de subsistência e de afirmação cultural.

A produção para venda é o que vem crescendo mais nos últimos anos, principalmente por pequenos produtores de alimentos orgânicos ou de base agroecológica, em feiras locais e em grupos de consumo responsável.

“Às vezes, os feirantes não sabem o que estão vendendo”, afirmou Thaís de Souza durante o Food Ingredients, repetindo a máxima frequente de que apenas a indústria é capaz de oferecer segurança e saudabilidade ao consumidor.

Em Piracaia, a 90 quilômetros de São Paulo, a agricultora orgânica Maria Alejandra Alcalá cultiva diversas variedades de Panc para comercialização local. Para ela, o processo de apropriação não é novidade. “O desafio é alcançar um equilíbrio e uma integração entre duas formas de viver e agir no mundo”, ressalta.

Em outras palavras, é preciso se atentar à relação entre a produção de insumos por meio das práticas agrícolas (feita à mão) e o uso de tais recursos para elaboração de novos produtos pela indústria (feito por máquinas). E, o principal: para quais as consequências dessa integração à sociedade ao meio ambiente.

A produtora acredita que tem pessoas que só conhecerão as Panc por embalagens ou cápsulas, como se dá com outros alimentos. O problema, para ela, é a maneira como essa informação será passada em relação à forma de uso dos produtos e aos benefícios para a saúde humana.

Para a gastrônoma Maria Capai, essa apropriação de discursos pela indústria também é uma discussão complexa. “Um lado vai dizer que é importante, que só difunde para grande parte da população quando chega na indústria, no supermercado e nas farmácias. Mas, por outro lado, isso chega distorcido. E pega nas vísceras isso ser apropriado por quem não acreditamos.”

“Estamos terceirizando a construção da cultura alimentar e a manutenção da saúde por empresas que não pensam na expansão da diversidade alimentar, na valorização das culturas alimentares ou na promoção de saúde popular. A única preocupação é o lucro, isso é o capitalismo, esse é o sistema.”

As Panc são um instrumento básico para uma “revolução agrícola e alimentar” nas palavras de Nuno Madeira, da Embrapa. É no casamento com sistemas agrícolas rurais ou urbanos mais diversos e ecológicos que mora a possibilidade de que esses vegetais nativos ou “naturalizados” venham a ser cultivados com propriedade, conciliando conhecimentos tradicionais à ciência moderna.

Qual a saída, então, para que as Panc possam ser oferecidas de forma a beneficiar a saúde da população, garantindo renda para os produtores sem desrespeitar os ciclos naturais do meio ambiente?