Pesquisadores e representantes de corporações apontam 'mitos' e descuidos como responsáveis pelo descarte de alimentos em condições de uso

É relativamente conhecida a teoria do economista britânico Thomas Malthus (1766-1834) segundo a qual a população global cresceria mais do que a produção de comida. Embora a hipótese não se sustente, ora ou outra vem à tona, disfarçada. Ela mandou lembranças na última edição do Fórum Estadão Think — “Inovação transformando a indústria de alimentos”, realizado pelo jornal O Estado de S. Paulo com o patrocínio da BRF, na quarta-feira, 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação.

Projeções das Nações Unidas mostram que a população mundial chegará a 11,2 bilhões de pessoas em 2100 —cerca de 50% maior do que os atuais 7,7 milhões de habitantes. Também afirmam que, com tal indicativo, alimentar tanta gente será um desafio. O que ameaça a humanidade, no entanto, não é a falta e, sim, o descarte de comida.

Apesar da persistência da fome em níveis globais, a realidade atual é de excedente alimentar; no Brasil, por exemplo, estima-se que haja a produção de 3 mil calorias diárias per capita, enquanto o recomendado é de 2 a 2,5 mil por pessoa ao dia.

Neste cenário, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) diz que 30% da produção mundial vai parar no lixo, por perdas ou desperdício nos circuitos de alimentos — do início, no cultivo, ao fim, no consumo. A perda corresponde a 54% do que é descartado e decorre de problemas nas fases de produção, armazenamento e transporte dos alimentos. O desperdício, 46% do que vai ao lixo, vem do uso doméstico, da compra em varejo ou do consumo em bares, restaurantes e outros estabelecimentos.

No fórum organizado pelo Estadão com a BRF, entretanto, as discussões sobre desperdício, muito mais do que sobre a perda, preponderaram. Isso mesmo. Segundo o time de especialistas reunido pelo jornal paulista, você, cidadão, tem muito mais culpa pelos problemas na alimentação mundial do que as corporações. Trata-se de uma narrativa de dois pesos, duas medidas: o cidadão é responsável pelos problemas, e a indústria tem as soluções. Socializam-se as perdas e capitalizam-se os ganhos.

“O esforço, o desafio, é não de uma empresa, mas de toda a sociedade, para atender ou tentar resolver o problema do futuro da alimentação. A gente tem que mudar o mindset e olhar para o trabalho em conjunto, entre empresa, governos, academia e consumidor, que também tem que mudar a maneira como consome os alimentos. A sociedade tem que mudar para combater o desperdício”, declarou na ocasião Neil Peixoto, vice-presidente de Qualidade, Sustentabilidade e Pesquisa e Desenvolvimento da BRF.

“Para a empresa, a palavra desperdício pode ser traduzida de uma maneira muito fácil, que é a questão da eficiência. Uma empresa, sendo eficiente, consegue ser mais sustentável e reduzir desperdícios”, complementou.

Ele afirmou que a empresa, uma das maiores processadoras de proteína animal do mundo, mitigou perdas. A matemática, afinal, é simples para o setor empresarial: perda é prejuízo. O executivo citou que a BRF tem como prova de eficiência o monitoramento via satélite da produção e o aproveitamento máximo das matérias-primas com que trabalha. No caso dos frangos, por exemplo, aproveita-se tudo do animal; alguns restos, inclusive, servem para a produção de aditivos alimentares dos itens das marcas Sadia e Perdigão.

Ainda assim, se a indústria de alimentos não quer prejuízos, por que o desperdício de alimentos persiste? Atenção para o pulo do gato. “Porque eles estragam e estão fora de condições de uso”, afirmou no fórum Bernadette de Melo Franco, professora do Departamento de Alimentos e Nutrição Experimental da Faculdade de Ciências Farmacêuticas e Coordenadora do Food Research Center, ambos pertencentes à Universidade de São Paulo (USP).

Resolver o problema alimentar, segundo ela, envolve o trabalho em conjunto de cientistas com empresas privadas. “No mundo acadêmico, estamos avaliando possibilidades de aumentar a vida útil dos alimentos, desenvolver novas tecnologias, controlar qualidade de matéria-prima, obter novas técnicas de processamento de alimentos de modo que a gente possa contribuir com a melhoria desse ponto.”

Conflito de interesses, segundo tal raciocínio, seria uma piada de mau gosto. A academia, ao lado da indústria, apresenta a solução.

Quem adivinhar o responsável pelo problema ganha um nuggets Sadia. Pode ser de peito de frango, bico, pata, pena ou asa… A liberdade de escolha é do leitor.

Preste atenção no que declarou a professora da USP.

“Muito desperdício de alimento, muita perda de alimento, também se deve a um problema de educação. O povo brasileiro tem uma série de mitos, de conceitos errados, que fazem com o que o indivíduo jogue fora coisas que não precisam ser jogadas fora. [Tem] coisas que passaram do prazo de validade, e o consumidor acha que está em risco, no dia seguinte [ao vencimento] do alimento. Então, tem algumas coisas que as pessoas precisam ter um conhecimento sobre aquilo que está consumindo.”

E aí, vai encarar?

A professora de Nutrição disse, e a mediadora do evento, a jornalista Rita Lisauskas, perguntou para não deixar dúvida: “Então, você não precisa jogar o alimento se vai expirar a data de validade?”

“Eu não vou dizer que não é para jogar fora”, respondeu Franco, sob discretos risos da plateia. “O que eu acho é que a população brasileira de um modo geral não tem o conhecimento sobre que alternativas ela tem para se alimentar. Hoje, existe uma guerra imensa em relação ao produto industrializado, ao produto ultraprocessado, à indústria de alimentos que faz mal. O bom senso que tem que prevalecer”, acrescentou.

Que a professora, portanto, permita uma correção baseada no bom senso. Existe sim conhecimento disponível sobre comida no Brasil. É público e gratuito. Chama-se Guia Alimentar para a População Brasileira, um documento do Ministério da Saúde que, no Joio não cansamos de dizer, orienta, sem falar em alimentos milagrosos, dietas da moda, ou a bobagem que o valha, sobre comer de forma saudável.

A mensagem é simples: prefira os alimentos in natura ou minimamente processados, limite a ingestão de comida processada e evite os produtos ultraprocessados, porque estes fazem mal. No evento, anotamos uma única menção ao Guia, apenas de passagem, nas mais de três horas de discussões durante o fórum realizado pelo Estadão.

Mas o guia deu um jeito de aparecer. Em consonância com o que preconiza o documento, a economista Luciana Quintão, fundadora da ONG Banco de Alimentos, sugeriu um jeito mais fácil de diminuir o desperdício, menos atrelado à indústria, inclusive.

“Nas partes denominadas de partes não convencionais dos alimentos [talos, cascas e sementes], estão contidos alguns dos melhores nutrientes. A gente simplesmente joga fora, e não podemos mais fazer isso. Principalmente a população de baixa renda, quando consome o alimento integralmente, está comendo mais nutrientes e gastando menos dinheiro.”

Uma alimentação com aproveitamento integral, segundo Quintão, também gera menos resíduos. Já mostramos no Joio, ao falar sobre o descarte de cafés em cápsula, que a Política Nacional de Resíduos Sólidos, responsável pelas regras sobre lixo no Brasil, não está funcionando como deveria. Em parte, porque a indústria não tem tratado da logística reversa conforme o previsto em lei.

Outra mensagem do menosprezado Guia Alimentar é a valorização dos circuitos curtos de alimentos. Consumir a comida próxima de onde ela é produzida não só é mais seguro e mais saudável para o indivíduo, e é também melhor para o meio ambiente.

O representante da FAO no Brasil, o mexicano Rafael Zavala, recordou deste ponto tão esquecido. “Precisamos gerar estratégias para que o alimento seja saudável, que cumpra com os objetivos de desenvolvimento social, em circuitos curtos, com pouca pegada de carbono, e que as pessoas estejam mais convencidas sobre o que estão comendo”, ele afirmou.

O Estadão colocou à disposição o vídeo do debate nos seus canais nas redes sociais. Assista, abaixo, na íntegra.