Brigadeiros, biscoitos, brownies, bolos, waffles com geleia, refrigerantes, açaís repletos de confeitos, balas, macarons, picolés. Parece uma loja de doces, mas não é. Trata-se do XXII Congresso da Sociedade Brasileira de Diabetes, realizado em Natal entre 16 e 18 de outubro.

Em meio a amostras grátis de medicamentos, bloquinhos, canetas e a uma profusão de brindes comuns em eventos científicos, o encontro no Rio Grande do Norte ganhou uma cobertura açucarada. Curiosamente, ou não, o açúcar é uma das causas do diabetes.

A conferência, organizada a cada dois anos pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), tem como função atualizar com evidências os profissionais das áreas médicas de diabetologia e endocrinologia, além de nutricionistas, psicólogos, enfermeiros, educadores físicos.

Os estandes de empresas da área do tratamento e diagnóstico do diabetes, entre propagandas e regalos apresentando as maiores novidades alimentícias, teriam como motivação “deixar o congressista estimulado e bem informado”. E bota estimulado nisso, já que uma única lata de Coca-Cola contém 37 gramas de açúcar.

Marina Moreno, nutricionista e mestre em Educação em Diabetes, frequenta a convenção da SBD desde 2011. A reação diante da variedade de lanches oferecidos pelos patrocinadores foi de espanto. “Muitos biscoitos, cafés e cappuccinos com incrementos tipo Nutella, Ovomaltine, pães, bolos, crepes, sucos de caixinha, balas à disposição… isso para o café da manhã. Nem precisava tomar o café do hotel”, descreve. “Se são três dias de congresso, são três dias expostos a muita gordura e muito açúcar. Não acho legal, deveria ter um equilíbrio.”

Os últimos dados da International Diabetes Federation (IDF) mostram que, atualmente, no Brasil, são mais de 13 milhões de pessoas vivendo com diabetes, o que representa 6,9% da população. Dessas, 90% têm o diagnóstico do tipo 2, associado a alimentação, inatividade física e consumo de álcool.

No caso global, as estatísticas da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam 422 milhões de indivíduos diabéticos, ou 13% dos cidadãos, um número quatro vezes maior que o registrado 40 anos atrás.

Apesar de haver uma ligação entre a disfunção e o histórico familiar ou fatores genéticos, o estilo de vida e os hábitos nutricionais possuem grande influência.

Marina aponta que a situação pouco tem mudado. “Desde 2011, o padrão se repete”, explica. “Não é somente uma oferta de doces, mas de todos os tipos de alimentos ricos em carboidratos e gorduras”, adiciona.

Para ela, que é membro do Conselho Regional de Nutricionistas da 9ª Região (Minas Gerais), quem se encarrega do encontro precisaria controlar a qualidade e quantidade da comida oferecida. “Deveria ter uma discussão dos organizadores, priorizando alimentos regionais e colocando nutricionistas para adequar as porções para os participantes”, sugere.

O Brasil é o quarto maior consumidor de carboidratos cristalizados comestíveis, segundo a OMS. A ingestão máxima recomendada pela entidade é de 10% das calorias diárias, o que no caso de adultos fica em torno de 50 g por dia ou 12 colheres de chá.

A diretriz oficial do país, o Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado em 2014 pelo Ministério da Saúde, aconselha evitar ultraprocessados, como biscoitos, salgadinhos e refrigerantes.

Doce amargo

Não é de hoje que esse assunto ganha repercussão. O Joio relatou em 2017 que no Congresso Internacional de Nutrição, realizado no centro de Buenos Aires, havia fornecimento irrestrito de refrigerantes.

Como ocorre em eventos científicos, o Congresso da Sociedade Brasileira de Diabetes é financiado por inscrições e por patrocínios. É costumeiro que exista uma feira comercial na qual empresas expõem produtos e tentam influenciar a prescrição de profissionais da saúde. Via de regra, para ganhar brindes, médicos, nutricionistas e enfermeiros precisam preencher um cadastro que se torna um ativo valioso das corporações.

Era essa a condição, por exemplo, para ganhar um “sonho na colher” no estande da farmacêutica Roche. Outra farmacêutica, a Lilly, oferecia um brigadeiro como prêmio por um jogo de roleta.

A SBD não respondeu aos pedidos de entrevista. A organização não esclareceu quais são as regras que as empresas participantes da feira devem cumprir e se há alguma orientação quanto ao teor nutricional do que é oferecido. Esse é o maior encontro sobre diabetes da América Latina, que contabilizou 3.300 inscritos, além de 240 palestrantes nacionais e 15 internacionais.

A associação civil criada em 1970 informa na página da internet que não tem qualquer fim lucrativo e que busca sempre contribuir para a prevenção e tratamento adequado do diabetes e para a redução significativa do número de indivíduos com a enfermidade.

Longo caminho

O debate está longe de encontrar um consenso. Contestações às políticas de patrocínio de eventos científicos são a exceção, e não a regra. Entre os maiores eventos sobre alimentação, o Congresso Brasileiro de Nutrição e o Congresso Latino-americano de Nutrição adotaram ao longo dessa década uma política mais clara sobre conflito de interesses.

No caso brasileiro, há inclusive exigência sobre o teor nutricional do que pode ser oferecido na feira comercial. Na última edição da convenção latino-americana, em 2018, não havia distribuição de ultraprocessados, mas de água e frutas.

A médica Priscila Cukier presencia cenário semelhante ao do congresso de diabetes em diversos encontros nas quase duas décadas de carreira em Endocrinologia. “Sempre tem bolos e outros doces nesses eventos”, argumenta. A justificativa é que o público-alvo, de médicos, não tem diabetes. Por isso, o consumo de guloseimas ali não seria um problema. “Cabe às pessoas fazerem suas escolhas, mas desde que haja oferta de produtos saudáveis também”, completa.

Para além disso, a profissional vê o contexto atual com bons olhos. “Acho que já foi pior. Antes não havia opção saudável. Acho que está melhorando”, analisa. Ela faz alusão ao fato de que castanhas, frutas e água podiam ser encontradas pelo espaço potiguar.

Por outro lado, era de se esperar que as alternativas nutritivas, como uma variedade de alimentos integrais, ricos em fibras e minimamente processados, fossem abundantes.

Wellington Santana, endocrinologista e professor da Universidade Federal do Maranhão, compartilha de uma interpretação parecida ao reconhecer que o excesso de carboidratos é frequente nos eventos médicos. “Sem dúvida, havia muitas opções de alimentos açucarados para quem quisesse. Mas os endocrinologistas e nutricionistas costumam selecionar melhor”, confirma.

Ele mesmo é um dos que tem atenção a suas escolhas. “Tenho diabetes tipo 1 e já possuo um olhar focado no que devo ou não devo comer”, conta.

Ainda comenta sobre uma conferência anterior neste ano sobre esporte e suplementação alimentar em que a situação era similar. “As opções estavam bem ruins, basicamente salgados e doces. Conversamos com a empresa responsável pela organização e disponibilizaram saladas de frutas no dia seguinte, que esgotaram rapidamente”, relembra.

A nutricionista Noelly Dantas, apesar da recomendação a adoção de hábitos saudáveis, não enxergou com desagrado a apresentação excessiva de produtos açucarados na convenção.

Na visão dela, pode-se comer de tudo, desde que nas proporções corretas. Como somente o exagero de açúcar poderia causar o diabetes, o consumo dos artigos oferecidos não produziria efeito negativo.

“Sinceramente não me incomodou em nada. Optei apenas por não consumir o que não considerava saudável”, afirma, acrescentando que, como o congresso era voltado para profissionais da saúde, não fazia sentido restringir os carboidratos em si.

Dantas, que convive com o diabetes, aponta que a agradou ali uma ação de conscientização sobre alimentação saudável e “como os refrigerantes e alimentos industrializados fazem mal à saúde”.

Outro ato de sensibilização foi uma contagem simbólica sobre a estimativa do consumo de açúcar no evento. O chamado “açucômetro” ficava em um espaço de uma das empresas apoiadoras da conferência e mostrava em uma tela números, que iam aumentando progressivamente.