Eu me permito essa experiência? Eu posso me permitir vivenciar algo novo? Fecha os olhos. Primeiro, cheira esse chocolate ainda na embalagem. Que cheiro você sente? Coloca os dois pés em contato com o solo: a postura comunica muita coisa. Nós precisamos de uma postura de atenção. Mantenha os olhos fechados. Vamos fazer respirações mais profundas.

Entra em contato com esse alimento. Leva perto do ouvido. Ouve o barulho da embalagem.  Agora pode abrir. Abre lentamente. Vá observando as cores, os brilhos. Alguma lembrança? Isso te provoca alguma memória? Coloque sua atenção em como foi produzido esse alimento. As pessoas que cultivaram esse alimento. Todo o processo pelo qual ele passou. Agora, lentamente, vai entrando em contato com o sabor que surge ao comer esse primeiro pedaço. Ainda não morde. Deixa deslizar pela boca. Vai sentindo os sabores. É bom?

Esse é o melhor resumo que consegui entregar de um bocado de palestras sobre mindful eating a que assisti desde 2017. Para ser sincero, eu não tenho tantas horas de mindful quanto tenho de umami – sobre umami eu posso falar durante cinco dias, inclusive enquanto faço mindful. Mas o que eu sei já é suficiente para dizer que essa é uma história complicada.

Mindful eating é a abre-alas de um monte de expressões em inglês que surgem durante palestras sobre esse assunto. É o jeito coach startupiano de apresentar o “comer com atenção” – sim, vou abusar das expressões em inglês que é pra entrar no clima. Sua vó já sabia disso, e talvez você é que não tenha prestado atenção. Fato é que ela não ganhou nem um centavo com tamanha sabedoria.

Já a turma que veio depois… “A ciência da não dieta”, resume o Centro Brasileiro de Mindful Eating. Há protocolos, artigos, diretrizes de boas práticas, livros, todo um aparato a sustentar a ideia de que comer com atenção é uma abordagem que depende da orientação de profissionais. Não há motivo para duvidar da boa fé deles. Nem razão para pensar que essa estratégia seja descabida. Mas é impossível não notar que todas as palestras sobre mindful eating a que assisti durante grandes eventos de nutrição estavam patrocinadas por corporações alimentícias.

A primeira digna de nota foi em Buenos Aires, em 2017, durante o Congresso Internacional de Nutrição. O título era curioso: “Mindful eating aplicado ao snacking: uma promissora abordagem comportamental sustentada por pesquisa científica”. Snacking, mais um termo anglicano, é a grande invenção de uma indústria que se embrenhou na nossa vida nas últimas décadas. De novo, sua vó, que chamava isso de porcaria ou tranqueira, não ganhou um centavo ao te advertir de que não se deve comer essas coisas. É a ideia de ir beliscando ao longo do dia, a qualquer hora, em qualquer lugar: salgadinho, biscoito, cereal, iogurte.

Esse simpósio era patrocinado pela Mondelez, que no Brasil fabrica chocolates da linha Lacta, biscoitos (como Club Social e Trakinas), o cream cheese Philadelphia, balas e chicletes. Três pesquisadores disseram que as pessoas estavam, no mundo todo, abusando do snacking. É como se tivéssemos uma epidemia não de doenças crônicas, mas de desatino emocional.

Um dos pesquisadores mostrou como alterar o tamanho da porção pode enganar o cérebro, ajudando a pessoa a comer menos graças a uma mudança na percepção sobre saciedade. Indignada, uma pessoa da plateia não escondeu a desaprovação: como vocês podem enfatizar escolhas pessoais se essa pesquisa mostra que a vontade individual pode – e foi – manipulada?

Pulamos dois anos no tempo, direto para o Congresso da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (Sban), realizado em São Paulo em agosto de 2019. Foram duas palestras em sequência. A primeira, mais uma vez da Mondelez. A segunda, da Nestlé.

Snack mindfully, aproveite o momento”, dizia um bloquinho entregue pela Mondelez. Nas palavras da vovó, “Presta atenção nessa tranqueira que você tá comendo, moleque”. Segundo a empresa, snacks contribuem para termos energia ou dão um impulso para iniciar o dia. Ou podem, simplesmente, matar a vontade de comer o que é gostoso. “Hoje em dia, no entanto, há muito foco no que as pessoas estão comendo, e não o suficiente em PORQUE e COMO.”

Por isso, o mindful promete proporcionar momentos mais satisfatórios quando se come um snack e estar menos propenso a comer em excesso. O folheto foi feito sob medida para ser entregue por nutricionistas a pacientes que se culpam por comer em demasia. Claro, com o logo da Mondelez, seguido do slogan “Snacking made right”, alguma coisa do tipo “Beliscando do jeito certo”.

A palestra foi dada por Manoela Figueiredo, uma das criadoras da “nutrição comportamental”, um conjunto de abordagens hiperindividualizadas da questão alimentar. E esse é um aspecto importante do mindful das corporações: como sempre, a culpa é toda do indivíduo. Lá na frente a gente retoma esse aspecto.

A palestrante apresentou ferramentas e exercícios que deveriam ser usados na abordagem em consultório. A chave da questão é deixar de recomendar dietas. O que é outro aspecto curioso. As dietas eram justamente a bola da vez dessas empresas para lidar com a questão da obesidade. E, agora que já sabemos que elas não funcionam e fazem mal, surge uma abordagem que as desmerece e as dá por superadas.

Você pode tentar em casa, se por acaso está insatisfeito com a forma como vem comendo. Manoela basicamente pregou que se trabalhe a ideia de tornar todos os alimentos “neutros”: não existe alimento bom ou ruim. Isso passa por comer sem culpa, na quantidade que julgar necessário, mas prestando atenção. O centro dos exercícios reside em entender e classificar suas sensações de fome e saciedade, trabalhando para que nunca se sinta com muita fome, porque aí vai enfiar o pé na jaca, e nem muito saciado, porque aí já enfiou o pé na jaca.

“A gente nasce com essa sabedoria e vai perdendo ao longo do tempo”, ela disse. “Se a gente continuasse sabendo provavelmente teria muito menos problemas de sobrepeso, obesidade e transtornos alimentares hoje em dia.”

Esse reaprender passa por respeitar o seu corpo. Se você vai ao banheiro sempre que tem vontade, por que não come apenas quando tem vontade? Isso nos remete a outra ideia. Na sua opinião, o correto é comer de quantas em quantas horas? Muitas pessoas dirão: de três em três. De onde saiu essa ideia muito maluca? Adivinha só. Começa com “sna” e termina com “cking”.

Uma pesquisa realizada em 2009 mostra que a quase totalidade da população dos Estados Unidos estava snackeando. Os números haviam explodido desde o final dos anos 1980, em especial entre crianças de dois a seis anos. A média de aumento de ingestão diária só com snacking nesse período ficava em 168 calorias, o que levava esses produtos a responder por 27% das calorias totais.

Na fase final da palestra de Manoela pudemos escolher entre alguns chocolates da linha Lacta. Fiquei com o Diamante Negro e tive meu momento todo especial com aqueles 13 gramas de açúcar (65% do peso do produto). Não era nem meio-dia.

A palestra seguinte, muito disputada, foi patrocinada pela Nestlé. E, aí sim, era hora do almoço. Como é de praxe em eventos de nutrição, o lanchinho oferecido pela corporação deveria aterrorizar qualquer nutricionista. Mas desconfio que não aterrorize. Pão insosso, presunto e queijo. Com um sachê de maionese, outro de catchup. Uma água de coco. Um chocolate. E uma minimaçã para disfarçar. Para disfarçar, não: não existem alimentos bons ou ruins. Essa minha cabeça é que tá doutrinada pra achar que tem diferença entre o presunto e a alface.

João Motarelli, diretor do Centro Brasileiro de Mindful Eating, falou sobre como a restrição tem uma associação muito forte com o aumento do desejo por alimentos proibidos. O que é proibido cota mais alto. E, com isso, vem o comer exagerado. Por isso, o mindful é uma abordagem interessante para desfazer esse conceito.

“Gostar de comer é um problema? Não. Não é um problema. Por que não? Porque justamente desde 1960 existe uma teoria, que é a teoria da satisfação sensório específica.” Nas palavras dele, se quero comer chocolate, não adianta comer brigadeiro de biomassa de banana verde: o cérebro não é idiota. Ele quer uma parada, você tem de dar a ele essa parada, ou ele vai ficar martelando isso na sua cabeça forever.

Motarelli não poderia ter trazido essa teoria em melhor hora. A indústria é conhecedora antiga do conceito de satisfação sensorial. Bilhões foram investidos para entender como os mecanismos de saciedade poderiam ser alterados para aceitar cada vez mais açúcar, sal e gordura.

Não é por acaso que isso tenha sido descrito no livro Sal, Açúcar, Gordura, do jornalista Michael Moss. As empresas dizem não haver evidência científica de que ultraprocessados provoquem craving, ou seja, uma espécie de fissura, um desejo incontrolável. O problema, para elas, é que Moss conseguiu reunir vários depoimentos de altos diretores dessas corporações de que muita grana rolou para descobrir como os mecanismos de prazer do cérebro funcionam.

“Os maiores sucessos — Coca-Cola, Doritos ou o prato semipronto Velveeta Cheesy Skillets, da Kraft — têm sua origem nas fórmulas que provocam as papilas gustativas o suficiente para serem atraentes sem ter um único sabor mais acentuado que diga ao cérebro: já chega!” Em outras palavras, há combinações de ingredientes que fazem com que seu cérebro mande para as cucuias a moderação.

De novo, pode tentar em casa. Fazer mindful com um pacote de Doritos talvez te leve a cãibras na bochecha depois de cinco horas de mastigação, mas vai ser difícil parar de comer.

Moss descreve vários experimentos realizados para entender como se poderia desarmar os mecanismos de saciedade e transformar nossos corpos em depósitos do excesso de produção da indústria. “A segunda descoberta dizia respeito à relação entre gordura e açúcar. Ele [um pesquisador] descobriu que, quanto mais gorduroso fosse o creme de leite, mais os participantes do experimento gostavam quando um pouco de açúcar era adicionado. Havia algo naquela combinação que criava uma dinâmica poderosa. Um componente fortalecia o outro, levando-o a níveis de atratividade que nenhum poderia alcançar sozinho.”

Isso é particularmente interessante. Vamos começar pela Mondelez. O Oreo, fabricado pela empresa, é o biscoito mais vendido da história da humanidade. Dá uma olhada na lista de ingredientes.

Ingredientes: Farinha de Trigo Enriquecida Com Ferro Ácido Fólico, Açúcar, Gordura Vegetal, Óleo Vegetal, Cacau, Açúcar Invertido, Sal, Fermentos Químicos: Bicarbonato de Amônio, Bicarbonato de Potássio e Bicarbonato de Sódio, Emulsificante Lecitina de Soja e Aromatizante.

Você deve ter visto que açúcar e gordura vêm em grandes quantidades nesse produto, figurando mais de uma vez na lista. Logo em seguida vem o sal. Se estiver na pegada, compra um Oreo e faz um mindful com ele. Você vai notar que a bolacha não é apenas doce: há um fundinho salgado que te ajuda a não enjoar tão rápido da quantidade enorme de açúcar, também irmanado com a gordura.

É o mesmo princípio da Coca-Cola: sem um fundo de acidez, sem aquelas bolinhas que tentam saltar para dentro do nariz, ninguém aguentaria tomar essa combinação de água e açúcar. Acima de tudo, as descobertas da ciência de alimentos nessa área fizeram com que as empresas pudessem criar formulações cada vez mais baratas usando, basicamente, farinha, gordura, açúcar e sal, além de muitos aditivos.

O slogan que melhor resume isso, no Brasil, é o famoso “É impossível comer um só”, que embalou a infância de muita gente com os salgadinhos da Elma Chips. Tem também “Quem pede um, pede Bis”, via de regra apresentado em publicidades que mostravam que a caixinha do chocolate ficava vazia rapidinho.

E mais um bocado de coisas que não estimulavam em nada o mindful. A publicidade das décadas anteriores é farta em situações que enfatizam que esses produtos foram feitos para consumir em qualquer lugar, a qualquer hora. E essa era uma vantagem que deixava no chinelo a comida de verdade, para a qual é preciso planejamento, preparo, atenção e um lugar-tempo adequado.

A Nestlé tinha um chocolate chamado Sem Parar. Quer explicação melhor?

Então, quando essas empresas decidem falar que você deve ter atenção no que está comendo, isso soa como um enorme sarcasmo. É um exercício de crueldade com o cérebro: nós descobrimos como enganá-lo; você que se vire para descobrir como vai salvá-lo da enganação.

É, mais uma vez, a ideia de jogar todo o peso nas costas do indivíduo. E empurrar para debaixo do tapete toda uma história que vai na contramão da narrativa oficial.

Ronald Purser, professor na San Francisco State University, nos Estados Unidos, lançou recentemente um livro no qual aborda a apropriação corporativa do conceito de mindfulness para criar uma narrativa de que tudo depende do indivíduo. Em uma entrevista, ele cita particularmente o uso desse conceito pelas empresas de alta tecnologia, como Google e Facebook: na visão dele, é revoltante que corporações responsáveis pelas maiores distrações da história da humanidade venham cobrar que as pessoas tenham foco.

“O ônus é completamente colocado no indivíduo para que faça as escolhas corretas em termos de estilo de vida, o que minimiza toda a noção de contexto social e ambiental. O que está ocorrendo com o mindfulness corporativo é uma completa deturpação do pensamento crítico a respeito das causas do estresse, que são todos privatizados em torno do indivíduo”, ele adverte.

“Há também uma desvalorização implícita da ação coletiva e da construção da solidariedade. Essa metáfora é tão comum – ‘A mudança sempre começa de si. Nós primeiro temos de mudar a nós mesmos, assumir a responsabilidade, ter autocuidado’. Isso é realmente semelhante à ética protestante de muitas maneiras. Em vez de se submeter à vontade de Deus, há um imperativo moral de cuidar de sua própria saúde e de seu bem-estar. O fato de que essas iniciativas corporativas também rebaixam a mudança social. Está mandando aos indivíduos a mensagem de que eles são o problema. Eles precisam ser calmos, e precisam se regular.”

Eu me permito essa experiência? Eu posso me permitir vivenciar algo novo? Alguma lembrança? Isso te provoca alguma memória? Coloque sua atenção em como foi produzido esse alimento. As pessoas que cultivaram esse alimento. Todo o processo pelo qual ele passou. Agora, em vez de abrir embalagem, descasca um legume, uma fruta. E bom apetite.