Você vai até a prateleira do supermercado em busca de um molho de tomate. Há várias marcas, com preços entre R$ 3 e R$ 6. Depois de pensar um pouco, você escolhe uma marca embalada na Itália, ou que tenha alguma referência ao país europeu: afinal, em se tratando de tomate, essa é uma espécie de garantia de qualidade. Satisfeito, você vai ao caixa, paga e sai.

Aparentemente, não há nada de errado. Só que sim. Essa lata de 400 gramas é capaz de carregar tantos problemas que mereceu um livro e um documentário sob o mesmo título. O Império do Ouro Vermelho – A história secreta de uma mercadoria universal é o resultado de anos de investigação do jornalista francês Jean-Baptiste Malet.

Seja na versão audiovisual, seja na versão impressa, a obra expõe o nonsense de um sistema alimentar regido pela globalização corporativa. O autor parte daí. Foi na Provença natal, no Sul da França, que ele viu que alguma coisa estava muito errada na produção de molho de tomate. A fábrica local, uma cooperativa que abastecia boa parte do país, fora comprada por industriais chineses que, a partir de então, adotaram uma postura de afastamento e de falta de transparência.

Malet ficou com a pulga atrás da orelha: por que a China, que tradicionalmente nem consome molho de tomates, queria entrar nesse mercado, a ponto de conquistar espaços nas regiões mais tradicionais do planeta? Foi assim que ele mergulhou na formação do império do ouro vermelho.

O jornalista revela como, de fato, o gigante asiático se tornou um dos grandes atores desse mercado colossal. Em 1961, segundo a investigação, a produção global de batatas era de 271 milhões de toneladas, contra 28 milhões de toneladas de tomates. No começo do nosso século, as batatas chegaram a 376 milhões, um aumento razoável, enquanto o tomate foi a 164 milhões, uma multiplicação por cinco. Desse total, 25% era tomate industrial.

“O imaginário do tomate é poderoso, e a indústria trabalha para mantê-lo vivo. Quem já viu um tomate industrial? Ele está para um tomate fresco como uma maçã está para uma pera. É outro fruto, outra geopolítica, outro negócio”, adverte o escritor. Sucessivas mudanças genéticas levaram à criação de um tomate bem duro, que pode tomar muita pancada sem se romper. O produto perfeito para uma indústria que precisa levar o fruto até máquinas gigantescas. Um produto não tão perfeito para nosso consumo.

Mas isso não é nem a ponta do iceberg. Ao longo do processo de apuração, Malet descobriu violações trabalhistas de monte, incluindo trabalho infantil e servidão por dívida nas mais variadas áreas de produção. Descobriu fraudes de diferentes tipos, a começar por rótulos que falam em molho de tomate puro, quando na verdade o produto está diluído em vários aditivos – a ponto de haver latas que têm o tomate quase como um resíduo, numa proporção inferior a 40%.

O ponto fulcral da discussão, pelo menos para Malet, é a maneira como esse mercado se estruturou nas últimas décadas. Ele parte da construção do império Heinz, que no Brasil é famosa pelo catchup e por molhos de tomate. Criada como uma empresa familiar, foi uma entusiasta de primeira hora da mundialização da produção. Foi, na visão dele, uma pioneira na criação de um império global.

E trabalhou ativamente em prol de uma ideologia de livre mercado, a ponto de usar dos serviços e da influência do histórico diplomata Henry Kissinger, dos Estados Unidos, para abrir mercados mundo afora.

“A onda neoliberal dos anos 1980 espalhou a doutrina do livre mercado e, sob influência da nova ideologia dominante, muitos governos de países industrializados desregularam suas economias e ‘liberaram’ as atividades financeiras”, relata Malet. “Em pouco tempo, a ‘financeirização’ da economia transformou profundamente os sistemas de produção e de crédito, nos níveis nacional e mundial.”

A China, que não é tonta, sacou que poderia construir um império do tomate. E foi assim que iniciou uma tensa relação com industriais italianos, num jogo de perde-ganha que até hoje não terminou. Esses empresários viram no país asiático uma chance de baratear a produção e, assim, iniciaram o envio de maquinário e de know how.

Mas um molho de tomate chinês poderia não fazer sucesso na gôndola. E aqui vem a pior fraude revelada pela investigação de Malet. O tomate industrial é processado na China e transportado na forma de concentrado em enormes contêineres. Chega ao sul da Itália, onde é enlatado e ganha um selo de “Made in Italy”.

Então, a lata que você encontra no supermercado pode ter sido processada na China. Imagine que esse produto viajou uns dez mil quilômetros até pisar na Europa para, dali, ganhar o mundo. No caso do Brasil, esse tomate viajou uns vinte mil quilômetros. Como é possível que chegue em condições de consumo? Em alguns casos, com novas fraudes. Com a mistura de concentrados em boas condições a concentrados já estragados, temperados com aditivos para dar sabor, textura, cor.

Como é possível que chegue tão barato? Com violações trabalhistas aos montes. No sul da Itália, onde ainda há produção, Malet se deparou com imigrantes africanos vivendo em péssimas condições. Em favelas controladas por espécies de milicianos que regulam a oferta de serviços local e as vagas de trabalho. Por isso, na visão dele, impera uma enorme hipocrisia: é impossível que grandes empresas e as maiores redes de supermercado do mundo ignorem a existência de tantos problemas nessa cadeia de produção.

Mas você, agora, sabe da missa a metade. O resto está no livro e no documentário. Por ora, tem mais alguns ótimos motivo para preparar molho de tomate em casa.