‘A obesidade está nas entrelinhas do sistema alimentar’

Em entrevista, o pesquisador Boyd Swinburn explica a relação entre sistemas e obesidade e comenta as políticas de alimentação no Brasil

Costuma-se tachar de bullying. Mas isso está errado. Culpar um indivíduo por estar obeso não é só ofensivo: é também uma noção equivocada. O excesso de peso corporal pode ter relação com aspectos que fogem do controle dos indivíduos. A obesidade é uma pandemia mundial, e somente no Brasil afeta quase um quinto da população, segundo o Ministério da Saúde.

O problema tem culpa, e pode não ser você. O excesso de peso planetário está diretamente ligado com os nossos sistemas alimentares, controlados por grandes corporações agrícolas e de produção de comida. Estas privilegiam o cultivo de commodities, bem como a oferta de itens ultraprocessados, com excesso de sal, gorduras e açúcar, em detrimento do consumo de alimentos frescos.

Há quem procure tratar do problema da obesidade por esta perspectiva. O médico epidemiologista neozelandês Boyd Swinburn é um destes. Encara a questão de uma maneira holística, ou sistêmica, mais abrangente dos pontos de vista ambiental, político e social. Ele veio ao Brasil em agosto para participar do lançamento em português do relatório de uma comissão da revista The Lancet, do qual é autor.

No documento, em uma das principais publicações em saúde pública do mundo, Swinburn diz que a obesidade é apenas uma dentre três grandes epidemias. Ela está ao lado da desnutrição e das mudanças climáticas. Em conjunto, o trio provoca um quadro de sindemia global.

“Com frequência, culpa-se os pobres pela pobreza e os obesos pela obesidade. Penso que esta visão perde a complexidade destes problemas”, afirmou o pesquisador, em uma breve entrevista que concedeu para O Joio e O Trigo, após o lançamento do relatório em português. Na ocasião, o epidemiologista também comentou as políticas públicas sobre alimentação no Brasil, onde há, segundo ele, “iniciativas exemplares”.

O pesquisador neozelandês Boyd Swinburn durante sua passagem pelo Brasil (Foto: Claudio Andrade/Idec)

Apesar dos últimos ataques do presidente Jair Bolsonaro a programas e autarquias sobre alimentação, Swinburn disse que “os políticos não duram para sempre”.

O neozelandês elogiou a classificação NOVA, que divide os alimentos conforme o grau e o propósito de processamento — uma teoria fundamentada pelo médico brasileiro Carlos Monteiro no Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição em Saúde da Universidade de São Paulo.

Swinburn ainda afirmou que a América Latina tomou a frente de importantes políticas de alimentação, que servem muito bem, obrigado, para o combate à pandemia de obesidade. Citou os exemplos de Chile e Peru, sobre alertas de rotulagem, e a de taxação de bebidas adoçadas adotada no México.

Leia a íntegra da entrevista abaixo.

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Pergunta — O relatório mostra a obesidade como um problema sistêmico e não puramente individual. Qual a importância de olhar para o problema desta maneira?

Reposta — As pessoas pensam em obesidade como uma fraqueza pessoal, uma falta de força de vontade, sem ver o que está nas entrelinhas: a natureza dos sistemas alimentares, os ambientes de produção e consumo de alimentos, que nos fazem ter nossas escolhas. A obesidade não é uma falta de força de vontade individual. É muito mais.

Mas por que esta visão sobre a obesidade como falta de força de vontade e escolhas individuais equivocadas persiste?

Ainda persiste porque é a visão que é empurrada abaixo pela indústria de alimentos e por pessoas com visão política de direita. Segundo eles, a responsabilidade individual tende a ser uma característica. Com frequência, culpa-se os pobres pela pobreza e os obesos pela obesidade. Penso que esta visão perde a complexidade destes problemas. As pessoas com obesidade lutam contra ela quase durante toda a vida, e isso não é nada fácil. As dietas e a atividade física são fatores, mas também há outros fatores para se levar em conta.

Quais são as implicações de argumentos que relacionam o problema da obesidade com a falta de equilíbrio nas escolhas? Esses argumentos dizem que somos livres para comer o que quisermos.

Mas quem oferece nossas opções de escolha? Quem escolhe o que está disponível para venda? Não somos nós. É a indústria de alimentos. Ela está na posição de nos forçar e obrigar a certas escolhas. Nós não precisamos de um novo cereal matinal que é cheio de açúcar, que ela coloca em promoção e vende. Ela cria opções vantajosas para ela.

Além disso, existe a influência das políticas alimentares que vão limitar nossas escolhas. A bem da verdade, o governo não deve impedir as pessoas de comerem nada. Mas as políticas alimentares devem tornar as escolhas de alimentos saudáveis mais fáceis e o ambiente de oferta de alimentos, melhor. As políticas não precisam ser proibitivas.

O governo escreve leis e regras sobre o uso de automóveis e sobre como se comportar [no trânsito]. Nós temos isso em todas as áreas. Então, para tornar o ambiente alimentar mais saudável precisamos de regras, leis e impostos que conduzam à promoção da saúde e à sustentabilidade ambiental. Isso é o que o governo deve fazer.

Esquema de abordagem sistêmica sobre sindemia (Foto: Reprodução/Swinburn)

Na sua palestra e no relatório da Lancet, você pareceu otimista com as políticas alimentares aqui no Brasil. Por quê?

O Brasil mostrou liderança, no passado, sobre orientações para dietas sustentáveis, com a existência de organizações como o Consea [Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional], uma plataforma muito democrática para que a sociedade civil pudesse opinar sobre as políticas alimentares. Hoje, ele foi extinto, mas existem políticas públicas exemplares no Brasil, como o programa de alimentação escolar, que é muito inovador e reconhecido mundialmente.

Também, o desenvolvimento de um novo tipo de classificação alimentar [a classificação NOVA] veio do Brasil, de Carlos Monteiro. Então, há muitas coisas sobre as quais o Brasil é famoso nas políticas alimentares. É até por isso que estou aqui. Estou aqui para aprender sobre estas coisas.

Nas últimas decisões sobre política alimentar, o governo Bolsonaro extinguiu o Consea, demitiu funcionários que entendem do assunto e temos um ministro da Saúde que não dá importância ao tema. Ainda assim, você está otimista?

A atual conjuntura política me deixa bastante pessimista. Mas políticos não estão lá para sempre, e as coisas mudam a todo momento. Países avançam [nas políticas alimentares] na América Latina, e vimos isto com o Chile, o México e o Peru. O Brasil também está perto [de avançar na rotulagem frontal de alimentos]. Penso que o país continua na direção correta, apesar de ir devagar. De toda forma, não, eu não acho que este governo facilitará um sistema alimentar mais saudável e sustentável.

Não pensa que é mais fácil destruir do que construir?

Sim (risos), é muito mais difícil construir do que destruir. Você destrói em um instante e leva anos para construir. Mas é um problema das instituições, que está dado e precisamos saber como trabalhar com isso.

O relatório fala que as mudanças climáticas fazem parte da sindemia global, ao lado da obesidade e da desnutrição. Como a postura do governo brasileiro com relação à Amazônia podem afetar essa questão?

Neste momento, eu entendo que as políticas do governo brasileiro na Amazônia vão contra as evidências científicas sobre mudança climática que apontamos no relatório. Precisamos da Amazônia intacta, já que o desmatamento é um dos fatores que contribuem para os problemas ambientais que temos. Derrubar florestas para plantar monoculturas, como soja ou pasto, serve à produção de alimentos que em geral não são saudáveis.

‘O produto que a indústria de alimentos vende é a dúvida’


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