Oficina discute como aprimorar a cobertura jornalística sobre alimentação

Evento foi realizado pelo Joio em parceria com organizações civis e pesquisadores

Melhorar a qualidade do que é produzido sobre alimentação na mídia brasileira. Esse foi o principal objetivo da primeira edição do Programa de Treinamento para Jornalistas e Estudantes sobre a indústria de alimentos ultraprocessados e a saúde pública, que reuniu 31 participantes e 15 convidados na Faculdade de Saúde Pública da USP, em São Paulo, na última terça-feira (19).

“Entendemos que somos um dos poucos veículos de mídia que abordam este tema sob uma ótica mais social e política e gostaríamos que mais profissionais fizessem o mesmo”, afirmou no encontro Moriti Neto, um dos editores e fundadores do site O Joio e O Trigo.

A oficina foi organizada conjuntamente pela equipe do Joio com a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), a ONG ACT Promoção da Saúde e a Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, tendo o apoio do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da USP (Nupens/USP).

Linhas gerais,  os participantes avaliaram que o programa colaborou para entender a ampliar o olhar sobre o assunto. “Fazer o diálogo da alimentação com assuntos como tributação e rotulagem é muito importante, traz esclarecimento a respeito dos temas”, declarou o jornalista Tessandro Vilela, 35, um dos inscritos na oficina. “E entender o que está por trás da alimentação. Este é um assunto que está em voga e deve permanecer assim por muito tempo”, acrescentou.

“As informações trazidas aqui vêm de pessoas com especialidades diferentes. Há pessoas que trabalham na academia e conseguem enxergar de maneira crítica pesquisas científicas e mostrar isso para os jornalistas. Isso pode nos ajudar a tomar mais cuidado com o nosso trabalho e não repetir erros que foram cometidos por outras pessoas ao abordar alimentação e dieta, por exemplo”, afirmou a estudante de jornalismo, Natalia Silva, 22.

Um ponto de partida para discutir jornalismo e alimentação é entender melhor o Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, que oferece orientações sobre como comer de forma saudável.

O documento se baseia na classificação alimentar NOVA, que derrubou o paradigma da pirâmide de alimentos, para propor quatro outras categorias para a comida de acordo com os níveis de processamento e tratamento a que ela é submetida: 1. produtos in natura (frutas, verduras); 2. produtos minimamente processados (iogurtes naturais, carnes, farinhas); 3. produtos processados (macarrão, geléias e pães); e 4. produtos ultraprocessados (bolachas, salgadinhos, sucrilhos etc.).

Com tal fundamentação, o Guia deixa três recados claros: 1. consuma mais produtos in natura ou minimamente processados; 2. diminua a ingestão de alimentos processados; e 3. evite os ultraprocessados, porque fazem mal.

As evidências científicas que levaram à construção do documento são fruto, em grande parte, do trabalho do pesquisador epidemiologista Carlos Monteiro, do NUPENS/USP.

Na oficina, ele explicou como começaram os primeiros estudos que relacionam o aumento da ingestão de alimentos ultraprocessados com a maior incidência de doenças crônicas não-transmissíveis, como a obesidade. Falou de como percebeu que é o ambiente, e não o indivíduo, que é um dos responsáveis pela epidemia de tais enfermidades.

“Essa história tem que ser conhecida pelas pessoas, porque existe uma outra história sendo contada, que é a história da responsabilidade individual, que a pessoa é preguiçosa e não tem vontade de emagrecer. O que os estudos mostram é que é impossível comer pouco se você tem uma dieta ultraprocessada, porque ela não sacia. Ela é feita para não saciar. Os ingredientes que ela utiliza, por não serem alimentos de verdade, não sacia. A única solução é não consumir esses produtos, regulando a comercialização”, afirmou Monteiro.

Conflito de interesses

A coleta de informações para a ciência, no entanto, não é sempre neutra. Como diferentes interesses entram em conflito na hora de pautar, conduzir ou concluir um estudo científico ou a formulação de políticas públicas foi o tema da discussão que trouxe a nutricionista Camila Maranha, professora adjunta na Universidade Federal Fluminense e consultora da ACT Promoção da Saúde. Ou seja, um conselho para jornalistas evitarem pesquisas que servem de isca para gerar audiência, mas, na prática, desinformam o público.

Em síntese, o que é conflito de interesses está na lei 12.813/2013, que regula a conduta do serviço público brasileiro. No entanto esse conceito pode ser mais amplo, sobretudo em pesquisas acadêmicas.

“Conflito de interesses é uma situação ou um conjunto de condições em que acontece algo ou em que pode acontecer algo. A gente não está falando de divergência de opiniões.Mas existem diferentes classificações de conflito de interesses, como os de interesse individual, como obter vantagem financeira; institucional, como uma decisão que beneficie uma instituição específica; ou estrutural, entre as diferentes áreas que abordam um mesmo tema“, explicou a nutricionista.

Políticas de regulação

Um tema ligado à alimentação em que isso se expressa é a discussão dos alertas de rotulagem frontal em alimentos. Aqui no Brasil, a questão está em pauta na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). No momento, estuda-se ou a adoção de triângulos pretos para avisar sobre excesso de sal, gorduras, aditivos e açúcar em alimentos ou um modelo em formato de semáforo.

“A América Latina está na vanguarda das políticas sobre saúde. Só campanhas de educação e autorregulação da indústria não funcionam para lidar com os alimentos ultraprocessados. É necessário ver o caso do tabaco”, declarou na oficina Ana Paula Bortoleto, pesquisadora em alimentos do Idec. Ela se referia à convenção Quadro da ONU, que impôs restrições ao comércio de cigarros.

“Uma dificuldade ao falar de alimentação é as pessoas assumirem que se trata de um problema de saúde coletiva, que demanda políticas públicas, e não é uma questão meramente individual”, complementou a pesquisadora.

Problemas coletivos precisam de soluções coletivas e a taxação de bebidas adoçadas, como refrigerantes vem sendo adotada em países como o Chile e o México para reverter epidemias de doenças como obesidade, problemas cardiovasculares e diabetes. O tema também está em pauta no Brasil. “É uma das políticas mais eficientes. Uma das coisas que mais afeta a decisão de consumo passa por aumento do preço dos produtos”, afirmou a socióloga Paula Johns, diretora da ACT, durante sua apresentação.

“Nosso foco de regulação nunca foi em cima do indivíduo, mas da forma como um produto é comercializado no mercado. Então, quando a gente fala em ultraprocessados, ninguém está falando em proibir, mas em regulamentar esse produto”, complementou Paula.

Para o público, a exposição dos convidados foi importante para mostrar como é feita a formulação de políticas públicas no país. A jornalista e ativista Alexandra Duarte, 30, disse que as apresentações ajudaram a como tornar públicas as discussões sobre alimentação e saúde. “A gente tem visto como a divulgação de fake news vem de muito tempo na área da alimentação. Consolidar fontes e dados para trabalhar o jornalismo na área da alimentação é o mais importante, para trabalhar de forma mais ética e construtiva.”

Ferramentas de investigação

O programa de treinamento também ofereceu técnicas para que os jornalistas interessados em alimentação pudessem ampliar o tratamento e as investigações que fazem do assunto. A gerente-executiva da Abraji, Marina Iemini Atoji, realizou um pequeno curso ensinando boas práticas no uso da Lei de Acesso à Informação. Essa regra se tornou uma das principais ferramentas de reportagem para obter informações de entes públicos ou privados ligados ao Estado brasileiro.

Outra opção oferecida para os jornalistas foi o instrumental para ler os balanços financeiros de empresas. Na oficina, o repórter Fernando Torres, do jornal Valor Econômico, mostrou modos de decifrar as planilhas de grandes empresas. Entre os números que mostram ativos e passivos em dinheiro, ele mostrou ao público como é possível fuçar nos documentos e descobrir boas histórias, sobretudo de companhias do ramo da alimentação.

O estudante de jornalismo Victor Matioli, 24, disse que, para ele, foi enriquecedor ter jornalistas e não jornalistas falando do mesmo assunto. “Como repórter, conhecer todas as frentes de luta por políticas públicas é bem engrandecedor”, afirmou.

Ao final do evento, a avaliação dos organizadores foi de satisfação. “Foi a primeira vez que organizamos um programa do tipo. Acredito que os pilares fundamentais para próximas ocasiões já estão colocados. Agora, precisamos manter contato com o público e pensar em como podemos tornar o que já foi bom ainda melhor”, concluiu João Peres, um dos editores e fundadores do Joio.

Após a oficina em São Paulo, mais dois programas de treinamento serão realizados ainda no primeiro semestre deste ano. Estão previstos, em maio, um curso no Rio de Janeiro e outro em Brasília.

(Foto do destaque: O Joio e O Trigo)

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