Não sacou qual o inimigo da Capitã Marvel? Sinto muito, ele pode ser você

As mulheres poderosas e que sabem voar não têm nada a provar e não vão pra cozinha se não quiserem   

Quando Capitã Marvel estreou nos cinemas em 8 de março, Dia Internacional da Mulher, os haters estavam organizados, determinados a liderar uma campanha de boicote ao filme. A horda era composta por homens brancos nerds e fãs de cultura pop, numa faixa de idade de 30 anos pra cima. Os “argumentos” soavam pífios, ridículos, bizarros, sempre em referência a atriz Brie Larson, escalada pra viver o primeiro papel de protagonista como uma super-heroína depois de 20 filmes da Marvel Studios tendo homens como personagens principais desde 2008.

“Ela não sorri”. “Ela é antipática”, passaram a dizer sobre a atriz nas redes sociais e nos sites especializados em cinema. E, óbvios, como só os machos pseudo-cultos podem ser, desabaram pra níveis de fundo de poço – embora tenhamos descoberto nos últimos anos que o poço pode não ter fundo, né?

“O uniforme dela não mostra nada”. “Ela não tem bunda”. “Por que essa mulher não vai cozinhar?”. “Quer ser super-heroína no cinema, mas aposto que não sabe nem fritar um ovo”.

Foi tocando no tema cozinha que os raivosos, babando  inconformados por não se sentirem representados – ah, coitadinhos! – no filme, deram ao Joio a chance de meter a colher no assunto e lascar o pau de macarrão em gente babaca.                     

Esse discurso baseou uma “estratégia” dos trolls pra detonar a obra cinemática. E o cúmulo da bizarrice se manifestou no Rotten Tomatoes, um dos sites de críticas de cinema de maior audiência na internet e que precisou, no dia 8, remover um famoso sistema de resenhas prévias devido aos ataques.

A imbecilidade, sabemos, pode não ter limites. Foi o caso. Em 9 de março, data seguinte à estreia, o site foi bombardeado novamente. Dessa vez, por robôs, que fizeram com que Capitã Marvel recebesse mais de 58 mil críticas negativas, colocando a aprovação do filme no Rotten Tomatoes em 33%. Num dia, o filme tinha muito mais opiniões desfavoráveis do que Vingadores: Guerra Infinita – um dos sucessos recentes da Marvel – teve enquanto estava em cartaz nas salas de cinema espalhadas por zilhões de países.      

Ah, a cozinha na boca dos machões

“Pois eu não volto pra cozinha, nem o negro pra senzala, nem o gay pro armário. O choro é livre (e nós também)”, declarou a cantora Pitty no Twitter, em março de 2015. Era a resposta a um “seguidor” que disse pra cantora “voltar à cozinha” após uma discussão política. Estava ali uma perspectiva cultural que tem por interesse manter as mulheres sob domínio masculino e que relaciona a cozinha como uma representação física e simbólica desse suposto domínio.

A reação de Pitty fez parte de  uma luta que a artista trava, no mínimo, desde 2003, quando se colocou a peitar figuras do cenário hardcore da música, dominado por homens brancos.

Pois é: fiquemos com Pitty e Brie Larson. Até porque, infelizmente, os exemplos de mulheres “mandadas” pra cozinha por machistoides são tão comuns quanto encontrar alimentos ultraprocessados nas prateleiras dos supermercados.   

Olha só, nerdaiada reaça, salvo engano, estamos em 2019. Ainda precisamos mesmo avisar que uma mulher pode preferir jantar fora em em vez de preparar o jantar? Ou que o homem pode colar na cozinha e preparar o rango sem pensar “nossa, como sou foda, estou ajudando em casa”?

Tá, eu sei, precisamos, sim, avisar. O século 21 não garante que figuras obscurantistas e obtusas tenham passado a pensar por conta própria (alô, Flávio Bolsonaro!). Milhões de anos de evolução da espécie humana não asseguram que certos cérebros tenham se desenvolvido.                    

Então, vamos lá.   

Bom, hoje, mulheres disputam vagas de emprego com vocês. Tomam cerveja e whisky sem constrangimento. Manjam de vinhos. Curtem futebol. E, embora a igualdade de condições tenha que caminhar a passos largos em todas essas questões ainda, muitas minas já não têm saco pra dar satisfação aos brucutus.

E essas minas vão à cozinha quando elas querem, cara. Pode bater aquela vontade de fazer um rango que não tenha nada a ver com você. Ela vai porque teve vontade e, se você for esperto, aproveita o momento e saboreia, sem cobrar que ela vá de novo.

Pode ser, também, que ela nunca queira ir. Que não saiba nem fritar um ovo. E daí, meu chapa, qual é o seu problema? Aprenda a fritar o seu ovo ou vai comer um PF e não enche a paciência.               

As mulheres caminharam pra ganhar o mundo. E seguem caminhando pra frente. Se você é quem está andando pra trás, sinto te dizer, mas já era. Pode rolar um ou outro recuo, inclusive eleitoral, aqui e acolá, mas é o mundo tosco que está na sua cabeça que precisa se adaptar.  

Opa, não acabou

Você, machão, que talvez não saiba nem fritar um ovo, melhor não se meter a fazer crítica de filme se estiver na turma de babacas que tentou abaixar a “nota” de Capitã Marvel artificialmente ou que ficou apontando falhas da trama onde não tinha, só pra disfarçar o machismo.

O filme não é uma obra de arte, mas é honesto. Tem problemas pontuais, mas, no geral, é competente, principalmente como um filme de origem que introduz bem uma personagem no universo cinematográfico da Marvel depois do estrondoso sucesso de Vingadores: Guerra Infinita e antes da continuação do estrondo, que chega às telas em abril, com Vingadores: Ultimato (pelamor, hein, tradutores? O original é Avengers Endgame, tava fácil e seria bem mais legal).

Filmes têm a intenção de se tornar públicos, geralmente. E, portanto – oh, novidade! – são sujeitos a  críticas. No entanto, eles não costumam ser tão bombardeados e odiados antes da estreia. A não ser que sejam, ora veja, protagonizados por mulheres.  

Em Star Wars: O Despertar da Força, de 2015, e Caça-Fantasmas, de 2016, ambos protagonizados por mulheres, senti vergonhas alheias parecidas. Mulher-Maravilha, em 2017, não fugiu da situação, afinal, Gal Gadot, a atriz que protagonizou o filme, era “magrinha demais, não era gostosona e bombada como uma guerreira amazona deveria ser”.

Capitã Marvel, depois da estreia, expôs mais dessa babaquice e, essencialmente, o medo dos machistas de plantão. Como a “estratégia” do boicote não funcionou porque a bilheteria se mostrou excelente (não estou torcendo pra Disney, dona da Marvel, ficar mais trilhardária do que já é, mas é legal pacas ver meninas e meninos chegando com assessórios de uma heroína no cinema), a genial ideia seguinte dos haters foi: “Vamos encontrar pelo em ovo”.

Supostos problemas de roteiro, a escolha das cenas de ação e os efeitos especiais passaram a ser alvos. Seria só cômico, se não fosse trágico. É, portanto, tragicômico que esses “problemas” tenham sido apontados, na maioria, por caras que gostaram ou ao menos não encontraram os mesmos defeitos em porcarias cheias de buracos como filmes do Thor e do Homem de Ferro. 

Não é questão de gosto, claro. A não ser que a gente entenda por gosto a crítica de maior recorrência entre os nerds machões que assistiram ao filme: “Ela é poderosa demais. Resolve tudo muito fácil. Não tem inimigos e desafios à altura”.  

De novo, não me lembro de ouvir ou ler nada comparável quando se falava em filmes de super-heróis protagonizados por homens.   

O que incomoda o pessoal que vive dessas criticas vazias é que a personagem de Brie Larson não é, em nenhum momento da história, sexualizada, objetificada. A roupa super-heroica que ela usa é realmente um uniforme, não uma colã desconfortável. Sem falar que não existe nenhum, repito, nenhum, interesse romântico por parte da moça. Isso deve ser dureza pra galera que está sempre à espera de um valentão salvando o dia.

Aí, rapaziada que tá com medinho: numa frase, o recado de Carol Danvers, a identidade “civil” da Capitã Marvel, resume o inimigo maior que o filme se propôs a enfrentar e mostra exatamente onde ele é mais significativo como obra cinematográfica que, aliás, é dirigida por Anna Boden (a primeira mulher a co-dirigir um filme da Marvel) e Ryan Fleck.  

A cena mais marcante vem no final do terceiro e último ato do filme, quando após ter sido completamente dominado, Yon-Rogg, ex-professor de combate de Carol e, na verdade, um traíra de marca maior, provoca a heroína pra que “controle as emoções e poderes”, e o vença numa “luta justa”, de igual pra igual, corpo a corpo, algo que, em tese, ela nunca havia conseguido. É aí que a moça se liberta definitivamente da influência tóxica do personagem interpretado por Jude Law e responde: “Eu não tenho que provar nada pra você”, terminando a batalha com uma rajada de fótons que nocauteia inapelavelmente o sujeito (vi meninas, mulheres, meninos e homens, vibrando nesse momento no cinema. Uhu!).

E preparem-se: em Vingadores: Ultimato, Carol/Capitã Marvel estará de volta. Os diretores do filme já adiantaram que ela, entre os heróis, é a mais poderosa. Não é śó Thanos, o vilão-mor da trama, quem terá problemas. Homens que não aprendem, de jeito maneira, a amar e admirar mulheres que são fortes e sabem voar também vão seguir se borrando.    

Foto em destaque: Divulgação Marvel Studios

Carta a uma jovem mulher que ainda não nasceu


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Sobre o autor

    Moriti Neto

    Moriti Neto

    É editor e repórter. De preferência, repórter.

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