Integrante certo da tropa de choque do futuro governo, o parlamentar gaúcho Luis Carlos Heinze tem histórico cheio de preconceitos e ódio, assim como o presidente eleito    

Dá até para brincar de família. Jair Bolsonaro (PSL) e o senador eleito pelo Rio Grande do Sul Luis Carlos Heinze (PP) têm muito em comum. Os laços de “parentesco” passam por várias convergências. Desde praguejar contra índios, homossexuais e negros até a defesa incondicional do agronegócio, incluindo o envolvimento com trabalho escravo. Além disso, como todo “homem-macho”, uma traição não é considerada um problema.

Mas não sejamos rigorosos. Ninguém aqui é moralista. Além do mais, o relacionamento de Bolsonaro e Heinze vem de longe. O primeiro está, como o processo eleitoral tentou mostrar, faz sete mandatos, 28 anos, a ocupar uma cadeira de deputado federal. O segundo passa perto: são 20 anos na Câmara, eleito cinco vezes consecutivas.

Cansaram de votar juntinhos no Congresso. Os casos são fartos. Por exemplo, aprovaram com convicção e parceria a Proposta de Emenda Constitucional 241, enviada ao Legislativo por Michel Temer (MDB), um dos presidentes mais impopulares da história, e apelidada de PEC do Fim do Mundo, por prever o congelamento de investimentos do governo em saúde, educação e moradia pelo prazo de 20 anos.

Eles rezam pela mesma cartilha. Literalmente. Heinze estava, ao lado de Ônix Lorenzoni (que já admitiu ter recebido dinheiro de propina, mas é considerado homem forte de Bolsonaro), Magno Malta e Alexandre Frota, na roda de oração transmitida ao vivo para comemorar a vitória eleitoral, no dia 28 de outubro, do capitão reformado do Exército.

Luis é, na verdade, uma versão regionalizada de Jair. Latifundiário, é membro da Bancada BBB (Bíblia, Boi e Bala) e atua para garantir votos favoráveis a ataques aos direitos dos trabalhadores, como a  terceirização irrestrita e a agressiva reforma trabalhista de Temer.

No entanto, para  a corrida presidencial, o parlamentar gaúcho estava fechado com Geraldo Alckmin, após acordo feito entre o PSDB e o PP.  A costura entre as duas siglas garantiu como candidata a vice-presidente na chapa do tucano a senadora Ana Amélia, correligionária e conterrânea de Heinze. A dobradinha foi aprovada por unanimidade em convenção partidária realizada no dia 2 de agosto deste ano.

Nada que um pequeno deslize, uma puladinha de cerca em meio ao primeiro turno das eleições, não resolvesse.

“Homem de bem”, mas sem lealdade

Era dia 30 de setembro e Luis Carlos Heinze estava em cima de um caminhão na avenida Goethe, esquina com a rua Mostardeiro, no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Dali, discursou: “O povo brasileiro está esperando pelo nosso capitão Bolsonaro e pelo nosso general Mourão.”

Dezoito dias antes, 12 de setembro, a menos de um mês da votação do primeiro turno, ele escorregava do casamento com Alckmin e Ana Amélia e embarcava oficialmente na candidatura de Bolsonaro. Em coletiva a jornalistas, confessou: “Temos um trabalho de muito tempo, estou com ele (Bolsonaro) há 20 anos na Câmara dos Deputados. Não é uma posição pessoal de hoje.”

Heinze destacou, ainda, que Bolsonaro, em 2014, pediu apoio de deputados para concorrer à presidência. O parlamentar gaúcho incentivou o capitão. Aliás, o ruralista admitiu que a candidatura só não saiu pelo PP – partido com maior número de denúncias e investigações na Operação Lava Jato -, porque o militar reformado não conseguiu o espaço que gostaria dentro da legenda.

“Já faz algum tempo que estamos conversando sobre essa situação (a mudança de apoio). Temos a nossa relação de amizade com Bolsonaro, não é uma questão de hoje”, reforçou Heinze, via Facebook, omitindo que atropelou a orientação partidária que havia aceitado na convenção de agosto.

Reza, mas não para todos

Em uma audiência pública realizada no município de Vicente Dutra (RS), em novembro de 2013, Heinze afirmou que quilombolas, índios, gays e lésbicas são “tudo que não presta”. Três meses depois, o vídeo com as declarações foi divulgado, mas o deputado, sem nenhum constrangimento, disse que mantinha a declaração preconceituosa. Não bastasse, aconselhou os produtores rurais a contratar seguranças privados, mesmo que isso resultasse em “derramamento de sangue”.

A postura do parlamentar remete diretamente às declarações do presidente eleito, que ganhou espaço na mídia justamente propagando mensagens racistas, homofóbicas e machistas. Sem falar no discurso armamentista e violento, outra linha que os coloca de mão dadas.

As falas cheias de ódio e preconceito renderam a Luis Carlos Heinze, em 2014, o título de “racista do ano”, pela organização de defesa de Direitos Humanos Survival, ONG inglesa que classificou a postura como uma amostra do “lado sombrio do Brasil”.

O modelo de família defendido pelo político é, portanto, muito próximo, se não for idêntico, ao do “amigo de tantos anos”. Se Bolsonaro diz que um filho dele jamais se casaria com uma negra porque foi bem educado, Heinze assina embaixo, deixando evidente que só considera pessoas brancas e heterossexuais como aquilo que “presta” na sociedade brasileira.

Não à toa, estavam unidos em oração “familiar” no dia 28 de outubro. E, com motivos de sobra, o gaúcho é cotadíssimo para ser o ministro do Agricultura do próximo governo.

“Até o dia 28 de outubro, meu compromisso era eleger Jair Bolsonaro. Meu nome é citado para o Ministério da Agricultura. Conversamos e decidimos que a Frente Parlamentar da Agricultura (a Bancada Ruralista) ajudaria a escolher o futuro ministro da Agricultura. Tem o meu nome e outros nomes de parlamentares e empresários do ramo que podem muito bem ocupar a vaga. Sou técnico agrícola, engenheiro agrônomo e trabalho nessa área há mais de 40 anos”, comentou Heinze, em palestra no município de Caxias do Sul (RS), logo no dia seguinte ao resultado final das eleições.

O que o deputado não fez questão de mencionar é que relativiza questões graves que são recorrentes na agricultura e pecuária do país. Outra vez em 2014, Heinze não surpreenderia aos que o conhecem. Na proposta de mudança da PEC 81, do Trabalho Escravo, que incluía expropriação de terras sem indenização em casos de flagrante situação análoga à escravidão, ele foi um dos articuladores e relator do processo que atendeu ao lobby do agronegócio para tentar alterar a definição de trabalho escravo, retirando do texto expressões como “jornada exaustiva” e “trabalho degradante” para satisfazer os interesses de oligarquias rurais.

Ainda assim, a desapropriação de terras de patrões condenados por trabalho escravo foi aprovada. Heinze, destacado pelo Ruralômetro, instrumento da Repórter Brasil que denuncia violações das relações de trabalho no campo, como um dos deputados federais autuados por infrações trabalhistas cometidas em empresas rurais, não gostou.

Agora, entretanto, ele terá um forte aliado para colocar essa regra – até hoje não regulamentada – em risco, já que Bolsonaro vê os ruralistas como “vítimas dos fiscais do Ministério Público do Trabalho que chegam na propriedade e acham problema” e pretende  “combater o ativismo judicial no campo”.

Ministro da Agricultura ou não, Luis Carlos Heinze pode ficar tranquilo. Certamente, ele encabeçará a tropa de choque do futuro governo federal. A bancada fundamentalista religiosa, ruralista e armamentista acaba de ganhar mais um B. Continuará sendo a da Bíblia, do Boi, da Bala. E, obviamente, também, a da mais autêntica família Bolsonaro.

Imagem em destaque: Luis Macedo. Arquivo Agência Câmara.  

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