‘Promoções e personagens famosos ou celebridades fazem com que as crianças peçam o produto, independente do conteúdo e da qualidade’, diz pesquisadora argentina

“Resulta compreensível que as mães se mostrem confusas a respeito da qualidade nutricional dos produtos que consomem.” A frase consta de um estudo feito com mães argentinas, mas poderia ser o resultado da mesma pesquisa em praticamente qualquer lugar do mundo. Nesse contexto, a publicidade e as demandas das crianças se transformam em “princípios que regem a alimentação”.

A série de pesquisas sobre publicidade infantil feita pela Fundação Interamericana do Coração Argentina (FIC Argentina) ajuda a explicar como o país atingiu um dos maiores índices de obesidade do mundo – 60% de sobrepeso e obesidade entre adultos, 30% entre adolescentes de 13 a 15 anos. E de consumo de refrigerantes. E de consumo de bolachas doces.

Os estudos também oferecem pistas de por que medidas para frear problemas relacionados à obesidade têm dificuldade em sair do papel. “Convocamos formuladores de políticas públicas e outros especialistas da área de saúde. Começamos a discutir sobre a necessidade de que haja uma regulação na Argentina”, diz Lorena Allemandi, diretora de Políticas de Alimentação Saudável da FIC Argentina. Mas nada foi adiante pelos motivos que se conhece: a agenda política nem sempre se move de acordo com as melhores evidências científicas.

O grupo de pesquisadoras acumulou 21 mil anúncios publicitários na televisão. E constatou que brinquedos vinham em primeiro lugar, seguidos por alimentos, num cenário igual ao brasileiro. Quando se começou a observar os alimentos, sobremesas, lácteos, bebidas açucaradas e fast-food, nessa ordem, respondiam pela maior parte das emissões.

Descobriu-se que crianças argentinas de 4 a 12 anos estão expostas a uma média de 60 anúncios semanais desses produtos apenas na televisão. 90% deles têm excesso de sal, gordura ou açúcar. A maior parte dos anúncios direcionados aos pequenos apela a sabor, aroma e textura. Na maior parte há uso de personagens infantis ou promoções (brindes e vendas casadas).

Uma das conclusões é de que uma restrição apenas durante os programas voltados a crianças seria infrutífera, já que os anúncios se direcionariam à programação geral. Foi a constatação a que o Chile chegou na prática. Depois de um ano de restrições em horários específicos, no ano passado um decreto ampliou a proibição de anúncios com excesso de calorias, sal, açúcar e gordura, agora de 6h a 22h.

Talvez sabendo disso é que no mês passado a indústria de alimentos argentina anunciou um plano voluntário de não se valer de publicidade em horários televisivos que tenham mais de 35% de audiência infantil. Mas apenas em alimentos considerados de alta caloria.

Pensando em políticas públicas mais sólidas, o FIC Argentina realizou grupos focais, que são pesquisas qualitativas feitas com segmentos específicos da população. Nesse caso, mães de baixa, média e alta renda foram entrevistadas a respeito da publicidade.

Em todos os casos, constatou-se que o “efeito amolação” criado pelo marketing é um fator fundamental para garantir a compra de produtos que na maioria das vezes não são bons para a saúde: “Mamá, comprame, porfa, porfa, porfa”. Outras vezes, é a publicidade enganosa que confunde as mães quanto às qualidades de um produto.

Os resultados estão resumidos em vídeos exibidos abaixo.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista com Lorena Allemandi.

Para vocês, quais os principais achados dos estudos?

Para nós, uma coisa muito importante foi que pela primeira vez pudemos documentar a grande quantidade de publicidade a que as crianças estão expostas em nosso país. Sabíamos, a evidência dizia que em vários países isso acontece. E também as evidências de como a publicidade influencia o comportamento são muito amplas. Mas nos faltava contar com os dados locais: poder dizer que na Argentina as crianças estão expostas a determinada quantidade.

Esse foi o grande achado do estudo para movimentar a agenda política, que é sempre nossa finalidade quando pensamos em investigação.

Queríamos documentar o tipo de estratégia que a indústria utiliza na Argentina para captar a atenção das crianças. Uma em cada quatro publicidades usava celebridades e personagens. Um em cada três usava promoções. Isso repete o que acontece em outros países. E reflete a necessidade de pensarmos a respeito dessa situação na Argentina.

Com esses dados o que fizemos foi trabalhar em uma agenda pública. Convocamos formuladores de políticas públicas, outros especialistas da área de saúde. Começamos a discutir sobre a necessidade de que haja uma regulação na Argentina.

Em paralelo a isso fizemos grupos focais com mães. Detectamos o “efeito amolação”. É um estudo qualitativo, que não é generalizável a todo o país, mas que dá um panorama. Vimos que o uso de promoções e de personagens famosos ou celebridades faz com que as crianças peçam o produto, independente do conteúdo e da qualidade.

Há uma situação aspiracional, ou seja, hoje ter um refrigerante na mesa, em especial nas classes mais baixas, é uma situação de satisfação, de poder dar algo bom para os filhos. Não há uma preocupação com a saúde. Então, há uma necessidade, independente de trabalhar a nível político, de gerar na população uma sensibilização sobre o tema. A população em geral precisa começar a entender, a questionar o que implica o consumo desses produtos.

Depois fizemos um segundo passo, que era olhar a embalagem. Porque temos o interesse de mobilizar a agenda política em relação à rotulagem frontal. Fizemos um estudo exploratório com sobremesas, biscoitos doces e cereais matinais. 300 produtos, os com maior índice de publicidade e de consumo. A Argentina está nos primeiros lugares do ranking mundial de consumo de bolachas doces. O que vimos foi que a grande maioria tem algum nutriente em excesso. 87%.

E quatro em cada dez não apenas têm um nutriente em excesso, mas têm informações enganosas: dizem que são fontes de vitaminas, de cálcio. Documentamos a grande quantidade de informação enganosa que recebem os consumidores. Existe a necessidade de uma rotulagem que seja fácil de entender. Por isso gostamos tanto do modelo chileno. Esse é o que é melhor compreendido pelas pessoas e que melhora a tomada de decisões.

Na Argentina, o agronegócio tem um peso muito grande na vida política. Como isso atrapalha a agenda regulatória?

Isso ficou demonstrado mais que nunca quando começamos as discussões políticas. Há alguns anos o Ministério da Saúde estabeleceu um acordo voluntário sobre obesidade infantil com a indústria de alimentos. A partir disso se formaram alguns grupos de trabalho para os quais fomos convidados. Nossa postura inicial foi de tentar barrar esse acordo. Fizemos uma carta com várias organizações destacando toda a evidência de que os acordos voluntários não funcionam. À parte isso, quando se trata de desenhar uma política, quem vai regular? É incoerente por si.

Mas ao final não conseguimos. Então fizeram os grupos de trabalho. E nós, como sociedade civil, além de participar exigimos a divulgação de conflito de interesses. O resultado, passados dois anos, é zero. Esses grupos se reuniram com frequência e não há ainda um norte concreto de como se vai chegar a uma política pública. Estamos esperando.

Também trabalhamos muito no Legislativo. Toda essa evidência científica que temos, pedimos reuniões. Há alguns projetos de lei sobre publicidade infantil. Sempre damos assessoria. Mas nenhum projeto até agora chegou à discussão parlamentar.

Tivemos uma derrota bastante grande. Em dezembro se discutiu uma reforma tributária na Argentina que pela primeira vez impunha um imposto sobre bebidas açucaradas, o que era muito bom para a saúde pública. Claro que fizemos muita pressão para que fosse incluído, para que não fosse tirado, mas houve muita pressão tanto das grandes corporações como de produtores regionais. Isso foi suficiente para que esse artigo fosse excluído. Foi muito desalentador.

A proposta do imposto partiu da sociedade?

Surgiu desde o Ministério da Economia. Haviam colocado um imposto sobre as bebidas com o argumento de que é o que recomenda a OMS. Quando revisamos essa proposta, vimos que o impacto inicial seria nulo em saúde pública. Era muito baixo. Então, trabalhamos para mudar.

E o Ministério da Saúde mandou uma proposta que foi levada em conta no Congresso. Era muito melhor. Era um imposto que tinha uma variação de acordo com o conteúdo de açúcar, nos moldes do que foi feito na África do Sul. Mas não avançou. E agora não sabemos quando haverá outra oportunidade.

Em todo o mundo, a indústria argumenta que a publicidade infantil é uma questão de liberdade de expressão e que a responsabilidade pela obesidade é dos pais. Como te soam esses argumentos?

Isso é facilmente refutável. A questão de culpabilizar o indivíduo… É o mesmo em nosso trabalho com controle de tabaco. Culpabilizar o fumante. As estratégias são as mesmas para sufocar propostas de políticas públicas. É evidente que não há liberdade de expressão se não há um direito humano à saúde protegido. São argumentos muito conhecidos e muito utilizados.

A solução não virá nem responsabilizando a pessoa que tem sobrepeso, nem os pais. A solução não é individual. É populacional. Por isso é necessário que os Estados liderem esse processo num processo político transparente e livre de conflito de interesses.

Como a Argentina chegou a um dos piores índices de obesidade da América Latina?

Tudo isso tem a ver com a exposição a alimentos não saudáveis. Os ultraprocessados. Essa transição que se deu na qual em lugar de escolher alimentos naturais começamos a substituir por produtos que praticamente não têm ingredientes naturais. E a grande influência do marketing por trás dessa alta disponibilidade de alimentos não saudáveis. A indústria investiu muito dinheiro em marketing justamente nos países de média e baixa renda.