Indústria abre guerra de narrativa para emplacar sua rotulagem sobre alimentos

Setor privado soma apoios de outras áreas na tentativa de pressionar Anvisa a deixar de lado evidências científicas de que alertas nos rótulos funcionam

A indústria de alimentos abriu oficialmente a temporada de disputa de narrativas. O setor, representado pela Rede Rotulagem, a qual reúne 22 sindicatos empresariais, quer emplacar um modelo próprio na parte frontal das embalagens. Para isso, vem a público com chumbo pesado, atacando com influenciadores, pesquisas de opinião e propagandas.

As empresas do ramo armaram uma ofensiva pública sobre um tema que preferiam abordar no privado até pouco tempo atrás. Em uma semana, realizaram dois eventos públicos, agregaram novas organizações à peleja e estiveram por duas vezes em companhia do diretor-presidente da Anvisa, William Dib.

A agência reguladora é responsável por conduzir, desde 2014, a discussão sobre qual o modelo de rotulagem frontal que melhor funciona para desestimular o consumo de produtos com excesso de sal, gorduras e açúcar.

No decorrer das discussões, a Diretoria Colegiada da Anvisa aprovou em maio de 2018 um relatório preliminar favorável ao formato de alertas com os dizeres “Alto em” açúcar, gorduras saturadas e sal, defendido por organizações sociais e pesquisadores reunidos na Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável.

Modelos de rotulagem em discussão no Brasil

 

A análise da Gerência Geral de Alimentos do órgão mostrou que esse sistema é o que melhor funciona na mudança de hábitos de consumo. Também concluiu que o modelo de semáforo, advogado pelas empresas de alimentos, não se sustenta em evidências científicas favoráveis.

Vale lembrar: nesse período, ainda, a Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia) agiu judicializando a questão para tentar protelar o encerramento da consulta pública sobre o relatório favorável aos alertas.

Após uma dança das cadeiras, no entanto, houve mudança de orientação na Anvisa. Indicado pelo presidente Michel Temer, o cardiologista e ex-deputado federal William Dib assumiu o cargo de diretor-presidente no final de setembro e chegou chegando. Já na largada, adotou o discurso de que o modelo proposto pela indústria é o que melhor funciona, contrariando o que toda a área técnica da agência concluíra.

Além disso, Dib, pouco antes de tomar posse, havia se reunido de portas fechadas por duas vezes, pelo menos, com representantes da indústria, sinalizando que colocaria um freio na ideia de adotar os triângulos e que trabalharia em prol do alerta em formato de semáforo.

Depois de transcorridas as mudanças na Anvisa, a Rede Rotulagem organizou na última terça-feira (27) uma mesa redonda em São Paulo sobre saúde e alimentação com figurões da área para anunciar publicamente sobre a necessidade de colocar alertas com o modelo de semáforo nos alimentos. É como na velha história de que você só coloca o time em campo para jogar quando tem a certeza que vai ganhar.

O modelo de alerta em semáforo, proposto pela Rede Rotulagem

Dois dias depois, em Brasília, realizou novo evento. Salta aos olhos a entrada de duas novas organizações na coalizão contrária aos alertas. A Proteste, especializada em direito do consumidor, e o Instituto Akatu, que diz estimular o consumo consciente, patrocinado por Coca-Cola e Unilever.

O grupo de entidades empresariais ainda lançará uma campanha publicitária no início de dezembro para a chamar atenção sobre o tema. “A primeira fase da iniciativa terá o objetivo de engajar os consumidores por meio de informações e opiniões de especialistas, promovendo a informação e a troca de opiniões”, diz comunicado da Rede Rotulagem divulgado à imprensa.

Junto à propaganda, o setor empresarial contratou duas pesquisas de opinião, cujos resultados são conflitantes entre si.

Coleta conduzida pelo Instituto Ideafix de Pesquisas entre 14 e 20 de novembro diz que 66% dos brasileiros desconhecem a discussão sobre rotulagem. Foram 660 respondentes, entrevistados de forma online. Para estatísticos, é difícil ter rigor metodológico em consultas pela internet, em especial pela dificuldade em obter precisão nos recortes de educação, idade, renda, região e sexo, necessários para uma pesquisa de abrangência nacional.

Questionado pelo Joio, o Instituto Ideafix explicou, por meio de sua assessoria de imprensa, como funciona o sistema. “Trata-se de uma pesquisa de painel online, com base de mais de 500 mil respondentes. O painel representa todos os estratos. A base é acessada e as respostas são validadas de acordo com a demanda do cliente. No caso da Rede Rotulagem a solicitação foi população acima de 18 anos, abrangência nacional. As variáveis de sexo, idade, escolaridade e renda fazem parte da qualificação do respondente.”

Os responsáveis pela pesquisa não dão detalhes sobre como as entrevistas foram conduzidas — se por e-mail, enquete, Facebook, Twitter, Whatsapp, código morse… Tampouco explicitaram qual foi o direcionamento. O Joio requisitou o questionário da pesquisa à assessoria de imprensa do Ideafix. Perguntamos: “Quais foram as perguntas direcionadas aos respondentes da pesquisa?”

Recebemos o seguinte: “Foram feitos quatro blocos de perguntas: 1. Sobre hábitos de saúde; 2. Sobre a importância da alimentação; 3. Interesse sobre alimentação e fontes de informação; 4. Mudanças nas embalagens de alimentos.”

Mas… aceitando como verdade o que diz a pesquisa, outra consulta da Rede Rotulagem afirma algo curioso. O modelo de rotulagem em semáforo seria o preferido por sete entre dez brasileiros, de acordo com pesquisa realizado no ano passado pelo Ibope Inteligência com mais de 2 mil entrevistados em todo o país. A pergunta é: como as pessoas poderiam preferir um modelo de rotulagem, se mal sabiam que isso estava em discussão?

Pois bem. A ofensiva empresarial acontece, também, próxima do momento em que o outro lado, dos consumidores e das organizações da sociedade civil, coloca o seu bloco na rua.

A Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, uma coalizão composta por mais de 30 entidades, como o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), a ACT Promoção da Saúde, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e o Conselho Federal de Nutricionistas (CFN), realiza desde 9 de novembro uma campanha de conscientização com as histórias de brasileiros que enfrentam dificuldade para entender os rótulos dos alimentos.

Peça da campanha da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável (Divulgação)

“A campanha apresenta depoimentos de médicos, pacientes diagnosticados com doenças relacionadas à alimentação não saudável e pessoas que se preocupam com o que consomem. O objetivo é alertar para o fato de que, com rótulos mais compreensíveis e informação adequada, as pessoas podem fazer escolhas alimentares mais conscientes e, consequentemente, mais saudáveis”, afirma o comunicado da Aliança.

Ações mais amplas

Segundo o presidente da Abia, João Dornellas, o semáforo “é uma linguagem universal”. “Traz bastante informação ao consumidor. Facilita o consumidor a tomar decisão, porque indica nos três principais nutrientes, açúcar, gordura saturada e sódio; se esse produto está em proporção média ou baixa, dentro daquele produto, tendo como base uma dieta de 2 mil calorias, como diz a Organização Mundial da Saúde; e, além de trazer a informação, não causa alarde”, ele afirmou no evento da Rede Rotulagem na terça (27).

Para o representante das empresas, o modelo em triângulo não oferece as devidas informações. Ocorre, no entanto, que o Chile adotou recentemente um formato de selo semelhante, em octógono, e, segundo os primeiros resultados, está repercutindo de maneira positiva tanto no consumo como na reformulação.

Modelo do selo de rotulagem de alimentos adotado no Chile

Pesquisadoras da Universidade do Chile e da Universidade da Carolina do Norte (EUA) demonstraram, durante o último Congresso Latino-Americano de Nutrição, no México, que a medida teve impacto tanto na escolha alimentar como na reformulação de produtos.

Para Dornellas, no entanto, não é a indústria que deve melhorar a qualidade dos seus produtos —por exemplo, uma lata de Nesquik sabor morango tem 75% de açúcar na sua composição, como mostra o projeto “O Joio no Rótulo”, do Joio. Mas, de acordo com o presidente da Abia, “não existe produto bom ou ruim. Existem dietas desbalanceadas, dietas que não são saudáveis”.

Um Nesquik, então, poderia, conforme palavras dele, “fazer parte da dieta com equilíbrio”. “Equilíbrio, essa é a palavra chave para a gente.” O delicado equilíbrio de toneladas de açúcar, gordura e sal. De outro lado, a recomendação oficial do Estado é evitar esses produtos, como mostra o Guia Alimentar para a População Brasileira, do Ministério da Saúde.

O açúcar contido em um Nesquik, mostrado pelo projeto “O Joio no Rótulo”

Ainda assim, os interesses da indústria de alimentos contam com figurões para ajudar a defendê-los. No evento da última terça (27), um trio deles participou da mesa redonda da Rede Rotulagem com esse objetivo. A nutricionista e fitoterapeuta Vanderli Marchiori fez afirmações afinadas com Dornellas. Segundo ela, é preciso educar o consumidor — e o sinal em triângulo, que fora aprovado na Anvisa, não tem esse caráter, mas seria, na verdade, proibitivo.

“Cada vez que a gente faz uma restrição”, ela afirmou, referindo-se entrelinhas aos triângulos, “eu não estou educando o consumidor e a população a consumir”, disse a representante da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (Sban), que está presente em todas as iniciativas das corporações do setor.

“Se eu não educo, em médio período de tempo, aquilo não é perene. Ele [o consumidor] vai voltar ao consumo anterior ou simplesmente vai voltar a ter uma dieta completamente equivocada e desbalanceada”, declarou ela, que também é presidente da Associação Paulista de Fitoterapia e conselheira da Associação Brasileira de Nutrição Esportiva.

“Você pode comer de tudo, mas você tem que avaliar a quantidade, o seu estilo de vida, você tem que avaliar, enfim, diversas coisas”, acrescentou outro convidado da Rede Rotulagem, o educador físico com pós-graduação em nutrição Marcio Atalla, que ficou conhecido, entre outras coisas, por fazer o ex-jogador de futebol Ronaldo emagrecer em um quadro do programa Fantástico, da Rede Globo de Televisão. Ele negou que a qualidade da alimentação seja fundamental para promover a saúde.

“É muito simplista eu chegar e ficar taxando algumas coisas. Muita gente acha que eu sou contra a nutrição, eu não sou. Eu acho que a alimentação é importante. Agora, dizer que ela é determinante para a sua saúde, desculpa…”, afirmou.

“Quando eu vejo um projeto como esse de rotulagem, de caráter muito proibitivo”, disse, em referência aos triângulos, “eu acho que é jogar para a galera”. “Não vai mudar absolutamente nada”, acrescentou. Atalla afirmou que é importante tratar de outras questões.

Uma das abordagens possíveis seria a de diminuir a quantidade de sal, gorduras e açúcar por iniciativa da própria indústria, sugeriu o presidente da Abia. Ele citou os acordos firmados entre as empresas do setor e o Ministério da Saúde para reduzir a presença dos três nutrientes nos seus produtos.

No entanto, as metas de tais tipos de ação são muito tímidas tanto no princípio quanto nos fins. O último compromisso firmado entre empresários e governo, sobre o açúcar, apresentou metas frágeis e ignorou alguns dos principais produtos ultra-açucarados, como chocolates, sorvetes e cereais matinais. Além disso, abriu espaço para substituir as doses do ingrediente por adoçantes, que também têm riscos para o consumo humano.

A cientista Natalia Pasternak foi a terceira convidada pela Rede Rotulagem a falar no evento de terça. Apesar de, como os outros, não se mostrar favorável aos triângulos e preferir o semáforo, trouxe um caso exemplar de como os interesses da indústria se travestem dos mesmos interesses da população, quando, na verdade, são conflitantes.

“A próxima vez que vocês comprarem pipoca da Yoki, sabe? Pipoca de microondas Yoki. Vem escrito ‘livre de transgênicos’. Isso é a maior enganação ao consumidor que já inventaram, porque não existe milho de pipoca transgênico. O tipo de milho que é cultivado para pipoca não existe na variedade transgênica. Então, milho de pipoca escrito ‘livre de transgênicos’ é uma super enganação para o consumidor e induz ao erro, porque está assustando o consumidor com algo que nem sequer existe”, ela afirmou.

Sinal verde ou sinal de alerta para o que dizem?


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