Coca-Cola atuou para barrar políticas de saúde pelo mundo, mostram documentos

Mensagens divulgadas por arquivo público revelam como funciona o lobby da megacorporação

Emails vazados de executivos e funcionários da Coca-Cola mostram que a megaempresa atuou para desarticular políticas públicas da área de saúde em pelo menos 14 países. A Coca concentrou esforços, sobretudo, para barrar a criação de impostos sobre bebidas açucaradas, produtos que são carro-chefe da companhia.

Mensagens divulgadas revelam conversas de Michael Goltzman, atual vice-presidente de Política Global, Sustentabilidade Ambiental e Impacto Social da corporação, com filiais na Alemanha, Bósnia Herzegovina, Canadá, Estados Unidos, Espanha, Equador, França, Índia, Israel, Reino Unido, Rússia e Polônia.

Nas tratativas, ocorridas entre 2015 e 2016, o executivo descreve ações da companhia com o objetivo de: 1. evitar a taxação de refrigerantes, sucos, néctares e outras bebidas açucaradas; 2. interferir na tomada de decisões de agências regulatórias nos países; 3. influenciar as estratégias de saúde internacionais propostas pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Goltzman admite o lobby das sucursais da Coca-Cola tanto na iniciativa privada quanto em todos os níveis de autarquias públicas. A estratégia, simples: atirar para todos os lados. Envolvia, segundo os emails, persuadir jornalistas, derrubar evidências científicas, reunir influenciadores digitais e construir associações com empresas concorrentes e/ou integrantes da mesma cadeia produtiva.

A taxação de refrigerantes e afins é vista por autoridades de saúde pública como uma das ações mais efetivas para prevenir doenças crônicas não transmissíveis, como obesidade, diabetes, hipertensão e câncer, relacionadas ao consumo excessivo de açúcar e outras substâncias. A medida foi sugerida pela OMS em outubro de 2016 para reduzir as epidemias internacionalmente crescentes de tais enfermidades.

O discurso da Coca-Cola sobre o assunto é polido e cuidadoso, mas, como de boas intenções o inferno está cheio, esconde o que está pressuposto: continuar vendendo a mercadoria. Enquanto cada vez mais evidências científicas deixam claro que os produtos da empresa estão longe de trazer benefícios à saúde, ela tenta tapar o sol com a peneira.

Não custa lembrar: o refrigerante leva altas doses de corante caramelo, um elemento que contém substâncias suspeitas de causar câncer; de cafeína, que pode aumentar a pressão arterial; de ácido fosfórico, que inibe o uso de cálcio pelo corpo; e de adoçantes artificiais aspartame e acessulfame de potássio —nas versões zero.

Quando a OMS começou a discutir, no início de 2016, a necessidade de taxação de bebidas açucaradas, a Coca-Cola se movimentou para desviar o foco da questão.

“(…) Estamos levantando alguns dos dados para explorar como podemos alavancar um relatório para pressionar por uma visão mais holística sobre a promoção da saúde, em vez de um único foco em açúcar e refrigerantes”, escreveu em 15 de março Wouter Vermeulen, diretor sênior do Centro de Políticas Públicas para Europa, Oriente Médio e África, em um email repassado a funcionários pelo vice-presidente Goltzman.

À mercê de a OMS aprovar a recomendação sobre elevar os impostos de refrigerantes e afins, o executivo da Coca-Cola falou em antecipar localmente a atuação da companhia para evitar com que a medida entrasse em vigor. “Por meio de ações da Coca-Cola nos países, devemos tomar a frente, demonstrando como podemos ajudar a reduzir o consumo de açúcar das crianças”, afirmou Vermeulen em 18 de maio de 2016.

Um dos locais escolhidos pela megaempresa, à época, foi o Reino Unido. O país tentava aprovar a taxação de bebidas açucaradas; e a Coca-Cola, obviamente, queira impedir isso de ocorrer.

“Vamos fazer uma grande campanha para registrar que um imposto sobre refrigerantes é discriminatório, regressivo e não abordará o desafio da obesidade”, declarou Joanna Price, vice-presidente de comunicações globais da Coca, em mensagem datada de 16 de março de 2016. O email também foi repassado por Goltzman.

Deus salve a rainha. O mesmo tipo de ação da Coca-Cola no Reino Unido se multiplicou por outros países europeus, asiáticos e também pelas Américas.

Em outro caso, dessa vez de trato com a iniciativa privada, a empresa buscou persuadir jornalistas a comprarem o lado dela da história, fosse pelo bem ou pelo mal.

Em um clássico do jornalismo, o diretor Ben Sheidler, alocado na sede da companhia em Atlanta, requisitou uma conversa com o editor responsável pela repórter Candice Choi, da Associated Press (AP). Ela procurou a empresa antes de publicar uma matéria que mostra que a Coca-Cola pagou cientistas para promoverem a versão mini das latas do refrigerante como uma opção de lanche saudável.

“Nós fizemos chegar aos editores da AP nossa queixa formal sobre esta história. Um telefonema está agendado para mais tarde com Candice Choi e seu editor. Nós continuaremos a apelar para que eles não publiquem a reportagem”, afirmou Scheidler em 13 de março de 2015.

Origem dos documentos

Todas essas informações estão disponíveis para consulta na biblioteca da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), que catalogou um arquivo de 30 mil documentos da indústria de alimentos e conversas sobre iniciativas na área de saúde pública.

Os documentos revelam diálogos entre o setor empresarial, acadêmicos e agências regulatórias, e foram divulgados em um acervo digital no último dia 14. Uma versão preliminar dos papéis embasou pesquisas na academia e livros sobre o conflito de interesses entre a indústria de alimentos e meio científico.

O arquivo da UCSF é mais uma mostra de como o lobby empresarial afeta as decisões de políticas públicas. O modo de ação do setor de alimentos é semelhante ao que fazem as grandes corporações mundiais de cigarro. Em ambos os casos, as companhias tentam se colocar como parceiras de governos para promoção da saúde, quando, na verdade, vendem produtos relacionados com o surgimento de doenças.

Desde o vazamento dos documentos, a equipe de O Joio e O Trigo se debruçou sobre o material para jogar luz sobre as estratégias da indústria. Vem mais por aí.

Aliás, você não viu —e provavelmente não verá por algum tempo— nenhuma imagem da Coca-Cola nesta reportagem. A empresa está na nossa cola.

Recebemos, no última 10 de julho, uma notificação extrajudicial de The Coca-Cola Company. A corporação, representada pelo escritório Di Blasi Parente & Associados, solicitou a retirada de quatro imagens que constam em reportagens do site em um artigo do portal parceiro Outras Palavras, além de avisar que não usássemos mais imagens relacionadas aos produtos da corporação.

 


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