Em um debate entre homens brancos e ricos, um tema relegado a mulheres e pobres só poderia ficar de escanteio, e escancarar ainda mais o divórcio entre política e prioridades sociais

Em um universo dominado por homens brancos e de alta renda, um tema relegado historicamente a mulheres e pobres só poderia ficar de escanteio. A alimentação padece ainda da ilusão de que se trata de uma questão individual e de famílias, e não da sociedade e do Estado.

O primeiro turno das eleições só confirmou o que já esperávamos: poucos candidatos conseguem expressar algo concreto sobre aquilo que une a todos os brasileiros, de direita e de esquerda, ricos e pobres, sulistas e nordestinos. Todos comemos – e os que não comem deveriam ser nosso foco de preocupação e de compaixão.

A esse assunto estão ligados a política agrária, os efeitos da industrialização, as leis trabalhistas, a renda, a desigualdade de gênero e uma série de outras questões. Aos presidenciáveis é exigido que apresentem políticas sobre economia, emprego, programas sociais, habitação, segurança. A alimentação, restrita à cozinha, seria vista como tema menor, com o qual um presidente da República não deve sujar os dedinhos.

Lá em agosto começamos a acompanhar debates e a vasculhar planos de governo em busca de algo que remetesse àquilo que nos mantém vivos. Encontramos muito pouco. De fato, do candidato que lidera as pesquisas, encontramos nada. Jair Bolsonaro pode chegar ao Palácio do Planalto sem elaborar proposta alguma sobre alimentação – e sobre vários outros temas, é verdade. Não deixa de ser curioso e absurdo, no país que ameaça voltar ao Mapa da Fome e que atinge degraus cada vez mais altos nos rankings globais de obesidade.

O descolamento entre política partidária e vida real se produz em diversos campos de nossas vidas, como resultado do sequestro desse universo pelo sistema financeiro. A alimentação não é a única ausente do debate. Mas é, digamos, uma das estrelas apagadas, o que nos remete às raízes do Brasil.

Num país escravagista, alimentação sempre foi preocupação para a senzala. Se os pobres sempre foram os mais afetados pela fome e pelo acesso limitado a alimentos, são agora também as principais vítimas das doenças crônicas atreladas ao excesso de peso.

Num país machista, é questão para a mulher resolver. Ao macho basta chegar em casa e encontrar tudo sobre a mesa. Só recentemente, com certo raio gourmetizador, homens e ricos passaram a ocupar a cozinha – mas, em muitos casos, só no fim de semana, mais como hobby do que como distribuição do trabalho doméstico.

Numa era marcada pelo individualismo, é raro encontrar quem pense em soluções coletivas. É infinita a disposição para a máxima de que comer é uma escolha individual que passa por educar as pessoas para o consumo consciente. Ainda que fosse essa a panaceia, educação (por enquanto) é um tema para o Estado e para a sociedade.

De 2014 a 2018, o contexto mudou de forma a que não se deveria ignorar o problema. Logo em seguida ao segundo turno de quatro anos atrás, o Ministério da Saúde lançou o Guia Alimentar para a População Brasileira, que responde à epidemia de obesidade e doenças crônicas ao recomendar que se evite a comida-porcaria.

Nesse ínterim, dezenas de organizações se reuniram na Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, expondo a importância do tema e a necessidade de pensar coletivamente em saídas. A carta de compromissos da coalizão foi assinada por candidatos ao Legislativo. No Executivo federal, apenas Guilherme Boulos (Psol) e Marina Silva firmaram o documento.

De outro lado, não foram poucas as ações da indústria para evitar que a mensagem-chave do Guia Alimentar se convertesse em políticas públicas. Enquanto as atenções se voltaram ao embate presidencial, as empresas conseguiram a nomeação de um comandante da Anvisa em tudo alinhado ao propósito de evitar que o país tenha alertas nos rótulos para o excesso de sal, açúcar e gorduras saturadas. Opinar sobre isso deveria ser pressuposto para um candidato ao Planalto.

No começo do processo eleitoral, foram revelados alguns dados do Censo Agropecuário que não deixam dúvidas de que na última década a concentração de terras aumentou, o uso de agrotóxicos cresceu, dezenas de milhares de pessoas tiveram de deixar o campo. E foram para a cidade, aumentando o número de brasileiros que não produzem o próprio alimento.

Nesses quatro anos, o desemprego explodiu, o agronegócio se fortaleceu ainda mais, o mercado financeiro abocanhou fatias cada vez mais generosas do Estado. A fome dos investidores, por sinal, parece ser a única fome que interessa ao debate. Dia sim, dia também, somos informados de que o mercado está “nervoso” e precisa se alimentar de mais notinhas verdes para se acalmar. Às custas de nossa comida de verdade.

Debater alimentação é muito mais do que pensar em um hábito individual. É falar sobre o machismo que faz recair sobre a mulher o trabalho doméstico. Sobre a perda de direitos trabalhistas que precariza a renda e rouba o tempo que deveria ser dedicado à mais básica atividade humana. É expor a desigualdade que se torna cada vez mais gritante. É, também, expor um sistema capturado que escolhe as prioridades de acordo com interesses que não são os nossos. É lembrar que somos humanos. Num mundo que tenta nos desumanizar.