As eleições presidenciais deste ano estão dirigidas pela lógica mais consumista possível, talvez por isso dialoguem com o neofascismo 

Segure-se aí, leitor ou leitora. Xingue, não. Pelo menos, não antes de chegar ao fim deste apanhado de ideias.

Primeiro, vale dizer que o espaço do Joio é democrático e que minhas opiniões não refletem o posicionamento do time. Temos, entre nós aqui, pontos de convergência, mas, também, de discordância.

Segundo: o jornalismo feito neste site não posa de “balança da verdade”. Trocando em miúdos, a gente não paga de imparcial, uma palavra tão surrada (e falsa, no contexto midiático) que até as principais mídias dos Estados Unidos – maiores propagadoras do discurso da “neutralidade jornalística” em outros tempos – desistiram de defendê-la. Temos visão de mundo, todos. Neutro, só detergente. E olhe lá.

Vambora que o momento urge. Dia 28 está aí. O papo é sobre eleições, óbvio.

As pessoas mais próximas de mim sabem: eu estava convicto do voto nulo desde muito e até pouco. Já anulei em outros momentos da vida. Sem o menor conflito de consciência. Por vezes, tasquei 00 na urna e saí leve da minha seção eleitoral, porque encaro o  ato de anular, votar branco ou se abster como um valor democrático igual a qualquer outra escolha política. Numa democracia de fato, aliás, isso pode ser discutido e criticado, mas, em tese, não precisaria ser justificado e nem ser motivo de cobrança e tomada de satisfações vindas das patrulhas morais (patrulhar tem mais potencial de afastar do que de aproximar a galera do nulo, viu gente?).

Só que estamos numa democracia fragilizada. Temos apenas brechas democráticas em um sistema controlado pelo capital financeiro e um Estado nacional que, sustentado pelo nosso trabalho, é, no máximo, sócio minoritário do poder privado de cinco bilionários que lucram cada dia mais – com crise ou sem crise –, concentrando riqueza equivalente à metade mais pobre do País à base do estímulo ao consumismo desenfreado, irresponsável ambientalmente e adoecedor de corpos e mentes. Até consumir você e eu. Tempo, energia, saúde. É a sociedade do cansaço e do mal-estar.

Esse estágio social é um perigo. Um risco para a democracia. E à vida.

Em textos que batizou pelo apelido de “Jornalismo Corsário”, o italiano Pier Paolo Pasolini, já falecido e mais conhecido no Brasil como cineasta, anteviu, ainda na década de 1970, que o consumismo seria a principal motivação para o fascismo. Linhas gerais, ele observava que a entrada abrupta e cruel (pois sem condições educacionais à altura) dos italianos na sociedade de consumo afetava de forma violenta o comportamento das pessoas, inclusive com resultados dessa violência sobre os corpos.

Não que o consumo deva ser condenado em absoluto. Ele é necessário. Mas a visão de Pasolini aponta que o consumismo colocado no topo dos nossos valores sociais acaba por resultar na humanização das coisas e, em contraposição, na coisificação das pessoas. Ou seja, seu carro vira gente. E o corpo da mulher na propaganda de cerveja vira objeto.

Nesse extremo, você e eu perdemos a identidade e, possivelmente, um tanto de humanidade. Somos reconhecidos como consumidores antes de humanos. Tornamos-nos uma massa de potenciais compradores. As diferenças são apagadas. Daí ao não reconhecimento do outro e à intolerância é um pulo. Ou um passo.

Um passo que, segundo Pasolini, nos faz tomar o caminho de um fascismo de novo tipo. Gênio que era, ele se explica muito melhor do que eu:

“Estou profundamente convencido que o verdadeiro fascismo é o que os sociólogos muito gentilmente chamaram ‘sociedade de consumo’, definição que parece inofensiva e puramente indicativa. Isso não é nada. Se se observar bem a realidade e, sobretudo, se se souber ler os objetos, a paisagem, o urbanismo e acima de tudo os homens, vê-se que os resultados dessa inconsciente sociedade de consumo são eles mesmos os resultados de uma ditadura, de um fascismo puro e simples. (…) O [velho] fascismo fez deles, realmente, fantoches, servidores, talvez em parte convictos, mas nunca lhes chegou ao fundo da alma, à sua maneira de ser”,  diz o artista e intelectual em texto publicado na revista L’Europeo, de 26 de dezembro de 1974

Com olhar preciso, Pasolini via o consumismo como novo fascismo                          Foto: Wikipedia

Para Pier Paolo Pasolini, a sociedade de consumo é sinônimo de um novo fascismo (palavra banalizada nos últimos anos e, por isso, esvaziada de sentido), algo que supera o fascismo histórico de Mussolini (conceito que não vou trazer pra cá) em termos de preparar condições para o medo, o ódio e a intolerância, porque penetra discreta, gradual e continuamente nos afetos, especialmente dos jovens.

“Pô, você fugiu das eleições, jornalista!”. Tranquilize-se. Fugi, não. As eleições presidenciais deste ano carregam uma expressão do novo fascismo, encarnada na candidatura de Jair Bolsonaro, que se vende pela lógica mais consumista possível, a partir não só das já conhecidas montanhas de fake news disseminadas pelo Whatsapp, mas de mentiras construídas de maneira mais  “clássica” ao longo dos últimos anos.

A elas:

1 – O antissistema e competente: Bolsonaro se posiciona como alguém de fora da política, um salvador da pátria. Na real, vive desde 1991 como deputado federal, totalizando 27 anos, portanto. Isso, com mandatos improdutivos, inclusive no plano da segurança pública, tema que porta como principal bandeira. Não conseguiu recursos significativos nem mesmo para o Rio de Janeiro, o estado onde reside. De 2014 a 2018, destinou à área apenas 00,3% do dinheiro público que obteve via emendas parlamentares, somente 200 mil de 61 milhões de reais. Além de ser falsa a postura “antipolítica”, temos uma forte evidência de incompetência, o que talvez explique a motivação do candidato em não dar ao eleitor a oportunidade de vê-lo nos debates, apesar de liberado pelos médicos.

2 – O justo: o presidenciável do PSL se gaba de não ter problemas com a Justiça, no entanto possui processos no Supremo Tribunal Federal (STF) e é investigado pelo Ministério Público. Há apurações que vão de apologia ao estupro até homofobia.

3 – O anticorrupção: o deputado grita aos quatro ventos que vai “acabar com a corrupção”. Isso, depois de passar 11 anos no PP, hoje chamado de Progressistas, partido com mais investigações na Operação Lava Jato, e ser suspeito de empregar funcionária fantasma. Além disso, Onyx Lorenzoni, coordenador da campanha de Bolsonaro e nome cotado como um dos homens fortes num eventual governo, já assumiu ter recebido dinheiro de caixa dois em esquemas de propina da JBS. Sem falar na acusação dos 12 milhões de reais “por fora” destinados à campanha de Bolsonaro para produzir notícias falsas e invadir a privacidade de milhões de pessoas no Whatsapp.

4 – O homem forte e verdadeiro: Bolsonaro tenta nos convencer de que é um “pai forte e verdadeiro”, aquele que vai pôr “ordem na casa”. A carreira no Exército seria uma comprovante. Em um julgamento do Superior Tribunal Militar, contudo, o então capitão da ativa foi condenado  sob  a avaliação de “desvio grave de personalidade e uma deformação profissional”, “falta de coragem moral para sair do Exército” e “ter mentido ao longo de todo o processo”.

A lógica eleitoral, principalmente na perspectiva do marketing, é “vender bem” todo e qualquer candidato? Sem dúvida. E isso cresceu absurdamente nos últimos anos, em compasso com o aumento avassalador de um cansativo fluxo de informações que mal permite que a gente pense (ou respire).

Todos fazem? Talvez. Mas, em 30 anos acompanhando a política institucional brasileira, nunca assisti a nada equiparável – em escala – à quantidade de mentiras e lógica consumista propagadas pela campanha de Jair Bolsonaro. Somado o discurso violento que espalha racismo, machismo, homofobia, defesa da tortura e ódio a “inimigos” partidários (ele não os vê como adversários, mas inimigos, numa lógica industrial de guerra) e incentiva os seguidores mais exaltados e agressivos a cometerem crimes, abandonei a minha convicção de anular neste segundo turno presidencial (importante deixar marcado aqui que não creio que a maior parte do eleitorado de Bolsonaro seja “fascista”).

Tenho feito fortes críticas ao Partido dos Trabalhadores, especialmente nos últimos quatro anos. Nem mesmo sou adepto do discurso de que a legenda, com a queda de Dilma Rousseff, sofreu um golpe (quem quiser conferir, tenho posições públicas a respeito, inclusive nas redes sociais). Por outro lado, reconheço que o PT aceitou as regras do jogo democrático-institucional e se retirou do governo quando o impeachment foi decidido (não teve nada de Venezuela ali, percebe?).

Nessa lógica consumista/neofascista visualizada há mais de 40 anos por Pasolini, prefiro a manutenção do fiapo de democracia que nos resta e lutar para aperfeiçoá-la, sem ter um governo que me ameace de censura, tortura e morte. Nem a mim nem a você.

Prefiro um candidato a quem eu possa fazer oposição do que outro que prefere me ver no pau de arara.

Prefiro ver Mano Brown criticando o PT em pleno palanque de Haddad do que um garoto sendo calado violenta e covardemente por Bolsonaro.

Prefiro poder devolver o que comprei a ter de engolir um produto enganoso com enorme potencial de se recusar, pela força das armas, a abandonar o poder mesmo que as regras da democracia assim exigirem.

Pode xingar à vontade, agora.

Imagem em destaque: Edgar Fabiano