Associação que representa corporações recebeu presidente da Sociedade Brasileira de Ciência e Tecnologia de Alimentos para conversar sobre evento em Belém

Informações sobre a programação do Congresso Brasileiro de Ciência e Tecnologia de Alimentos foram discutidas na sede da Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia). Uma reunião foi realizada no último dia 2 entre a presidente da Sociedade Brasileira de Ciência e Tecnologia de Alimentos (SBCTA), Suzana Lannes, e representantes da Abia em São Paulo.

Suzana, que é professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, não quis comentar o teor do encontro. A assessoria de imprensa da organização empresarial, porém, informou que “essa foi uma reunião institucional entre a SBCTA e a ABIA, principalmente com foco no Congresso da instituição. Esses contatos são rotina entre organizações que atuam no mesmo setor”.

O congresso é realizado desde segunda (13) até quinta-feira (16) em Belém, no Pará. A Abia participa de debates no Congresso em Belém. E Suzana coordena a mesa redonda “Alimentos ultraprocessados”, tema nevrálgico para os interesses do setor privado. Nos últimos anos, a indústria de alimentos tem tentado desacreditar a proposta de separação dos alimentos pela extensão e pelo propósito do processamento.

Essa classificação é rejeitada especialmente entre engenheiros de alimentos, que alegam não haver sentido nesse tipo de separação. Vários eventos foram promovidos nos últimos anos, em especial depois que o Guia Alimentar para a População Brasileira, de 2014, recomendou evitar ultraprocessados. O documento oficial do Ministério da Saúde é tido como pioneiro na comunidade científica e tem inspirado a criação de políticas públicas que tentem prevenir e conter os índices de obesidade.

Quando perguntamos a Suzana Lannes o motivo da reunião na sede da Abia, ela não quis informar detalhes. “Não tem motivo. Não tem assunto. Isso que eu acho estranho.” Ela afirmou ter se tratado de um “assunto pequeno” e que não havia sentido em comunicar os associados, atribuindo a um “bandido” o vazamento da informação de que esteve na sede da organização empresarial.

A presidente da SBCTA não quis informar o número de pessoas que integram a entidade, principal representante do setor de tecnologia de alimentos. As taxas anuais vão de R$ 160, no caso de estudantes, a R$ 4.080 para sócios beneméritos.

O estatuto da sociedade científica define entre os objetivos “promover e estimular a geração e disseminação de conhecimentos em Ciência e Tecnologia de Alimentos”, além de “orientar e defender a aplicação desses conhecimentos para o Bem Comum”.

A SBCTA tem uma história atrelada à indústria, embora com diferentes tipos de relação ao longo do tempo. Os primeiros cursos de engenharia de alimentos no Brasil foram criados em parceria e a pedido das empresas, que precisavam de profissionais para dar conta das mudanças de cenário na segunda metade do século passado.

A sede da SBCTA fica dentro do Instituto Tecnológico de Alimentos (Ital), uma estatal vinculada à Secretaria Estadual de Agricultura de São Paulo e também criada para fomentar projetos em parceria com o setor privado.

“A contribuição da Sociedade foi essencial para os caminhos solidificados do agronegócio brasileiro bem como no fortalecimento da carreira profissional e no florescimento de milhares de empresas de Norte a Sul do país”, diz a apresentação institucional da SBCTA.

Em 2012, o jornal Folha de S. Paulo revelou que a ex-presidente da SBCTA, Glaucia Pastore, interveio para cancelar um debate que poderia incomodar fabricantes de alimentos. A professora da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp presidia o Congresso Mundial de Ciência e Tecnologia, e mandou cancelar a mesa “O papel da mídia na obesidade infantil”, sugerida pela então presidente da sociedade, Jane Menegaldo.

Tivemos acesso à carta na qual Glaucia fala em “desconformidade” e avisa que o debate em questão “causaria inconvenientes com potenciais patrocinadores do evento”. A professora deixou claro que, a insistir naquele evento, haveria represálias econômicas contra a SBCTA.

Em março de 2004 organizações científicas enviaram carta ao Congresso Nacional pedindo mudanças no texto da Lei de Biossegurança. A ideia era dar poder total à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), o que de fato ocorreu. Na época, a presidência da SBCTA foi acusada de assinar o manifesto sem ouvir os diretores e os associados.