Anvisa considera não haver evidência para colocar edulcorantes no mesmo nível de sal, açúcar e gorduras saturadas. Mas forma atual de comunicação também deixa a desejar

O debate na Anvisa sobre a adoção de alertas nos rótulos de alimentos ultraprocessados levantou uma questão: faz sentido avisar de maneira mais clara sobre a presença de adoçantes nesses produtos?

Inicialmente, a agência pretende adotar advertências sobre o excesso de açúcar, sal e gorduras saturadas. E deixar de lado aquelas sobre gorduras totais, gordura trans e adoçantes, que eram um pedido do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

A primeira etapa de consulta pública está aberta até 24 de julho por força de uma liminar obtida pela Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia). A expectativa é de que, em seguida, a agência reúna as sugestões e elabore um rascunho da resolução que será adotada. É possível que se reconsidere algum ponto.

No caso dos adoçantes, a Gerência Geral de Alimentos declarou no relatório inicial não haver evidências suficientes de que causem mal à saúde. Porém, olhando para essas evidências, a controvérsia é tanta que faz sentido pensar em alguma maneira de melhorar a comunicação sobre a presença dessas substâncias.

Atualmente, existe a obrigação de declarar os edulcorantes na lista de ingredientes, via de regra apresentada em letras miúdas e nem sempre facilmente localizável.

A crescente preocupação com os problemas de saúde provocados pelo açúcar já tem levado a indústria a promover uma substituição por adoçantes e nem sempre isso está evidente  para o consumidor. A adoção do alerta específico para o açúcar pode acelerar esse processo. Foi o que ocorreu no Chile, único país até aqui a implementar essas advertências.

Vamos pegar um exemplo prático de como as pessoas podem ser levadas a engano. O Nescau Prontinho Light declara 12 gramas de açúcar, contra 17 gramas do concorrente, o Toddynho Light. Ambos ganhariam um selo de alto em açúcar, segundo o perfil de nutrientes da Organização Panamericana de Saúde (Opas).

É o modelo que o Idec leva em conta e que é defendido pela Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável. Mas aí vem a mágica: os cinco gramas de açúcar a menos no Nescau são obtidos graças ao uso dos edulcorantes sucralose e acessulfame de potássio. Pensando que esse é um produto voltado ao público infantil, é importante avisar mães e pais a respeito.

Dúvidas, dúvidas, dúvidas

Há muitas dúvidas sobre os males à saúde que essas substâncias podem causar. Lemos vários e vários artigos para tentar entender o cenário (parte da bibliografia você encontra lá embaixo). A principal certeza é de que ainda não conhecemos os efeitos dos adoçantes no metabolismo tão bem quanto sal, açúcar e gorduras, e que muitos estudos serão necessários.

Originalmente pensados para diabéticos, os adoçantes foram publicizados como item quase obrigatório para quem quer emagrecer. E foram ganhando mais e mais presença na vida das pessoas em geral, preocupadas com o crescimento dos índices de obesidade.

Acontece que hoje já não sabemos se esses produtos ajudam ou atrapalham. Alguns estudos desde o final da década passada têm levantado a possibilidade de que os adoçantes na verdade estimulem a obesidade por mudanças provocadas em nosso organismo. É contra-intuitivo pensar que substâncias não calóricas provoquem ganho de peso, mas é possível.

Um dos primeiros estudos foi publicado em 2008. Feito em San Antonio, nos Estados Unidos, usou como base os dados coletados de 5.158 adultos entre 1979 e 1988. Os maiores usuários de adoçantes apresentaram maior ganho de massa corporal nesse intervalo – 47% mais que entre os não consumidores.

Há alguns artigos que revisam as evidências científicas acumuladas. Um deles foi feito em 2013 por pesquisadores dos Estados Unidos. A avaliação é de que “há uma lacuna de pesquisas baseadas em evidências científicas conclusivas para desencorajar ou encorajar o uso. No entanto, consumidores deveriam ser aconselhados a empregar uma atitude cautelosa”. Não é o que temos atualmente. Pelo contrário.

Susan Swithers, professora do Departamento de Ciências Psicológicas da Universidade de Purdue, nos Estados Unidos, e neurocientista comportamental, estuda há 15 anos essas substâncias. Ela ajudou a levantar a ideia de que os adoçantes podem provocar uma alteração metabólica. “A controvérsia ajuda a indústria porque confunde os consumidores. A confusão significa que as pessoas mantêm seus hábitos, o que ajuda a vender produtos.”

Na dúvida, a legislação brasileira prevê adotar o princípio da precaução. O Código de Defesa do Consumidor fala sobre a necessidade de informar a respeito de produtos que eventualmente acarretem riscos à saúde.

Foi isso, exatamente, que levou a Anvisa a proibir em 2009 a venda de cigarros eletrônicos, “considerando a inexistência de dados científicos que comprovem a eficiência, a eficácia e a segurança no uso e manuseio de quaisquer dispositivos eletrônicos para fumar”.

Esse é também o princípio que garante que um triângulo amarelo com um T seja colocado em produtos com transgênicos na composição.

Em um artigo recente para o British Medical Journal, David Ludwig e Frank Hu, professores do Departamento de Nutrição de Harvard, abordam o intenso debate sobre o consumo de carboidratos. E se perguntam: a substituição de açúcar por adoçante promove benefícios ou ameaças? É preciso realizar mais estudos para poder responder com segurança.

Em um artigo de 2013, Frank Hu analisou as evidências sobre os benefícios da redução do consumo de refrigerantes com açúcar. “Refrigerantes diet podem ser uma alternativa aceitável para o consumo de refrigerantes com açúcar, à medida em que fornecem menos ou nenhuma caloria. Porém, pouco se sabe sobre as consequências de longo prazo para a saúde do consumo de adoçantes artificiais.”

A American Heart Association e a American Diabetes Association emitiram em 2012 um posicionamento conjunto no qual sugerem um uso cauteloso dos adoçantes. Ainda que entendam que essas substâncias podem ser benéficas na redução da ingestão de calorias, a avaliação é de que não há evidência científica de que tragam ganhos em termos de controle e perda de peso.

1. Paladar

Em meio a tantas dúvidas, está razoavelmente assentada a ideia de que os adoçantes estimulam um paladar doce. Essas substâncias são de centenas a milhares de vezes mais doces que o açúcar. “Uma quantidade minúscula produz um sabor doce comparável ao do açúcar, sem as calorias equivalentes. A superestimulação dos receptores de açúcar com o uso frequente desses adoçantes hiperintensos pode limitar a tolerância para sabores mais complexos”, disse recentemente o professor Ludwig.

É esse o motivo pelo qual a Organização Panamericana de Saúde sugere que os adoçantes sejam incluídos entre as advertências. “A justificativa para a inclusão é que o consumo habitual de sabores doces (baseados em açúcar ou não) promove a ingestão de alimentos e bebidas doces, inclusive daqueles que contêm açúcares. Esse resultado é especialmente importante nas crianças pequenas, pois o consumo em idade precoce define os padrões de consumo ao longo da vida.”

Não temos até hoje evidência conclusiva de que os adoçantes levem a uma redução da ingestão calórica. Isso pode ser explicado por vários fatores. Um deles você vê no cotidiano: a pessoa consome o adoçante para conquistar o direito de consumir outros alimentos doces, numa espécie de compensação.

Nos Estados Unidos, os obesos são os maiores consumidores desses produtos. Lá, adoçante é um produto comum entre todas as classes. No Brasil, talvez devido ao baixo preço do açúcar, é usado especialmente por classes média e alta, como evidenciou uma análise recém-publicada por pesquisadores do Rio de Janeiro. Os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2008-09 mostraram o consumo por 7,6% da população – 14% entre os mais ricos e 1,6% entre os mais pobres.

É preciso observar, no entanto, que as informações disponíveis são antigas, e é de se esperar que o consumo tenha aumentado nos últimos anos. Os adoçantes usados em refrigerantes e sucos são comuns na mesa de famílias de classe baixa, e cada vez mais à medida em que a obesidade se torna uma preocupação.

Outro fator a entender é o quanto os adoçantes serviram de estímulo ao consumo de produtos não saudáveis. O quanto foram uma porta de entrada que se somou aos motivos para a ingestão cada vez maior de doces. Um estudo publicado no ano passado mostrou um crescimento de 200% no uso de edulcorantes por crianças dos Estados Unidos entre 1999 e 2012. 25% delas consomem regularmente – 41% entre adultos. Quanto maior a massa corporal, maior o consumo. E, no geral, os pais tinham dificuldade em reconhecer a presença de adoçantes nos produtos, reforçando a ideia de que a forma de comunicação atual é insuficiente.

“As autoridades de saúde deveriam realmente se concentrar em reduzir o dulçor presente na dieta, em vez de substituir o açúcar por outros produtos”, considera Susan Swithers. “Isso é especialmente verdade para crianças, que estão aprendendo qual deve ser o sabor de bebidas e comidas. Comer e beber alimentos hiperadocicados, mesmo com um adoçante não calórico, poderia levar as crianças a uma vida de hábitos alimentares não saudáveis.”

2. Diabetes

Existem dúvidas se os adoçantes podem, em vez de prevenir, estimular o diabetes. Pelo mesmo motivo das alterações no paladar: uma substância extremamente doce poderia provocar uma resposta na produção de insulina. Mas é cedo para qualquer conclusão, de modo que esses produtos continuam sendo recomendados para diabéticos.

A Associação Nacional de Atenção ao Diabetes protocolou na Anvisa uma carta indignada com a sugestão do Idec. “Tal proposta vem discriminar TODOS os produtos voltados para o público portador de diabetes. E sendo assim, acaba por discriminar o próprio público que necessita consumir estes produtos por necessidades dietoterápicas. Assim, entendemos que a presente proposta mais cria confusão e pânico do que educa e orienta.”

De fato, o alarmismo em torno de questões alimentares tem suscitado grande confusão. Mas a falta de informações adequadas também causa confusão – e sonega um direito. O erro a gente já tem, de modo que talvez valha a pena testar novas ideias, com embasamento científico, sem criar alarmismo. O que temos até aqui permite dizer com segurança que é saudável trocar refrigerante por água. A troca por refrigerante diet ou light é recomendada por alguns e recusada por outros.

3. Microbiota

Nos últimos anos a ciência tem se maravilhado com o sequenciamento genético de nosso ambiente intestinal – o microbioma. Há uma correlação entre o microbioma empobrecido e a obesidade, embora ainda falte entender qual mecanismo leva a isso.

Uma série de estudos tem mostrado uma alteração no microbioma de ratos tratados com adoçantes não calóricos. Via de regra, aumentou-se a presença de bactérias potencialmente nocivas e capazes de desencadear inflamação, e diminuiu-se a presença de bactérias benéficas. Foram registrados aumento de peso e alteração na produção de insulina.

Seria precipitado extrapolar esses resultados para humanos. O que essas pesquisas mostram é a necessidade de fazer mais pesquisas. É aí que a porca torce o rabo. “Onde precisamos de mais evidências é na compreensão dos mecanismos específicos e em como esses mecanismos interagem com questões como genética e o restante da dieta”, diz Susan Swithers.

O problema é que pesquisas em humanos são caras. E é difícil de isolar um único fator da dieta, já que nossos hábitos de vida são entremeados por inúmeras questões. “Financiar esse tipo de ciência é realmente importante e tem de ser financiamento sem laços com a indústria que fabrica esses produtos”, continua a professora da Universidade Purdue.

Já falamos aqui no Joio sobre um artigo que revisou o conflito de interesses na pesquisa sobre adoçantes. O estudo repassou 31 trabalhos publicados entre 1978 e 2014. Dos quatro financiados pela indústria de adoçantes, três eram favoráveis. Todos os quatro financiados pelos fabricantes de açúcar eram desfavoráveis. Dos 23 sem financiamento privado, apenas um tinha conclusão favorável aos edulcorantes.

Os órgãos reguladores não têm opção que não seja olhar para esses artigos na hora de definir pela liberação de um novo produto ou de criar políticas públicas. No geral, o que organismos de saúde e agricultura fazem é declarar que se trata de uma substância “segura para uso”. O problema é que os estudos toxicológicos não levam em conta efeitos a longo prazo.

Uma das mais antigas pulgas atrás da orelha em relação a adoçantes diz respeito à correlação com o câncer. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) considera que os estudos realizados até aqui apontam resultados conflitantes e, muitas vezes, têm vários problemas na execução. Porém, a organização, vinculada ao Ministério da Saúde, está trabalhando em uma revisão das evidências existentes, com possibilidade de publicação ainda no segundo semestre. Essa revisão levará em conta quem foi o financiador de cada estudo.

“No Inca defendemos o princípio da precaução”, diz Ronaldo Correa, da Área Técnica de Alimentação, Nutrição, Atividade Física e Câncer do Inca. Com base nisso, o Inca decidiu apresentar uma contribuição à consulta pública da Anvisa na qual fala sobre os edulcorantes. Em outra frente, a organização apresentou evidências da correlação entre câncer e obesidade. “Quando se tem a ausência de evidência concreta, mas há dúvida, a sugestão é evitar ou limitar a exposição a essa substância em vez de esperar por um desfecho negativo para então tomar uma atitude.”


Alguns artigos utilizados nessa reportagem:

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Bian, X.; Chi, L.; Gao, B.; Tu, P.; Ru, H.; Lu, K. The artificial sweetener acesulfame potassium affects the gut microbiome and body weight gain in CD-1 mice. PLoS ONE 2017, 12, e0178426.

Chi, L.; Bian, X.; Gao, B.; Tu, P.; Lai, Y.; Ru, H.; Lu, K. Effects of the Artificial Sweetener Neotame on the Gut Microbiome and Fecal Metabolites in Mice. Molecules 2018, 23, 367.

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Ludwig David SHu Frank BTappy LucBrand-Miller JennieDietary carbohydrates: role of quality and quantity in chronic disease 

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