Finalista inédita, seleção croata de futebol cometeu uma “falta” no torneio que não tem relação com a bola rolando

Não sou ave agourenta e procuro não desejar má sorte a ninguém. Muito menos a homens que disputam uma Copa do Mundo a 15 mil quilômetros de distância e que não defendem nenhum clube adversário direto do meu (isso muda fácil, fácil se algum jogador dos selecionados croata e francês vier a jogar no Brasil com uma camisa rival).

No entanto, não dá para dizer que as falhas da seleção croata foram ignoradas antes da decisão de hoje, pelo menos sob os olhares da Fifa e amigões do peito que patrocinam a competição. E nem estou falando da polêmica sobre possíveis implicações fascistas de alguns membros da delegação do país dos Bálcãs, até porque o Brasil, do dia pra noite, se superlotou de cientistas especializados em política internacional e, principalmente, em História da Croácia, o que torna a minha opinião irrelevante nesse caso.

Invicta até agora, a equipe metade balcânica, metade centro-europeia debuta em finais de Copa, tendo só 25 anos de reconhecimento no meio das seleções profissionais de futebol. Depois da independência proclamada na marra durante a guerra contra a Sérvia (1991-1995), já é a segunda vez que a camisa quadriculada em vermelho e branco faz campanha de destaque (foi terceira colocada na França, em 1998).

Então, onde raios estão as falhas de um time que chegou à Rússia nada badalado e foi até a final atropelando a Argentina na fase de grupos, eliminando a dona da casa nas quartas de final e passando com autoridade pela tradicional camisa inglesa na semi?

De primeira, digo: de acordo com a “entidade máxima do futebol” estão no que os jogadores croatas escolhem beber. Nada de teor alcoólico, o problema está na bebida energética que eles tomavam enquanto posavam para uma foto antes da partida das oitavas de final, contra a Dinamarca, no estádio Nizhny Novgorod, no dia 1º de julho.

Alguns atletas bebericavam em latinhas de Red Bull, mas não podiam. Ao menos de acordo com as regras de patrocínios da Fifa, que patrulham tudo o que é consumido dentro dos estádios e arredores, instalando um Estado à parte das leis de qualquer país onde o torneio é disputado, o consumo de “bebidas não autorizadas” por membros das delegações prevê multa dez vezes maior do que uma sanção aplicada por racismo, por exemplo.

Explique-se: tudo tem motivação no relacionamento de longa data com a Coca-Cola, que desde 1950 abraça os eventos da entidade, sempre em busca de associar ao aparentemente saudável mundo dos esportes profissionais as marcas da maior fabricante mundial de refrigerantes e de outras bebidas açucaradas, dentre os grandes responsáveis pelos crescentes índices de obesidade e diabetes inclusive entre crianças, pelo mundo.

Dessa parceria nasceram os rígidos regulamentos de marketing sobre as bebidas que os jogadores podem tomar enquanto estão nas dependências sob controle de uma das mais corruptas organizações esportivas da História, uma associação mafiosa, para ser mais direto.

Nomes dados aos bois, mesmo assim a Federação de Futebol da Croácia terá de pagar uma multa de 70 mil euros, ou 315 mil reais, aos já inchados cofres da Fifa, apenas porque alguns jogadores decidiram tomar Red Bull em vez de Powerade, o energético que a Coca vende.

E quer saber do pior? Os dois são mais ou menos a mesma coisa.

De mãos dadas com a obesidade

Com ou sem energéticos nas mãos, a cena é repetida: crianças acompanham jogadores de futebol desde os túneis do vestiário até a entrada nos campos da Copa do Mundo.

A Copa é na Rússia, mas nem todos entre a garotada nasceram por lá. Há meninas e meninos de várias partes do mundo, com idades que variam de seis a dez anos, escolhidos para o teatro montado pela Fifa.

O programa que os levou ao palco do mundial de futebol é conhecido como “Mascotes da Fifa” ou “Acompanhantes McDonald’s”, que a mega-rede de junk food mantém com a federação internacional de futebol desde 2002 (o patrocínio do McDonald’s à Copa vêm desde 1994). A justificativa da parceria é de que o trabalho visa a “estimular a paixão pelo esporte e promover um estilo de vida saudável e equilibrado entre as crianças”.

Sim, é isso mesmo. Parece tiração de sarro, mas a maior cadeia de restaurantes de comida porcaria do planeta garante que se preocupa com a saúde da molecada, num cenário de quase duas décadas em que médicos e nutricionistas pesquisam e divulgam os impactos negativos do fast-food no organismo humano: bombas de gordura, sal e açúcar explodem em níveis muito acima do que os corpos precisam. Obesidade e doenças crônicas não transmissíveis – como diabetes, hipertensão, problemas cardíacos e câncer – são os fragmentos que matam ou mutilam.

E o McDonald’s é um general nesse ataque. Inclusive, é o pioneiro de uma cultura alimentar que, a partir dos Estados Unidos, abriu as trincheiras e introduziu internacionalmente usos e costumes nada saudáveis, como demonstram diversas pesquisas científicas.

Para o torneio deste ano, o programa de acompanhantes de jogadores recrutou 1.273 crianças. Na edição anterior, no Brasil, foram 1.418. Em comum, todos passaram por uma “peneira”, que partia de uma estratégia usada pelo McDonald’s ao longo dos anos: a venda casada. Não precisamos chamar de outra coisa, mas vale lembrar de um agravante quando comparada com a comercialização de lanches atrelados a brindes que logo são esquecidos: na “promoção da Copa”, são sonhos maiores aqueles vendidos junto com os lanches engordurados.

Em 2014, na Índia, lojas da megaempresa instaladas no leste e norte do país exigiam que as crianças comprassem um “McDonald’s Happy Meal” (o “lanche feliz”), ligassem para um número indicado na embalagem e digitassem o código recebido durante o telefonema para responder a uma pergunta sobre a Fifa. Os que entregavam a resposta correta passavam à etapa seguinte, um sorteio.

Com seis anos de idade à época, Abhiraj Singh foi umas das sete crianças indianas escolhidas para uma viagem a São Paulo, com passagens aéreas, estadias e ingressos de jogos bancados pela franquia de restaurantes.

“Ter a chance de entrar em campo com as melhores equipes e jogadores do mundo é simplesmente incrível. Eu tenho muita sorte. Obrigado ao McDonald’s por essa oportunidade”, disse o garoto, ao lado do palhaço Ronald, em evento que antecedeu à viagem.

Difícil falar quando uma rede de influência atua no campo do afeto e do imaginário de uma criança, mas, não, Abhiraj, você não teve “muita sorte” há quatro anos. Foi apenas vítima de propaganda enganosa. O McDonald’s quer lucro a todo custo, ainda que esse custo seja a sua doença e as de outros milhões de pessoas. Essa empresa mentiu para você, garoto, se atrelando a imagem de super-astros do esporte mais popular do mundo com o objetivo de mostrar “compromisso com a saúde”, quando, na verdade, só pretende limpar a própria sujeira, numa lavagem marqueteira.

O McDonald’s, de certa forma, já admite que a comida que serve é ruim. Por exemplo, nos EUA, a rede de lanchonetes substituiu margarina por manteiga e deixou de vender carne de aves criadas com antibióticos. No mês passado, os “lanches felizes” passaram a ser vendidos com uma redução de 600 calorias e 650 miligramas de sal. Mudanças pequenas que, nem de longe, eliminam os riscos à saúde, mas são uma admissão velada da tranqueira oferecida.

De qualquer jeito, não podemos esperar que cadeias de fast-food ajudem, de fato, a resolver o problema da obesidade e das doenças crônicas não transmissíveis. Seria como pedir aos botecos que promovessem a sobriedade, com a diferença de que bebidas alcoólicas são vendidas somente a maiores de idade em quantidade significativa de países.

Sempre eles

Um artigo intitulado “O que poderia derrubar Neymar, de verdade?”, escrito pela dupla Marina Pita e Renato Godoy, jornalistas que trabalham no Instituto Alana, dá o panorama da relação nada bacana entre empresas de comida porcaria e os esportes de alto rendimento.

O texto aborda uma pesquisa publicada em março deste ano, nos Estados Unidos, que revela que “três entre quatro anúncios e metade das promoções de bebidas exibidos ao longo dos dez mais importantes eventos esportivos, assistidos também por crianças, são de produtos com alto índice calórico ou de açúcar”.

Os autores apontam que a responsável pela pesquisa estadunidense, Marie Bragg, em entrevista recente à agência internacional de notícias Reuters, bateu sem piedade: “Ter organizações esportivas altamente populares servindo de veículo para a promoção de junk food para crianças envia uma mensagem contraditória, incompatível com a manutenção de uma dieta saudável.”

“Seria irônico, não fosse triste, que produtos ricos em gordura, sódio e açúcar sejam aqueles atrelados aos atletas de alto desempenho, que figuram no imaginário social como heróis e exemplos, especialmente para pessoas em fase de desenvolvimento”, apontam Mariana e Renato.

Eles ressaltam, também, que o aumento da obesidade infantil no Brasil e no mundo é considerado uma epidemia, “que sobrecarrega os sistemas de saúde dos países e é explicada por uma série de fatores, sendo cada vez mais questionável a predisposição genética como relevante”.

O argumento é construído a partir do trabalho do pesquisador Henrique Barros, epidemiologista que coordena o projeto Science and Technology in childhood Obesity Policy (Stop), apoiado pela União Europeia. Para ele, se fosse apenas uma questão genética (como a indústria de alimentos ultraprocessados quer fazer parecer), o percentual de obesos não cresceria tanto em décadas, período que não é considerado razoável para alterações nos genes humanos.

Só no Brasil, em uma década, a prevalência da obesidade aumentou em 60%, passando de 11,8% no ano de 2006 para 18,9% em 2016, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Dentre esses dados, um pega forte: o número de crianças brasileiras obesas aumentou dez vezes nos últimos quarenta anos, o que eleva o risco de doenças crônicas não transmissíveis, ecomo diabetes e hipertensão precoces, além de efeitos metabólicos, cardiovasculares e impactos negativos na saúde emocional de meninas e meninos.

Foto em destaque: Fotos Públicas  

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