Equilíbrio entre ataque e defesa é fundamental no debate sobre a colocação de alertas nos rótulos de alimentos. Mas há quem jogue na base do chutão

Pelas barbas do profeta! Acostumada a jogar no ataque, a Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia) armou a retranca, apresentou dados imprecisos e caiu em contradição no debate sobre a colocação de advertências nos rótulos. Pode isso, Arnaldo? A regra é clara. Não pode ficar fazendo cera porque atrapalha o espetáculo. O juiz precisa coibir.

O sarceiro se armou depois que a Anvisa manifestou a intenção de adotar alertas para o excesso de açúcar, sal e gorduras saturadas, nos moldes do que faz o Chile desde 2016. De outro lado, as empresas insistem na adoção de um semáforo que já se provou ineficaz.

“O departamento econômico da Abia fez um estudo para estimar o impacto da implementação de um modelo de rotulagem nutricional com alertas, similar ao adotado no Chile”, foi a resposta que a assessoria de imprensa nos enviou. “Esse estudo, de caráter preliminar, demonstrou que a medida poderia resultar em uma perda de aproximadamente 200 mil empregos no Brasil. O cálculo foi desenvolvido com base nas estimativas enviadas por associados da entidade.”

Abrem-se as cortinas. Começa o espetáculo

Pedimos à Abia informações detalhadas sobre o número apresentado inicialmente em reportagem do Correio Braziliense em 8 de junho. A associação não quis ir além da resposta enviada acima, o que repete a estratégia utilizada no Chile, onde não se permitiu acesso às estimativas sobre impactos econômicos da implementação das advertências.

Lá, durante o processo de discussão da medida, também o viés econômico respondeu por boa parte dos argumentos mobilizados. Como o Chile é o único país até aqui que adotou esse padrão obrigatório de rotulagem, gastamos os últimos dias analisando as informações disponíveis para saber se os dados mostrados pela Abia têm procedência.

O exagero nos números em debates regulatórios é uma tática tão comum do setor privado que está documentada em pesquisas. Assim como a indústria do cigarro, as fabricantes de alimentos costumam carregar nas tintas sobre o impacto de medidas adotadas pelo Estado.

A estimativa apresentada publicamente contradiz a própria projeção da entidade em documento encaminhado à Anvisa. Protocolado em 15 de maio, ou seja, menos de um mês antes da reportagem do Correio, e também com base em “estudos preliminares”, indica a perda de 145 mil postos de trabalho – 55 mil a menos. A queda do faturamento anual ficaria em R$ 77 bilhões, ou 12,5%, acompanhada por uma redução de R$ 2,4 bilhões nas exportações. A Abia não explicou ao órgão regulador como chegou a esses números.

Olha a confusão na cozinha!

O Ministério do Trabalho do Chile nos disse que não tem estudos específicos sobre os efeitos da lei, implementada há dois anos. A ABChile, equivalente à Abia, tampouco apresenta dados concretos.

Fomos, então, buscar informações nos relatórios anuais das empresas. Esses documentos são direcionados a acionistas. E, se tem uma coisa que você não pode fazer com acionistas, é mentir. Dá até para enfatizar um dado ou outro, pintar um cenário melhor que o real. Mas não pode ir na base do chutão.

Quem é que sobe?

Comecemos pela campeã. A Coca-Cola tem duas engarrafadoras no Chile.

“Sou grato em afirmar que 2016 se tratou de um bom ano em matéria de crescimento do faturamento”, escreveu o presidente da Coca-Cola Embonor. O volume de vendas avançou no ano de implementação da medida, puxado por bebidas sem gás, em especial sucos, e água.

A empresa foi ligeiríssima em reformular produtos. Em 2016, 70% do portfólio já era de bebidas com pouca ou nenhuma caloria. Em 2017, 79% das vendas foram desses produtos. Sim, o uso de adoçantes cresceu bastante. E é por isso que organizações como o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) defendem que a Anvisa adote uma advertência também para a presença de edulcorantes, substâncias desde sempre envoltas em controvérsia. Isso é assunto para outra hora.

Na Coca-Cola Andina, em 2014, quando os debates ainda estavam em curso, 56% do portfólio receberia selos de advertência, contra apenas 7% atualmente. Isso reforça a capacidade de reinvenção dessas empresas e, portanto, de manter os índices de faturamento e de emprego.

Empresas como Coca-Cola e Ambev estão reforçando as vendas de sucos, chás, água e energéticos, produtos com menos rejeição que os refrigerantes. Isso independe da colocação de selos.

Tanto na Embonor como na Andina, o número de trabalhadores se manteve. Isso em um cenário de recessão e baixo crescimento nos últimos anos no Chile.

Desandou a maionese

O Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil registra 1,8 milhão de postos de trabalho na indústria de alimentos e bebidas. Ou seja, se os cálculos da Abia estiverem certos, estamos falando de uma tragédia, com o corte de mais de 10% das vagas hoje existentes.

Acontece que, como mostram a lógica e o Chile, as pessoas continuam comendo. Elas não morrem! Talvez a gente deva ouvir um especialista para ter certeza, mas parece que o que acontece é que os hábitos de consumo se direcionam a outros alimentos. Ah, vá.

Por outro lado, é evidente que é preciso reduzir o índice de consumo de certos produtos e certos nutrientes. Não dá para as pessoas engordarem pelo resto dos tempos, de modo que em algum momento certas empresas terão de reduzir as margens de lucro. Isso também já vem ocorrendo, na verdade, com ou sem advertências.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) jogou contra o patrimônio e apresentou à Anvisa um estudo da Euromonitor sobre o impacto da lei chilena. A venda de chocolates caiu de 37 milhões de toneladas em 2015 para 32 milhões em 2016. Golaço. O consumo de bolachas doces encerrou uma longa trajetória de crescimento. Dois a zero. Ih, amigo, lá vêm eles de novo. Geleias e néctares, forte queda. Aí é pedir pra tomar. Houve uma troca de margarinas por manteiga. Haja coração!

Tudo é muito recente, de modo que faltam estudos científicos para dimensionar alguns aspectos da mudança. Mas já se sabe que a maior parte da população alterou hábitos alimentares. Há dois tipos de readequação. Uma, para fora do mundo da comida-tranqueira: mais alimentos frescos e pouco processados. Outra, para produtos com menos selos, mas ainda com foco nas prateleiras do supermercado.

Olha o que ele fez, olha o que ele fez, olha o que ele fez

O que é fora de questão é que as empresas de alimentos saudáveis se beneficiaram. A Nita, que vende frutas embaladas e snacks mais saudáveis, registrava uma procura dez vezes maior às vésperas da implementação dos alertas. Isso significa… Empregos.

No Brasil é de se esperar que as pessoas continuem demandando praticidade, o que abre espaço a empresas como a Nita. Também é possível que as feiras e os sacolões vendam mais e demandem mais gente.

Outra tendência clara é a reformulação de produtos. Isso obriga à contratação de mais engenheiros de alimentos.

“A partir de julho, entrada em vigência da lei, a Soprole pôde comprovar um reconhecimento na preferência dos consumidores pelos produtos sem selos, fator que resulta fundamental para explicar o significativo aumento do faturamento no segundo semestre”, registrou uma das principais fabricante de iogurtes do Chile. Essas empresas têm muito sal, açúcar e gordura para cortar, de modo que por alguns anos os engenheiros de alimentos terão diversão garantida.

Deixou o zagueiro no chão

Uma das maiores empregadoras do setor de alimentos no Brasil é a Nestlé, que diz contar com 20 mil funcionários. Tentamos saber o que se deu com essa empresa no Chile, mas não há relatórios financeiros publicados pela filial.

Observamos então o comportamento da Carozzi, também com um portfólio bem diversificado de comida-tranqueira e líder em vários segmentos. O presidente da empresa começa o relatório de 2016 dizendo que a lei “desorienta” o consumidor e “demoniza” a indústria, mas reconhece que o faturamento avançou 7,4%. Em cereais, as vendas avançaram 25%. Em compotas de frutas, 12%. No ano passado, o número de trabalhadores aumentou. Vamos repetir para não haver dúvidas: aumentou.

Que que eu vou dizer lá em casa?

A reportagem do Correio Braziliense traz a palavra da diretora-executiva da Associação Brasileira de Embalagem (Abre), Luciana Pellegrino, que afirmou que as mudanças demandariam tempo e levariam cinco anos.

No Chile, foram doze meses. E dá. Como? Criando empregos. “Em alguns casos, as empresas tiveram de aumentar os turnos na área de pré-prensa e inclusive trazer pessoal adicional aos finais de semana”, registra a Associação de Industriais Gráficos do Chile.

Durante a tramitação e às vésperas da implementação, o setor enfrentou uma maré difícil porque as empresas de alimentos estavam esgotando os estoques de embalagens antigas. Mas, depois, a retomada veio com tudo.

“A resposta que pudemos dar à forte demanda que se gerou depois deste impacto nos permitiu normalizar nosso nível de entrega e inclusive ampliar nossa cota de mercado na segunda metade do ano. A margem de lucro se recuperou de maneira importante”, registra em 2016 a Edelpa Envases del Pacífico, uma das maiores empresas de embalagens do país. No ano passado, igualou o melhor desempenho de sua história.

As empresas de alimentos vivem mudando os rótulos. Sim, uma mudança de todas ao mesmo tempo tem um impacto grande nos órgãos públicos e na indústria gráfica. Mas até nisso os alertas são vantajosos, porque usam menos cores que o semáforo defendido pela Abia e, portanto, têm um custo de implementação baixo.

Agora é fechar o caixão e beijar a viúva

“O louco sistema chileno”, disse o vice-presidente da Abia, Antonio Candido Prataviera Calcagnotto, durante um evento recente na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). “Sou professor universitário. Não vejo nenhum aprendizado naquilo.”

Durante toda a discussão na Anvisa, até a aprovação do relatório, a indústria se manteve em uníssono na tarefa de desacreditar o sistema de advertências.

Agora, perante a possibilidade de derrota, admite que funciona. E muito bem, a ponto de supostamente colocar em risco mais de 10% dos empregos no setor.

Iiiiiiiiiihh! Tá armado o bororó. O presidente da Abia diz que o consumo se reduziu em 20% no Chile, sem redução da obesidade. Calma, amigo. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Obesidade não é que nem treinador de futebol, que cai da noite pro dia.

Os alarmantes índices de obesidade da América Latina começaram a subir na década de 1970, justamente quando produtos ultraprocessados foram se tornando abundantes e cada vez mais baratos. Esses níveis chegaram ao ápice ao longo desse século, quando nos tornamos campeões dos torneios de consumo de salgadinhos, biscoitos e refrigerantes.

A ciência e o conhecimento popular mostram que perder peso é mais difícil que ganhar, como já advertia Roberto Carlos. Não o lateral-esquerdo.

“Amo você assim e não sei por que tanto sacrifício

Ginástica, dieta, não sei pra quê tanto exercício

Olha, eu não me incomodo, um quilinho a mais não é antiestético

Pode até me beijar, pode me lamber que eu sou dietético”

Provavelmente não é a rotulagem, sozinha, que resolverá o problema. Mas nós temos de nos perguntar quantas doenças estão sendo evitadas quando cinco toneladas de chocolate deixam de ser vendidas de um ano para o outro. Independente dos índices de obesidade. Dados futuros irão nos dizer quantas. Enquanto isso, convém manter a bola no chão e valorizar o futebol-arte. Sem chutão.

Pode passar a régua, seu juiz.